<87-01-05> <dcm87-6> - ficha de ecologia humana nº____ - pista de investigação epidemiológica

 

DOENÇAS DO SUBDESENVOLVIMENTO

O CASO DA ONCOCERCOSE

5/Janeiro/1987 - As doenças parasitárias e de infestação ambiental colocam um problema de coerência interna à ecologia humana.

No caso da oncocercose, por exemplo, doença endémica em certas regiões secas (savana) da África e provocada pelo mosquito Similium, a ciência médica só encontrou, até hoje, duas soluções de combate, qualquer delas pouco ecológica.

Para a doença propriamente dita receitam-se drogas como a dietilcarbamazina que destroi as microfilárias (larvas do parasita) e a suramina, que age principalmente nos vermes adultos.

Além dos efeitos secundários que a própria medicina reconhece, a primeira destas drogas tem um efeito relativo, já que os vermes adultos reinfestam de novo o organismo com microfilárias, recomeçando o processo. O fracasso terapêutico das campanhas contra a Oncocercose apontam para acções sobre o meio ambiente, ou seja, o uso de insecticidas para exterminar as larvas nos rios e nas correntes de água.

As campanhas, que se basearam a princípio no D.D.T., passaram depois a usar insecticidas de acção menos prolongada do que aquele, mas isso não impede uma grave contaminação ambiental, que a breve prazo irá reflectir-se na saúde das populações, desembaraçadas momentanea e aparentemente de uma doença grave - a Oncocercose - para se verem a braços com doenças resultantes da contaminação química com pesticidas.

Com a agravante de que estas novas doenças irão, na melhor das hipóteses, engrossar o rol das «doenças desconhecidas».

Se há ou não outra saída para casos como o da Oncocercose, é difícil sabê-lo, já que a pesquisa, quando avança, é totalmente comandada pelos interesses dos fabricantes de medicamentos e pesticidas.

É de crer que haja, pelo menos, soluções de higiene e salubridade pública mais estáveis e menos gravosas para o ambiente, conseguindo ao mesmo tempo fazer diminuir a incidência do mosquito Similium.

Se os sistemas de salubridade pública e saneamento básico, susceptíveis de fazer regredir a doença, são igualmente financiados por organizações multinacionais, provavelmente as mesmas que alimentam a precária «luta» química contra a doença e, portanto, o negócio dos pesticidas, talvez que, entre as duas dependências, se possa encontrar uma terceira e verdadeira solução de ecologia humana.

Entretanto, a construção de sistemas de salubridade serão, com certeza, uma melhor solução do que o combate químico- farmacêutico.

Enquanto o Terceiro Mundo não tiver dinheiro para financiar sistemas de salubridade, terá que aceitar a solução pontual dos pesticidas, a maior parte das vezes apoiada por campanhas e apelos à caridade mundial, que deverão traduzir-se em dinheiro para pagar os pesticidas às multinacionais que os produzem, mais o ciclo vicioso da Pobreza-Doença-Pobreza-Fome-Pobreza. ■