1-3 - <80-06-05-ie> sexta-feira, 3 de Janeiro de 2003-scan

 

O 5 DE JUNHO DE 1980

NA FUNDAÇÃO GULBENKIAN (*)

[5 DE JUNHO DE 1980]

Quando se quer iludir o inimigo principal com inimigos secundários, funciona a 100% o eufemismo: e temos a palavra "agressões ambientais" para designar o que são pura e simplesmente crimes.

Aliás, o velho eufemismo "poluição" para significar a "Merda" em português de lei, dá indícios de como o técnico aborda os assuntos. Com luvas.

Tratando-se do estuário do Tejo (mais uma vez!) para justificar os lindos estudos com patrocínio da UNESCO, é preciso afirmar que nada se sabe desse ignorado Rio. A gente chega a não saber se ele se chama Tejo e se corre para o Atlântico.

Embora o Dr. Antunes Dias, in extremis, tivesse lembrado que uma coisa é a "correlação específica" entre causa e efeito - que nem sempre se poderá delimitar com rigor - e outra coisa é saber-se a priori que determinadas causas têm necessariamente determinados efeitos (nefastos), a ladaínha continua.

"Não se conhece o input do montante fluvial - diz um engº - não se conhece o que se passa do lado do mar, não se conhece o que há de esgotos industriais."

Quando são todos a poluir para o mesmo penico, é difícil (é impossível) saber o que polui mais e o que polui antes do outro. Isto ajuda muito, claro, a não se poder provar que A, B e C são os culpados de X,Y,e Z, respectivamente. Mas não isenta A,B e C de serem, antes, durante e depois culpados.

Quando não se quer apontar o inimigo principal, é vê-los e ouvi-los, técnicos e especialistas, por esses colóquios além, inventando terríveis inimigos da civilização e do Meio Ambiente.

Tais como: as folhagens rasteiras das florestas, por exemplo, seriam as "culpadas" dos incêndios..

Isto porque o contarelo de fadas do pirómano maníaco já estava, pelo inverosímil, a atingir as raias do grotesco e do ridículo: desistiram do piro-maluquinho da área, mas falam agora da folhagem rasteira ou das pontas de cigarro.

Se formos para a tragédia fluvial chamada "estuário do Tejo", é ver os engenheiros, arquitectos, ornitologistas, paisagistas, inventando os inimigozinhos:

o caçador que não distingue as espécies protegidas das espécies a abater;

o pescador de tapa-esteiros do Montijo, que usa rede de malha estreita e é "culpado" de dizimar o peixe do Rio;

o professor primário que ensina as crianças da escola a não gostar de formigas e a não ter amor pelas avezinhas.

Mas as "salinas" e "marinhas" - quase todas em extinção - também aparecem a estes "ecólogos" de colóquio como um incalculável prejuízo para o ambiente e a paisagem. Quem sabe se não serão as salinas "culpadas" seculares de o peixe no Tejo estar morto?...

O empreiteiro que não respeita o moinho de marés como relíquia da arqueologia industrial (viva o património, agora que está na moda!) e decidiu construir sobre um deles, no Seixal, foi também lembrado pelo eng.º Bettancourt como terrível desfeador da paisagem e predador do património.

Uma "atomização" de 1800 pequenas e médias indústrias só em Lisboa – claro! - quem não vê aí uma ameaça terrível, comparativamente aos gigantes da Petroquímica, da Quimigal, da Lisnave?

O DIA MUNDIAL DO AMBIENTE

VISTO DO BRASIL

"Gazeta de Cotia", jornal que se publica nesta povoação dos arredores de São Paulo (Brasil), a propósito desse Dia Mundial do Ambiente que foram os próprios destruidores dele a inspirar, escrevia estas palavras de antologia:

" A sociedade em que vivemos caracteriza-se por um desprezo total por tudo o que não é dinheiro. A minoria que possui esse dinheiro arroga-se o poder para tudo decidir, explorando no dia-a-dia o trabalho da maioria, de forma que, no mais curto espaço de tempo, lhe garanta a maior acumulação de riqueza.

" Assim, decidindo de tudo, explora o que na Natureza é susceptível de dar dinheiro, já, a curto prazo, sem pensar nas consequências do futuro, sendo-lhe indiferente a segurança dos trabalhadores, a saúde da população, o esgotamento das matérias-primas, das fontes de energia, da terra pela agricultara industrial, de todas as coisas que não são infinitas.

"O mesmo acontece com a ciência e a técnica em que especialistas são pagos para que investiguem apenas o que interessa aos senhores de hoje, e realizem investigações técnicas que contribuem cada vez mais para dar cabo do nosso ambiente:

Exemplo típico: instalação de um polo nuclear no eixo Rio - São Paulo, decisão esta que fatalmente contraria o interesse do povos

Aqueles que decidem e optam por tais tecnologias são os mesmos que criam um dia mundial do ambiente. Para quê? Para encobrir a destruição que praticam ao longo dos outros 364 dias?

Para apunhalar directamente a Natureza, emporcalhando o Mundo?

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(*) Este texto de Afonso Cautela terá ficado inédito no ano de um projecto não concretizado: Agência de Informação Ecológica e em que o autor colaborava nos jornais: «Voz do Povo», «Jornal de Anadia», «Barlavento»