<fe1980-1> - silêncios e silenciamentos em 1980 - temas portugueses para «dossiês malditos»

PLANO SIDERÚRGICO NACIONAL

1980

Se não temos um Plano Económico de Médio e Longo Prazo, em que um Plano Siderúrgico naturalmente se apoiasse e integrasse

Se não temos estabilidade política que permita o mínimo de coerência entre as várias acções pontuais

Se não temos informação quanto mais domínio prático sobre as novas tecnologias que vão ser instaladas

Se não temos certeza nenhuma sobre a viabilidade de aproveitamento das cinzas de pirites como minério de ferro

Se a CP não garante pôr uma nova ponte no lugar da actual ponte D. Maria

Se os países importadores de minérios de ferro diminuiram drasticamente as suas importações dos fornecedores clássicos , voltando-se para aqueles cujos minérios oferecem teores mais atraentes

Se não temos planos de aproveitamento (consumos internos) para o que se vai fazer dos excedentes de ferro produzidos

Se tudo isto é reconhecido, afirmado, criticado pelos que defendem o Plano Siderúrgico Nacional como um dos planos capazes de salvar a Pátria, quem será capaz de nos dizer o que fica afinal - argumento ou razão - que explique esta inexplicável e nos dê a lógica deste absurdo?

Se não temos planos de formação de pessoal para enfrentar as novas tecnologias que vão ser instaladas (importadas)

Se não temos dinheiro para financiar e temos de recorrer a consórcios com empresas estrangeiras (Brasil, Suécia, França) e multinacionais

Se não temos estudo sobre a viabilidade tecnológica e económica do minério de Moncorvo para fins siderúrgicos

Se não temos a certeza de como se poderá fazer, com a mesma finalidade, o aproveitameto das pirites, contando apenas com as «cinzas» para alimentar o Seixal e já que o resto dos componentes do minério ficaria no Barreiro

Se não temos qualquer sinal de que o mercado europeu inverta a sua actual situação de recessão e retracção

Se vai haver excedentes de produção e nada está previsto para o seu consumo interno, ao mesmo tempo que está vedada a exportação desses excedentes para mercados já neste momento saturados

Se nada está previsto nem resolvido para as infraestruturas necessárias ao transporte de minérios

Afonso Cautela

In semanário «Voz do Povo» , 12/12/ 1980