<ecorealismo-2> os dossiês do silêncio – entrevista-testamento->revisão da matéria - sábado, 13 de Julho de 2002
OS NEOLÍTICOS DA REVOLUÇÃO
20/10/1979 - Em Agosto de 1979, o ecologista enfrenta-se com uma situação de conjuntura algo bizarra no nosso país: quando, ainda há meses, o tecnocrata lepidamente assolava os buldogues à perna do ecologista radical, vemos hoje, meses volvidos, que não só as soluções e técnicas "leves" começam a ser adoptadas a todo o vapor pelo sistema, como ele se comporta como se desde sempre tivesse sido o pioneiro e o mártir das eco-alternativas.
Isto é uma situação anedótica. Mas o bom humor que nos causa não nos deverá fazer esquecer os riscos que envolve para as forças de Esquerda em Portugal.
O perigo já vinha a esboçar-se, desde a primeira fase do Movimento Ecológico Português, fundado em 14 de Maio de 1974. E cifrava-se, principalmente, na desatenção, na hostilidade, na ignorância e até no desprezo que a Esquerda resolveu sempre ostentar para com toda e qualquer manifestação dos "verdes". A conspiração do silêncio funcionou durante muito tempo, quando não era o oportunismo (como é o caso no campo das lutas anti-nucleares) e o perfeito desconcerto entre acções descoordenadas.
Não só a Esquerda nos virou a cara, como tudo fez para nos meter no gueto e depreciar aos olhos da opinião pública, como um punhado de anarquistas irresponsáveis, perigosos, incendiários, ruminantes de cenouras e vegetarianos adeptos do arroz integral. Todas as caricaturas serviram. O fenómeno é geral e não específico do meio ambiente português. Lançar ao vento as caricaturas do ecologismo, ajuda a deturpa e portanto manter a Revolução Verde num gueto minoritário. As forças políticas à esquerda e à direita, parecem temer a rápida ascensão e o forte ascendente que sobre a opinião pública podem ter, de um momento para o outro, as teses para a sociedade pós-industrial.
Enquanto puderem adiar, ei-los jogando na calúnia, na mentira, na deturpação, no ridículo. Quando for o momento crítico, jogam-se ao ataque para ocupar o terreno desbravado pelos profetas e pioneiros. Enfim, a desvergonha habitual.
O que se passa neste momento em matéria de energia solar, no nosso país, ilustra o facto. Mas havemos de ver ainda mais e melhor.
Será, em suma, a direita que vai ganhar esta primeira batalha? Que vai colher os lucros?
E a Esquerda? Sob os mais ridículos e inoperantes pretextos, vai deixar que a Direita galgue, por este flanco, o terreno que ela deveria ocupar?
Pintando a fachada com tintas ecológicas e pondo um colector solar em todas as casas de burgueses deste País, a classe dominante terá mais tempo de vida. Com tais remendos, contribuirá inclusive para que a opinião pública lhe "agradeça" as soluções ecológicas recebidas pelo país e até as vantagens na economia de energia e na limpeza das fontes energéticas.
A direita apropria-se da energia solar, inclusive, para poder desencadear o seu sofisma favorito: ela irá insistir, enquanto vai tecendo rasgados elogios ao solar, de que se trata de energias «só rentáveis e utilizáveis lá para o ano 2 . 000" .
Ao mesmo tempo que se apropria das fontes infinitas de energia, vai retardá-las o mais que lhe for possível.
Esta é a estratégia que se desenha: e quem mais contribuiu para ela, foi sem dúvida, a negativa atitude que os ideólogos da Esquerda têm assumido, entre nós, para com os problemas da "tecnologia intermédia'.
O "Establishment» vai servir-se das "soluções" ou tácticas ecológicas precisamente para que nada, a médio e longo prazo, mude nas estruturas de fundo e nas estratégias do capitalismo, que tem nas eco-tácticas o melhor revitalizador da sua estratégia de exploração, alienação e manipulação do homem pelo homem.
E a principal culpa disto cabe aos que continuam a rotular de reaccionários os «maluquinhos da frente ecológica". Aos que, dogmáticos e teólogos da política, são os Neolíticos da Revolução.
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(*) Publicado no jornal «A Capital» (O Mundo da Ecologia), 20/10/1979