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<83-01-15-cm>DELITOS & DELINQUENTES
15-1-1983
CRIMES ( 15/1/1983, IN «A Capital», Saúde Pública: Delitos & Delinquentes) - É grotesco ser tão rigoroso a punir um comerciante porque atrasou dias a renovação do boletim de sanidade, num país onde se cometem, sem ninguém averiguar, punir ou dizer basta, os maiores atropelos, crimes e atentados contra a saúde pública.
Num país onde a lei contra resíduos de pesticidas , hormonas e antibióticos nos alimentos leva dois anos a parir e não se sabe ainda quantos a nascer.
Num país onde circulam livremente e têm venda franca todos os remanescentes de medicamentos e produtos proibidos no estrangeiro que os países civilizados não querem.
Num país onde os processos de doenças profissionais se acumulam aos milhares nos tribunais de trabalho, sem terem andamento a pretexto de desculpas várias.
Num país onde negociantes e traficantes de alimentos avariados têm caminho aberto e fácil. Num país onde o vómito acústico do escape roto continua impune a enlouquecer toda a gente.
Num país onde nem uma só vez foram punidos os culpados por intoxicações alimentares que os jornais regularmente noticiam como rotina. Num país onde é preciso pedir licença para se falar em defesa ecológica da saúde.
Num país onde, quando se escreve sobre energia nuclear, se promete solenemente ao povo não falar de passarinhos e outros folclores.
Num país onde a grosseria se institucionalizou, onde se inverteram totalmente as prioridades e os valores (prioridade que pertence obviamente à sensibilidade, á inteligência e às ideias contra a estupidez tecnocrática, ideológica ou partidária). Num país destes, teremos que continuar à procura de bodes expiatórios? Continuaremos com a severidade para os pequenos delitos e a impunidade para os grandes?
CUSTOS DA DOENÇA - (1987, Inédito) - Se a chamada Caixa paga ou comparticipa, porque há-de o consumidor, beneficiário da dita, privar-se de consumir medicamentos, muitos e caros?
Se consumir medicamentos significa, na linguagem comum, consumir saúde, porque não há-de o consumidor ter uma saúde de ferro, transbordar de saúde, enfrascando-se de remédios? Só por má fé alguém será capaz de dizer que estas perguntas estão «feridas» de facciosismo, contrasenso ou ilógica.
No entanto, quem será capaz de lhe responder? No entanto, é toda a questão dos chamados custos de saúde (que são os custos com a doença) que está em causa.
Se ter saúde é consumir medicamentos e se os medicamentos estão cada vez mais caros, não só se devem consumir cada vez mais medicamentos para bem da saúde, como a saúde, assim, ficará cada vez mais cara.
Mais um vez a pergunta: Será que a saúde é cara ou o que é mesmo cara é a doença? Os custos da saúde ou o preço da doença?☻