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OS JORNAIS E OS (SUPOSTOS) ECOLOGISTAS
29/1/1981 - Uma rápida consulta ao pouco que se sabe sobre as posições dos partidos relativamente ao problema nuclear, não deixa grandes dúvidas (nem esperanças) sobre o que vai suceder quando o assunto «subir» à discussão da Assembleia da República. Salvo as surpresas que o populismo e a demagogia sempre prégam, tudo leva a crer que a Assembleia da República, como «espelho da Nação» parece mais disposto a defender o Programa Nuclear Espanhol que nos afecta - a pretexto de não ingerência nos assuntos internos de um estado soberano - do que a defender os interesses dos portugueses que os elegeram e que esse Plano vai gravemente afectar. São assim os ínvios caminhos da democracia Parlamentar.
[ Festa da Primavera no Parque Eduardo VII ]
Ao estimar o número de pessoas presentes em manifestações ecologistas, é que a Imprensa-já-se-sabe manifesta o calo que lhe doi, patenteia a sua moral, a sua decência, a sua verdade. Para «A Tribuna» (direita moderada) «algumas dezenas» (de pessoas), «desconhecendo o que estava a acontecer, movidas somente pela curiosidade». E baia. Para «O Dia» - direita irritada e piresca - a casa das dezenas também chegou para contar os 3 milhares pelo menos, e de caras, que ali se mantiveram e que não eram mirones apanhados de acaso, na rede. Contando com esses - com os mirones - passaram, pelo menos, uns cinco mil pelo Parque. Mas para o «Diário de Notícias» - liberal de direita - «algumas centenas é a estimativa prudente».
Quanto às objectivas e caixas de filmar da TV, houve o maior cuidado em não captar panorâmias que podiam dar a ideia da grande aglomeração que efectivamente lá estava. O tipismo é melhor; o grande plano; o raro, ralo transeunte nos lugares do Parque onde não era difícil, evidentemente, descobrir bastantes abertas. Nem um só teve a ombridade de fotografar de cima, em panorâmica, o local do palco. Bastava aí, para se verem que as «dezenas» e as «centenas» em que falaram os pasquins, eram afinal milhares. Ora, além do palco, estavam outros tantos nas redondezas.
Quanto aos pasquins otelistas e anexos, o bórdio continua. E a revolução também. Não admira. Com tão bons mestres... Não tardam as tentativas de anexação, parecendo aos rapazes que são eles, esquerda revolucionária do major Otelo, os senhores da situação ecologista. Havemos de ver até quando vai isto durar.
O silêncio de «O Diário» explica-se, no entanto, porque a obra de mentira, obstrução e mistura já estava feita. O festival da Primavera é deles, na semana seguinte e com os habituais cartazes, coloridos, muito lindos, dos artistas que fielmente servem na célula. Ainda havemos de ver o redactor de «O Correio da Manhã» enlevar-se com a correcção, a moral e o aprumo com que o Festival da Primavera de inspiração PCP decorreu. Não há nada como a moralidade. E os ecologistas, além de cabelos compridos, são uns «poluidores» natos. Acima de tudo, caem em contradições horríveis, o que para um jornal como «Correio da Manhã», coerente até à noite, é basto motivo de censura e ódio.
Conclusão desta história com cenas muito chocantes: a confusão continua. Na confusão é onde eles jogam porque só na confusão podem jogar e ganhar;
- a confusão é que é bom, desde que os ecologistas não se atrelem a uma das muitas formações que os namoram; e desde que estejam decididos a ir além da máscara tranquilizante que os conservacionistas, escutistas, naturistas, anti-tabagistas e outros eco-puritanos ou eco-parvos lhe dão.
Desde que o ecologismo cheire a subversão total dos fascismos ideológicos inerentes às técnicas de manipulação que 90% da imprensa hoje usa, há que os esmagar como piolho verde.☼♣