1-3 < 89-10-28-ie> ideia ecológica do ac - sexta-feira, 7 de Março de 2003-novo word - <DCM89-4>
DIZER 20 ANOS ANTES
O QUE SE VAI PENSAR 20 ANOS DEPOIS
28/10/1989 - É urgente repescar (e repensar) o que escrevi em 1974/75 sobre biocracia, biofascismo e biocídio.
A questão relativamente a todos os provocadores (inclusive bioprovocadores) é encontrar o registo estilístico que não caia no melodrama ou no moralismo ridículo.
Tal como André Breton dizia da literatura, o prefixo «bio» mène à tout...
A propósito do biofascismo, o sistema responde com o bioética (ver recorte junto) .
É o estilo provocador sofisticado. É o estilo sopas depois de almoço. É o estilo lobo que protege o cordeiro para o comer. nem com um pano enxarcado de mijo se podem tragar.
Psicocirurgia?
«Uma arma muito eficaz da medicina moderna» - dizia um psicocirurgião no telejornal, um dia destes, nos 40 anos largamente celebrados da atribuição do Prémio Nobel ao Prof. Egas Moniz.
2/11/1989 - Se as minhas intuições e manias têm sido um desastre na perspectiva do triunfo e da carreira pessoal (ou profissional) do seu autor, já como validade científica me poderei gabar de que fora um sucesso e de que todas, afinal, se têm mostrado não só cientificamente comprovadas mas reconfirmadas em toda a linha pelas instituições e autoridades do meio.
E é isso que me faz ser ousado, ainda hoje, aos 55 anos, apesar de já ter idade para ter juízo, apesar das nódoas negras que já apanhei por causa de afirmar e escrever 20 anos antes aquilo que os cientistas e doutores nem 20 anos depois vão confirmar.
Isto dá-me um certo nojo mas também uma certa ousadia no afirmar das minhas intuições, apesar de não estarem ainda hoje confirmadas pela ciência oficial, mas também uma certa serenidade (?) quanto ao meu triste papel (de urso ou de franco-atirador?) tantas vezes classificado pelos pensadores oficiais, pelas mafias universitárias e até por ecologistas ilustres como papel de parvo ou de mentalmente subdesenvolvido.
Diria mesmo que a minha história pregressa é, em parte, a história desse mal-entendido entre mim e o Diabo, como dizia o José Régio, entre mim e os donos do poder, os governantes dos corpos e das almas, principalmente os donos destas que são os intelectuais e outros que tais.
Já fazem lista as «intuições» a que chamo malditas porque, escritas e pensadas por mim há 10, há 15, há 20 anos, vejo com espanto, um dia destes, quase ao acaso, serem - ora uma ora outra - confirmadas pelas autoridades internacionais que regem os destinos do Planeta: ONU, OMS, FAO, OIT, etc., acabam por confirmar, plagiando-me afinal o trabalho de hipótese que em muitos casos tirei, com sangue, suor e lágrimas, da minha imaginação delirante.
Julgo lembrar-me que o António Sérgio fazia desta fase da intuição-imaginação de hipóteses uma das mais importantes ou interessantes no processo de investigação científica experimental. Há os que semeiam - os que imaginam, os que intuem - há os que desempenham o papel de parvos e há depois os espertos, os que colhem, os chicos espertos que confirmam laboratorialmente ou estatisticamente ou matematicamente as hipóteses de trabalho lançadas pelos imaginadores, pelos visionários, pelos tolos lúcidos, pelos inconformistas, pelos maus fígados, pelos intolerantes, extremistas e fundamentalistas.
É uma função ingrata, esta, de ser vampirizado por aproveitadores profissionais, os quais, por definição e carreira (bem remunerada) se aproveitam das ideias ensaiadas pelos que não tinham nada mais do que ideias (tristes).
Eu chamo a isto - a mania ou monomania das intuições - um defeito e não um mérito meu. Se eu tivesse faculdades para ter entrado na Faculdade, se tivesse memória para decorar calhamaços de uma qualquer especialidade, se tivesse sido tentado por um lugar de ascenção na hierarquia universitária, outro teria sido com certeza o rumo.
Se me agarrei à imaginação e à intuição, é porque não tinha mais nada, nem memória, nem inteligência, nem dinheiro, nem grandes capacidades de arquivista documentalista.
A memória, aliás, perdi-a praticamente toda quando emborquei dezenas de frasquinhos de librium (comprimidos) que era na altura a droga que estava na moda para atacar a depressão e simultaneamente o fígado, mas também a memória, que queima como um ácido corrosivo.
Fiquei sempre, pois, no «lumpen proletariat» da inteligência e hoje, ao enfrentar um computador, coro de vergonha, encolho-me de medo, faço figura de analfabeto da informática mas também de andrajoso pedinte que entrasse na Pastelaria Suiça ou na casa nobre de Sua Senhoria o senhor visconde. Sinto-me o Camilo Castelo Branco a dizer que cegou por causa de um aparo da caneta com que escrevia.
Serei sempre um analfabeto de computadores em particular e das novas tecnologias em geral, de todas as modas rápidas deste «fast food» generalizado.
Serei sempre um desclassificado e enchi versos a dizer isso com a maior clareza.
Meto-me a discutir com os doutores - mas não sou, obviamente, o Menino Jesus. Não posso, nem quero, evidentemente, colocar-me no terreno deles - o da erudição, o da estatística, o dos gráficos, o das nomenclaturas arrevesadas, anglosaxónicas de preferência, em que sou igualmente analfabeto.
O que peso do sistema médico, o que penso do sistema informático, o que penso do sistema socio-psicológico de Ensino, o que penso dos Gulags sociais e político-partidários, o que penso da morte e o que penso da vida, não foi nem podia ter sido retirado dos grandes manuais enciclopédicos da ciência estabelecida, aos quais nunca poderia ter acesso, embora tenha alguns (para consulta...) aqui na minha biblioteca.
No conjunto, guiei-me apenas pelas minhas ideias - nas quais, confesso, já acreditei menos do que acredito hoje. E por esta razão: já tenho a perspectiva do tempo, já tenho duas décadas para poder saber e confirmar, o preto no branco, se afinal só disse e escrevi e publiquei enormidades ou se as enormidades que então disse, escrevi e publiquei são as grandes verdades do momento científico.
E não se pense que, à conta da caridade cristã, me vou calar e não vou, um por um, apontar os que me chularam as ideias e me atiraram, como se eu fosse a casca, para o lixo.
Os anos que me restam, no horror de um emprego que odeio, no horror de uma vida que me cansa, é apenas para pôr um bocado de ordem nesta bagunça.
É caso para dizer que me cago nos projectos de acção todos que alimentei (e que os donos, senhores e doutores me abortaram) e fico apenas com um projecto: vingar-me da canalha que me chulou as ideias e que ainda hoje quer fazer passar por boas as suas imposturas e fanfarronices.
Tanto se me dá que o mundo corra para baixo como para cima, que rebente ou que se desentranhe em flores. O que me dá , sim, é que das mil e uma ideias que tive - porque não tinha mais nada para ter - e pelas quais fui perseguido e chatiado, irei demonstrar, uma por uma, que tinha vinte anos antes a razão que querem ter hoje vinte anos depois.
Claro que a instituição científica existe para provar só o que convém às outras instituições - suas amigas - que ela serve zelosamente, não existe para provar que é verdade e apenas verdade.
Mas saber que tenho ou tive razão só me dá gozo para poder dizer, escrever e publicar que me estou cagando para isso e que ter ou não ter razão também não me interessa.
Verdade, verdadinha, estou-me cagando para os doutores. E é isso o que me continua a dar um certo e relativo gozo.
Relativamente à mentira da ciência e às verdades da intuição, quero relembrar uma questão de fundo que não tem sido suficientemente analisada, nem sequer citada e de que, no entanto, depende tudo o que se disser sobre o fundamento da moderna religião que é o cientifismo.
Se tomarmos como exemplo a medicina - que é sempre, como exemplo, modelar - verificamos que a maior parte das campanhas que se desenvolvem no seu seio, são baseadas em meras teorias que, como todas as teorias, nunca foram verificas nem o serão jamais.
As teorias só permanecem enquanto não vierem outras, ideologicamente mais convenientes, para as substituir.
Na medicina, como nos outros ramos que se reclamam das ciências humanas, permanecem apenas aquelas teorias que mostraram servir melhor a indústria anexa e não as que se aproximaram mais ou menos de uma eventual verdade científica.
A teoria microbiana, por exemplo, que é uma anedota do ponto de vista estritamente racional (é mesmo o cúmulo da irracionalidade) persiste e monopoliza toda a ideologia médica (agora com a fixação neurótica da sida) exactamente porque se mostrou muito rendosa para a indústria.
Não resolve é nenhum problema de saúde. Aliás, em medicina não interessam as teorias que resolvam problemas de saúde mas as que conseguem fazer proliferar doenças, doentes e medicamentos.
A instituição médica vive exactamente dos que vai adoecendo, muito mais dos que vai matando ou curando. Vive dos doentes que vai produzindo, adiando, agravando, como há-de desistir da teoria microbiana que lhe fornece doentes em progressão logarítmica?
Na perspectiva da verdade científica - se é que tal coisa existe - vale mais uma intuição razoavelmente inteligente ou mesmo sensata do que uma teoria irreversivelmente irracional.