<ecorealismo-3> os dossiês do silêncio - entrevista-testamento-> revisão da matéria - sábado, 13 de Julho de 2002

NO DIA MUNDIAL DO AMBIENTE

ECOLOGIA E REVOLUÇÃO

4-05-2001 - Não sei francamente o que dizer deste texto irremediàvelmente datado (o auge do gonçalvismo) mas cheio de utopias e relâmpagos raros que continuam hoje, 27 anos depois, perfeitamente válidos. Era o clima do MFA e o entusiasmo «revolucionário» tudo justificava: até que, no meio das asneiras, se dissessem coisas acertadíssimas.

O facto de ter sido publicado, só se explica porque o jornal «O Século» era então o órgão dos gonçalvistas e aproveitava tudo o que cheirasse a esquerdismo anti-capitalista, até um artigo do Afonso Cautela que se chamava «Ecologia e Revolução». Nos folhetos da «Frente Ecológica» ainda se disseram enormidades maiores, mas a tiragem desses folhetos não ia além de 100 exemplares e ninguém os lia. Há textos ainda mais bombásticos do que este, nesses cadernos, mas não se expunham tanto ao ridículo porque ficaram praticamente inéditos.

Enfim, já que o passei no scanner, pois que fique por aí, como peça de arqueologia das ideias que não sei se valeria a pena exumar. Um aspecto é relativamente relevante: este «manifesto» apoiava-se num trabalho de reportagem sobre o mapa verde e negro de Portugal (as muitas reportagens que publiquei exactamente em «O Século») que, esse sim, valeria a pena ser exumado, já que as poluições contra as populações foi tema sucessivamente esquecido, até chegarmos à retórica da incineração.

Uma coisa é certa: este texto é um rico repositório de todos os neologismos que a fúria anarquizante do momento me faziam expelir pela esferográfica fora.

5/6/1975 - A estratégia apontada pela revolução cultural é a das alternativas contra os monopólios.

É a estratégia da imaginação criadora contra o imobilismo de tecnocratas e partidários empedernidos.

É a estratégia das soluções simples, práticas e de urgência, a estratégia da microeconomia, contra o alibi de que só os grandes planos macroeconómicos são capazes de resolver tudo, com soluções «gigantescas» que absorvem tempo, energia, dinheiro e capacidades, acabando por desembocar também e regra geral em gigantescos falhanços (pois, como a história não pára, os planos a longo prazo sofrem regra geral de miopia prospectiva, estando irremediavelmente ultrapassados quando chegam, se é que chegam, a ser postos em prática).

É a estratégia da socialização e do socialismo bioecológico, da descentralização comunitária, da autogestão anarcopacifista e anarco-sindicalista.

É a estratégia dos valores humanos sobrepondo-se intransigentemente aos valores materiais, da qualidade de vida sobrepondo-se à rendibilidade e à produtividade, da saúde pública acima dos interesses, lucros e tácticas particulares (indústrias privadas), do qualitativo acima do quantitativo, da vida acima dos números, do afecto acima da violência e dos conflitos ou atritos entre grupos, etc.

É a estratégia da simplificação e da imediata solução, porque é a estratégia da causalidade ecológica contra a sintomatologia reformista e reaccionária, da prevenção contra o remedeio de última hora, da antecipação prospectiva contra o facto inesperado e consumado , do debate franco e do diálogo aberto contra as tácticas do facto consumado a nível de cúpula.

É a estratégia da verdadeira economia (ecologia) contra as solicitações, tentações e armadilhas da sociedade do desperdício e da pilhagem, do lixo e do luxo, do supérfluo e do aleatório, sociedade do congestionamento também e por tudo isso.

Ao falarmos na estratégia da simplificação, é preciso não esquecer de que a complicabilidade é inerente, à sintomatologia reaccionária, à exploração e à manipulação do homem pelo homem; é preciso nunca nos esquecermos de que os exploradores e privilegiados vivem dessa «complicabilidade», vivem do aleatório e do inflacionário que lhes é inerente, vivem do congestionamento e das pseudo-soluções «fabricadas» para o combater (sic), vivem da multiplicação de doenças (sociais e individuais) e de «sintomas» patogénicos; é preciso nunca nos esquecermos de que é no ciclo vicioso do poluente e do antipoluente que radica a infernal máquina da sintomatologia nazi-fascista, reaccionária, contra-revolucionária.

Porque: só a casualidade ecológica é revolucionária.

É a estratégia da investigação fundamental, desde que se revolucione, desde a base, o conceito de investigação e de pesquisa científica, mormente no capítulo das ciências humanas, que a ecologia veio repor no grau zero: a investigação fundamental, neste momento, diz respeito à crise ecológica mundial e à maneira global de lhe fazer frente.

Uma estratégia da investigação «científica», mas não ao serviço da proliferação cancerígena da hiperespecialização de matérias e tarefas, não ao serviço da sintomatologia capitalista e consequente congestionamento (de dados, informações, ciências, serviços, especialidades, burocracias, etc), não ao serviço de interesses, lucros e indústrias monopolistas; uma estratégia fundamental que, evidentemente, não se limite a reciclar detritos e dejectos, mas que pratique a reconversão total da sociedade do desperdício numa autêntica sociedade do equilíbrio, da economia e da sabedoria ecológica.

ECONOMIZAR - ESTRATÉGIA GERAL EM TODOS OS SECTORES DA REVOLUÇÃO

Se se fala de economizar energia, é preciso generalizar esse princípio a todos os sectores vitais, para a sobrevivência portuguesa e planetária.

Não é só energia o que precisamos de poupar, reconvertendo todos os nossos hábitos individuais e nacionais, impondo a nós próprios uma autodisciplina voluntária de gastos supérfluos.

Também precisamos de poupar tempo, palavras, energias, gente, trabalho.

Também precisamos de poupar papel, para que as fábricas de celulose não continuem hiperpoluindo irremediavelmente rios e águas, e também para evitar que se continuem destruindo florestas e matas pelo mundo fora.

Também precisamos de poupar cimento, de proibir que se destruam arbitrariamente e por força da lei capitalista, casas e prédios que podiam perfeitamente servir: para que se poupe ao martírio das poeiras silicóticas muitos trabalhadores, mas também populações inteiras como a da Maceirinha, freguesia de Maceira, onde 10 mil pessoas sofrem, há cinquenta anos, o flagelo do cimento.

Também precisamos de poupar energias humanas e tempo, tornando os cursos de formação profissional menos compridos e complicados, mais práticos e menos teóricos, vencendo os mitos do hipertecnicismo, vencendo a inércia e a preguiça dos hábitos ancilosados. Precisamos de poupar alimentos, não só porque há milhões de crianças no Mundo a morrer de fome, não só porque no mundo capitalista se antevê também uma crise de alimentos, mas também porque, no Globo, as reservas alimentares, como aliás, as reservas de todos os bens indispensáveis à vida são esgotáveis e estão em vias de esgotar-se: e para poupar alimentos, há que abrir os olhos com lucidez, em vez de estupidamente os fechar, às alternativas alimentares, aos regimes e dietas de equilíbrio e racionalidade.

Precisamos de poupar a saúde das populações - porque na saúde de um povo está o seu melhor e mais seguro «seguro de vida» - e manter a saúde em vez de combater a doença; para isso, é toda uma estratégia ecológica a pôr em prática, contra as tácticas de «combate à doença», é todo um condicionalismo ambiental da saúde a criar contra as tácticas de morte e «fábricas de doenças», que são os ambientes industrializados ou infradesenvolvidos.

Precisamos de poupar horas de trabalho e por isso não podemos dar-nos ao luxo de que as gripes produzam absenteísmos catastróficos; contra um modelo alimentar provocador de carências e desequilíbrios e que expõe a saúde pública aos riscos banais de uma gripe, como se fosse a arma mais mortífera - é necessário apontar a verdadeira estratégia preventiva, a verdadeira profilaxia (alimentar) contra as falsas e criminosas profilaxias da vacina (sintomatológicas, reaccionárias).

Precisamos poupar tempo e por isso urge uma verdadeira campanha nacional contra os empatocratas e as empatocracias.

Precisamos de poupar o futuro, e a fé no futuro, e por isso não podemos desiludir as novas gerações com modelos económicos ultrapassados, com imagens viciadas de experiências falidas, de sofismas e mitos, e erros que só os que com eles negoceiam (lucram), teimam em manter vigentes.

Precisamos de poupar mão-de-obra e, por isso, é necessário não desperdiçar braços, inteligências, capacidades, impedindo que emigrem, que estagnem, que fiquem no limbo dos esquecidos e dos colonizados. Só vencendo a mitologia do «especialismo», se pode pôr a trabalhar em termos do máximo rendimento humano e revolucionário um povo que espera.

Precisamos de poupar homens, criando brigadas de «revolucionários» profissionais. Brigadas de boa vontade. Brigadas cívicas.

Precisamos poupar capacidades, não deixando abandonados e no gueto os autodidactas, os que se fizeram à sua custa, os sem diploma, os sem «curriculum» e sem cunhas. É necessária uma verdadeira campanha nacional de redescoberta e aproveitamento de valores.

Precisamos poupar até o que se deita fora. Na China Popular, as técnicas de reciclagem de detritos atingiram um grau extraordinário de vigência e perfeição.

Trata-se, em Portugal, e na Revolução Portuguesa, de compreender até que ponto o lixo é uma fonte de riqueza, uma «matéria-prima», uma disponibilidade potencial a exigir de nós imaginação para a reciclar, para a recriar, para nos reconduzir a uma efectiva, total e realista política de poupança, a uma política de economia... económica.

IMAGINAR SOLUÇÕES ALTERNATIVAS

PARA VENCER O DESEMPREGO

O capitalismo oscila entre o engodo e chantagem.

Por um lado, ao implantar unidades industriais hiperpoluentes e que vão, por norma, corromper o equilíbrio biológico e ecológico da região, acena com os postos de trabalho (dezenas, centenas, milhares) que promete ao povo da região.

Mas, por outro lado, quando o povo começa a sentir que lhe chovem pós tóxicos, dia e noite, em cima de casa, que não pode respirar, nem comer, nem beber, nem dormir, a fábrica joga com o argumento/chantagem que é: ou o povo aguenta a poluição e paga, em saúde, segurança e sobrevivência um alto preço pelo benefício do emprego, ou então arrisca-se a ficar sem (a escravidão do) emprego.

Haja em vista que o capitalismo só alega com e alude ao «perigo do desemprego» quando são potenciais razões ecológicas que podem estar eventualmente na sua base.

Quando se verificam vagas de desempregados por motivos de recessão económica, que têm directamente a ver com as crises do capitalismo e a crise do capitalismo com a crise de energia que o capitalismo «inventou» e por outras crises, nessa altura não se preocupa e limita-se a dar o facto do desemprego epidémico como consumado.

Ora o que o trabalhador tem a fazer é tomar uma de duas vias: ou faz a revolução, liquida o capitalismo e com ele as vagas cíclicas de desemprego que lhe são inerentes; ou inventa formas de luta que, mesmo dentro do capitalismo permitam dar ocupação a todas as pessoas, ocupação compatível económica e ecologicamente não só com os interesses de ócio e trabalho de cada qual mas com os interesses da região e os direitos do meio ambiente preservado dessa região.

O que o trabalhador tem a fazer é não desligar o seu direito ao trabalho do direito a um habitat (casa, rua, vila, aldeia ou cidade, campo ou praia, serra ou planície) habitável na sua globalidade.

O que o povo trabalhador tem de fazer é aliar-se ao militante das alternativas, que trabalha (também) para dispensar os monopólios, antes mesmo de o movimento histórico os liquidar (os monopólios) pela revolução de massas.

O que a revolução ecológica preconiza é um habitat saudável para já e uma saudável ocupação, para já também.

Não há argumentos económicos que possam sobrelevar os ecológicos, não há argumento quantitativo que possa e deva absorver, estrangular, asfixiar, adiar o argumento da qualidade (de vida).

Se queremos «o aumento acelerado da qualidade de vida dos portugueses» - como proclama e muito bem o Programa do MFA - esse aumento acelerado faz parte integrante de um processo imaginativo que dispensa as soluções mecânicas e de rotina com que se pretende dar solução ao desemprego crescente.

Se há um povo a educar, se há um solo que necessita de braços e de afinco, de trabalho e de luta, se há crianças a educar e adultos a reciclar, se há velhos e reformados vivendo na mais feroz e absoluta pobreza envergonhada, na mais absoluta solidão, no abandono mais total, se há, no campo das actividades não clássicas e até agora não integradas nos esquemas do capitalismo predador, tanto a fazer , - o que o Movimento Ecológico preconiza, para ocupar os portugueses sem ocupação, são as actividades prementes e prioritárias da nossa própria sobrevivência, a reconversão imediata de algumas indústrias e, principalmente, a reconversão das indústrias em actividades humanamente e directamente produtivas.

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(*) Publicado no jornal «O Século», 5/6/1975 (Dia Mundial do Ambiente)