1-2<89-10-28-di> - diário de um idiota – publicado em cpt? – ecos de ecologia humana – não sei se deveria ter escrito e muito menos publicado este desatino idiota: mas a verdade é que não disse nada que não fosse verdade e nada que não continue, todos os dias, a ser a rotina na nossa democracia pluralista: democracia para quem?

LÓGICA PERVERSA

GREVES CONTRA O POVO

28/10/1989 - A política do quotidiano e a ecologia humana como pedra angular de uma antropolítica que não se limite a espremer até ao inverosímil o pacífico e pacato cidadão, foi tema desta crónica, em sábado anterior.

Entre os aspectos particulares que ficaram por indicar, refiro hoje o das "lógicas sectoriais" de grupo com impacto opressivo sobre os indivíduos .

Digno de nota, com efeito, neste processo diário de "lixar o próximo" - que, como dissemos, é regra de oiro do Poder em Portugal - não deixa de ser curioso que as mais legítimas reivindicações de (grupos sociais) oprimidos sirvam, elas também, para oprimir (ainda mais) outros oprimidos.

A pura perversão.

As greves que se fazem, no legitimo propósito de defender os direitos ofendidos de alguns trabalhadores, servem , na prática, objectivamente, para chatear ainda mais o já chateado cidadão anónimo e sem poder reivindicativo.

Greves como as dos transportes públicos, dos professores ou dos bancários parecem não ter, na prática , outro efeito que não seja o de chatear o Zé Povinho.

Já sei que dizer isto é perigoso e considerado de direita, já sei que esta crónica vai ser rotulada de reaccionária. Nesse caso, sempre que venho aqui em defesa do cidadão e dos seus direitos, sou reaccionário. Mas isso não altera um ápice a realidade, venha ela da chamada esquerda ou da dita direita: o fascismo quotidiano é sempre, para quem diariamente o sofre, bastante reaccionário, graças a Deus...

Ao ouvir a proclamação dos professores grevistas - que ameaçam liquidar o ano lectivo a milhares de crianças, se... - o subconsciente colectivo da chamada opinião pública, estremece, mas, simultaneamente, por um mecanismo automático, autosilencia-se: é demasiado absurdo para ser verdade.

E as pessoas julgam-se a sonhar, ou algures num planeta distante fora da Galáxia. Impossível ouvir o que se ouve, mas a verdade é que se ouve.

Tal como se, em plena greve dos "agulheiros do céu", por exemplo, se deixasse no ar, a insinuação, ("inacreditável", "impossível") , de deixarem cair os aviões, se...

Freud falou em "censura psicanalítica'' e, embora estivesse longe de assistir a uma perversão tipicamente moderna como esta, de que nem sombras ainda havia, na altura, a verdade é que uma premonição se continha na palavra "censura"...

Quando a chamada "opinião pública" depara com algo que, de tão absurdo, de tão ilógico, de tão impossível, de tão inacreditável, de tão incrível, ultrapassa a racionalidade humana, o mecanismo interno de autocensura colectiva, funciona automaticamente como válvula de segurança.

Há coisas que, agredindo de uma tal maneira a consciência moral que ainda nos resta, nos colocam perante o dilema; ou eu estou sadio de juízo e a irracionalidade que estou vendo ou ouvindo é impossível; ou o absurdo que estou vendo, que estou ouvindo é a expressão da pura racionalidade e , nesse caso, estou louco.

O melhor, em tal caso, é desligar. Rodar o botão e desligar. O que é uma variante, apenas, da citada censura.

Cada grupo social, ao reivindicar, junto do Poder, os seus direitos, regalias e privilégios, usa as armas que tem.

Um "agulheiro do céu" ameaça deixar cair os aviões que tem à sua guarda com as pessoas lá dentro, se...

Um trabalhador do gás, insinua que fará ir Lisboa pelos ares, se...

Um jornalista ameaça deixar milhares de sedentos leitores a pão e laranja, se...

Um médico ameaça fazer tréguas nos hospitais, deixando os doentes sem polícia durante algumas horas, se...

Um professor ameaça mandar pró galheiro o ano lectivo de milhares de crianças, se... se...

Um trabalhador ferroviário ameaça descurar as regras de segurança do comboio, se ... (ver onda de desastres ferroviários em Portugal, no ano das lutas reivindicativas contra a CP).

Sendo a greve um direito fundamental do trabalhador e não tendo o oprimido outra maneira de fazer valer o seu protesto, as suas reivindicações, as suas aspirações a uma vida melhor, qualquer acção dos grevistas fica moralmente legitimada (uma espécie de "legalidade revolucionária") pelos objectivos propostos. Como diria o outro, os fins justificam os meios.

É o momento em que o maquiavelismo típico do poder e dos exploradores , se translada para os explorados: os fins justificam os meios, também no caso dos que, recorrendo à greve, usam a vida e a segurança de outras pessoas (eventualmente tão trabalhadoras e tão exploradas como os grevistas) como moeda de troca para obterem "concessões".

Fazer com que pessoas usem outras pessoas como "moeda de troca" é a vitória suprema do poder dos exploradores sobre os explorados.

"Moeda de troca" cheira a comércio e a coisificação da pessoa humana (conceito do materialismo dialéctico que lhe chama reificação): vira-se assim a alienação contra as próprias vítimas da alienação, a opressão contra as próprias vítimas da opressão.

O que faz a classe dominante cantar de galo é esta inversão ou perversão da lógica inerente à luta de classes. Algo, por exemplo, haverá de mais afrontoso contra os explorados e oprimidos do que as greves nos transportes públicos?

A classe dos exploradores obriga os explorados à indignidade máxima para sobreviver.

Por isso as guerras da actualidade nada têm, na sua maioria, a ver com a lógica guerreira ou marcial antiga, são apenas formas perversas e pervertidas da luta de classes.

Está em curso, neste processo, uma lógica perversa, que não só induz os grupos sociais a atacarem outros grupos sociais, como os obriga a silenciar semelhante perversidade.

Auto-silenciando-se, o assunto torna-se tabu, forma de censura (como já tenho aqui escrito) muito utilizada nos chamados regimes democráticos.

 

LINKS TEMÁTICOS

A. macrocensura e a lógica reivindicativa dos grupos sociais sectoriais

Quando o oprimido se volta contra outros oprimidos

A perversão fundamental é quando a luta de classes se "internaliza" na própria classe dos oprimidos

Quando a irracionalidade racional de uma lógica sectorial de grupo atinge os limites do absurdo, os mecanismos conscientes e subconscientes de autocensura interna começam a funcionar