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1-3<coice-óbito>

Em 2002 (?) o jornal «Coice» (raio de nome) de tendência anarca, publica sobre AC este texto inesperado, lembrando coisas que eu preferia esquecer (sábado, 19 de Fevereiro de 2005)

ALQUEVA, CRIME ECOLÓGICO ANUNCIADO

«Afonso Cautela, pioneiro em Portugal do combate enologista e cuja obra contamos abordar no próximo CdM, editou em 1975 um estudo em que analisou três casos de destruição ecológica'. Desse estudo publicamos aqui algumas passagens referentes ao caso Alqueva. Assinalamos que Afonso Cautela, ao contrário de muitos enologistas reciclados, nunca fez marcha atrás nas suas posições radicalmente críticas. Numa entrevista que concedeu em 2001, à pergunta «Aquilo a que chama tecno-terror seria inerente à sociedade de consumo?» responde: «São sinónimos: sociedade do plutónio, sociedade industrial, sociedade desenvolvida, são eufemismos da mesma coisa, usados conforme a visita que temos a tomar o chá. 1...1 Um exemplo: o aquecimento global era tema de meia dúzia de resistentes enologistas dos anos 70 e 80, acusados de alarmista pelos ideólogos do progresso de todos os partidos. Trinta anos passados, ainda há um Rush que se recusa a recuar na loucura da industrialização energívora, para proteger os lucros das empresas que o levaram ao poder. [...] A palavra tecnocrata nunca foi muito usada pelos alegados ecologistas I...1 no entanto é a palavra-chave da entropia anti-ecológíca.»2 [...] O discurso de «peritos em Meio Ambiente» não é só e apenas um vómito. Não é só e apenas um escarro lançado sobre a vida das ' populações e de todos os seres vivos. Não é. só um modelo de hipocrisia demagógica, dizendo que vai «construir» mas praticando previamente e a frio um plano de destruição. Um perito do Meio Ambiente e o seu discurso não é apenas um capataz da corrupção e seu infalível criado de servir. Um perito do Meio Ambiente é, acima de tudo, pela metáfora, pelo eufemismo, pela duplicidade, pelo bem humorado do discurso e pela sua ininteligibilidade, o antípoda do militante ecológico. [...]

«Sines e Alqueva têm em comum o facto de serem ambos planos da megalomania fascista. O fascismo sabia que muitos dos seus crimes lhe sobreviveriam e hoje uma das coisas que mais devem divertir Américo Tomás e Marcelo Caetano - lá no assento etéreo onde subiram - é precisamente o super-ruinoso plano de Sines e Alqueva, bomba relógio que o fascismo cá nos deixou pronta a deflagrar para destruir as melhores conquistas que uma sociedade riais justa e mais humana pudesse vir a fazer. [...]

«A pseudo-solução Alqueva vem na linha das outras pseudo-soluções e suas características dominantes: megalomania, gigantismo, aleatório-de-longo-prazo, jogo do sem fim, curvas de crescimento indefinido, exponencialismo logarítmico no paroxismo da subida vertical, tudo isto se podendo resumir nesta realidade histórica: «agonia do capitalismo internacional», em busca das últimas e definitivas riquezas da Terra em vias de esgotamento: água, ar, solos, energia...

«A pseudo-solução Alqueva, tal como Assuão, tal como Cabora-Bassa, tal como as corridas espaciais, tal como o Concorde, é apenas a tentativa derradeira de o capitalismo ocultar E uma realidade insofismável [...]: para subsistir [...], ele só encontra uma forma: supermultiplicar as suas próprias contradições através de empreendimentos gigantescos e concentracionários, cuja morosidade de realização e dependência das flutuações históricas no mercado do trabalho, no mercado dos câmbios e dos capitais, obriguem os povos a ficar hipotecados, cingidos por esses enormes cordões umbilicais à escravatura dos imperialismos em luta pela dominação do Terceiro Mundo e suas últimas reservas de água, ar, solos, energia, matérias-primas... Sobre o gigantismo do Alqueva já se ouvem as costumadas e prévias loas que os sempre obedientes jornalistas sabem tecer quando os imperialismos lhes acenam com a guizalhada do «progresso industrial». Em reportagem de A Capital, de 6-6-75, lê-se este maravilhoso hino à grandiosidade, à hipertrofia, à megalomania tão típica de todos os típicos imperialismos: «As barragens do (si,-) Alqueva darão origem ao mais comprido lago artificial da Europa ocidental, pois vai de Mértola a Elvas, numa extensão de 140 km. [... ] A existência de um lago tão grande dará lugar, seguramente, ao aparecimento de uma indústria turística». [...]

«Um outro ponto de reflexão e controvérsia que Alqueva levanta é o da veracidade de todo o Plano de Rega do Alentejo e dos motivos que verdadeiramente determinaram o Governo fascista a levá-lo por diante. [...] Entre outras coisas que esquecem [...] esquecem os técnicos e os observadores que o Plano de Rega do Alentejo liei apenas o ensaio geral, o prefácio de Sines. E, por diversas razões:

  1. Com o plano das albufeiras, tentava convencer-se o País de que o subsolo do Alentejo era pobre em água e que, portanto, só as barragens, só as captações de superficie, só nos
    grandes empreendimentos de obras públicas e de tachada - o Banco Mundial é useiro e vezeiro em financiar barragens por esse mundo fora... - a agricultura do Alentejo encontraria remédio.
  2. Estrategicamente situadas, de molde a beneficiar os latifundiários e grandes agrários, as barragens do Alentejo vinham empobrecer (e de todo desmoralizar) os pequenos e médios agricultores.
  3. Com as barragens para servir os grandes, e desmobilizados os pequenos agricultores para procurar água no próprio terreno, o Alentejo ficava definitivamente na posse da alta burguesia rural.
  4. Não esqueçamos a importância que empresas como a Torralta davam ao Alentejo turístico e de que maneira se lorani apossando (Ias herdades mais ricas, não só eni solos (hélas!) mas em águas, como comprova a I lerdade do Esporão, a 5 km de Reguengos.

«Tem-se propalado que Alqueva não se construiu em tempos do fascismo por «razões politicas». É uma boa maneira de confundir o fundo da questão, quando a verdade é que foi o fascismo que planeou Alqueva e todo o Plano de Rega a que ela se diz servir do coroamento. Alqueva não se fez em tempo do fascismo porque este estava nas lonas, não linha para mandar cantar um cego e porque Alqueva era logo à partida um conhecido sorvedouro de dinheiro. Alqueva não se fez por incapacidade financeira de um regime em que todo o dinheiro era pouco para o sorvedouro da guerra colonial. [...]

«Dizia-se que o complexo industrial de Sines era para beneficiar a região. No entanto, toda a agricultura local foi destruída, numa área cultivável de 40 mil hectares. Isto num país onde a área cultivável é 13% do total do território. Dizia-se que Sines vinha trazer mundos e fundos. E no entanto uma das zonas mais ricas em água sofre agora, como tantas outras, as agruras da falta de água [...]. Diz-se agora que Alqueva vai salvar o Alentejo e parte do Algarve. Mas, para já, fala-se em 16 km de auto-estradas, que só por si de certeza comerão outros tantos milhares de hectares de terra cultivável, mais alguns por cento dessesescassíssimos 13%. [...]

«Afonso Cautela, Três casos de Ecocídio: Sines, Alqueva e Galiza, edição do Movimento Ecológico Português (Grupo Coordenador), Lisboa, 1975. Lembramos que Afonso Cautela, jornalista e ensaísta, foi o fundador, em 1974, com cinco amigos, do Movimento Ecológico Português, iniciando nesse ano a publicação do jornal Frente Ecológica, que durou até 1980. Durante doze anos, no diário A Capital manteve um espaço semanal intitulado «Crónica do planeta Terra».

«Sociedade de consumo é sinónimo de tecno-terror», Afonso Cautela entrevistado por Alberto Franco, revista O Consumidor, Março de 2001.»»■