1-6 - <73-06-05-ie> terça-feira, 3 de Dezembro de 2002-scan
AS COBAIAS DO BARREIRO
E A AGONIA DE UM MÉTODO (*)
[(*) Transcrito do «Diário de Lisboa», 11 de Junho de 1973, este texto de Afonso Cautela, que o Afonso Cautela subscreveria com a mesma lata no dia de hoje, foi publicado no livro «Ecologia e Medicina», edição «Gazeta do Sul» (Montijo), 1977, por favor e gentileza do meu inesquecível e querido amigo Dr. Rocha Barbosa, a quem fiquei devendo mil atenções ]
[22-06-1973, in «Diário de Lisboa»] - Lançada em grande força a campanha demagógica dos poluentes (com vista à industrialização dos antipoluentes), por iniciativa dos porta-vozes dos maiores poluidores, eis em marcha a manobra de distracção e adiamento que, ao lado de tantas outras, contribuirá definitivamente para afastar a já afastada opinião pública da verdadeira questão e consciência ecológica, que se não faz de poluentes e antipoluentes.
Pode afirmar-se assim e por isso que hoje a melhor forma de distrair as massas do Ecocídio é falar de poluentes. Assim se tem visto, lido e ouvido, ultimamente, em mesas redondas, artigos da Imprensa, audições radiofónicas e acima de tudo em polémicas lindas, cartas e contra-cartas, ora sobre taxas de toxicidade (um mar morto e podre que nunca se acaba de esgotar) ou de inquéritos, quer ad hoc quer epidemiológicos.
Todos sem excepção falam do «combate à poluição». Estes sofistas do século XX quando não «combatem», estão a «lutar contra» e, quando não combatem nem lutam, defendem, protegem.
«Defesa do meio ambiente», «protecção da Natureza» são as dominantes paternalistas (às vezes mesmo maternalistas) da terminologia usada nos telegramas das agências e nos artigos de fundo de eminentes pensadores do quotidiano que, entre nós, do dia para a noite, se investiram no papel de mentores de massas em matéria de Meio Ambiente.
Escusado será repetir que nunca ninguém sai (nem convém que saia) desse ciclo vicioso, pois lá se meteram todos, uns a pretexto apologético, outros a pretexto crítico.
Deter-me-ei hoje nos que descobriram agora a pólvora com os inquéritos epidemiológicos, os quais serão em breve e felizmente uma nova e alegre epidemia. Outra e também.
Medições e dosagens constituem um dos sofismas fundamentais em que assenta a estrutura do sistema, conforme largamente demonstrei no meu ensaio sobre Os Sofistas do Século XX.
Enquanto se mede, não se está obrigado a agir. Enquanto se inquire, folgam as costas! Enquanto se pesa e sopesa a célebre «poluição», vai-nos ela, já célebre, subindo do pescoço para os olhos, nariz e boca, até ao cocoruto. E quanto o fogo nos invade o rés-de-chão a gente prepara urna mesa redonda no primeiro andar para discutir se o fogo é de palha ou se de maravalha, «distinguo» importantíssimo para os planos de acção que hão-de seguir-se; e se há hipótese de o fogo nos chegar ao primeiro andar ainda antes do meio dia ou se só lá para as duas da tarde. Nesta última hipótese, como se verifica, ainda nos dará tempo de papar um lauto almoço.
O ruído tornou-se a peste que já ninguém comenta, de tão óbvia, as motoretas roncam desenfreadas e trasformam todos os interstícios do País num verdadeiro cano de esgoto de Ruídos, os cães chiam e ladram, os supersónicos abafam as conversas, o sono, a tranquilidade, qualquer hipótese de reflexão ou de pensamento, a construção civil invadiu desenfreada todo e qualquer espaço, enfim, o ruído é sem dúvida o causador de uma em cada cinco hospitalizações por loucura (asseveram estatísticas francesas mas como não há decibelímetros para confirmar a peste em decibéis e para demonstrar se o incêndio é na cozinha se na casa de banho, vamos tranquilamente e entretanto dormindo o soninho dos justos, ou repimpados fazer em paz a digestão do último almoço!)
Falei de estatísticas: eis o outro sofisma que se anexa sempre aos anteriormente referidos. Sem estatística, o sistema fica sem o melhor alibi para os seus crimes. E o inquérito epidemiológico busca a confirmação estatística do óbvio abuso para o desculpar como abuso e eventualmente como crime. Amortece o choque, digamos, pois de qualquer maneira, e embora a opinião pública esteja suficientemente cloroformizada pelos mass media que a servem, há que dar uma satisfação à opinião pública. Para isso são feitas as estatísticas, forma científica de mentir. Apenas
Claro que esse óbvio abuso (ou crime?) que se pretende mostrar pelo inquérito e demonstrar pela estatística, ficará indefinidamente em estado teórico; enquadrado numa «filosofia» terapêutica que teima e reteima na Sintomatologia ou na Profilaxia da vacina, metendo em tribunal os que defendem uma Medicina causal e ecológica, a pretexto de que são estes os charlatães...
Os resultados dos tais famosos inquéritos, se em si mesmo já valem menos do que nada, menos ainda valem se enquadrados nessa tal «filosofia» que teima e reteima em ir aos efeitos e nunca e jamais às causas, que sistematicamente rechaça o «terreno» para se aplicar sobre o vírus. Porque o vírus dá vacina industrializável e o terreno desemboca numa solução revolucionária das sociedades. É que para modificar o «terreno», há que mudar toda a estrutura e todo o sistema!
Se não, pergunto: depois do inquérito às populações infantis do Barreiro, que tencionam fazer? Um inquérito aos velhos do Seixal? Ou um inquérito aos intoxicados de Lisboa? Depois do inquérito, que se segue? Vão aumentar o número de chaminés? E de fábricas? Ou vacinar todas as crianças contra as emanações tóxicas?...
Quem não anda nisto desde ontem (data em que os jornais começaram a berrar poluição) sabe muito bem que os inquéritos, e todos os prognósticos e diagnós
ticos em geral, não têm outro propósito do que protelar e adiar, distrair e adiar, dilatar e enganar. Apenas têm uma vantagem, mostrar que a única Medicina progressista é ambiental e ecológica, e já que 90 %das doenças são doenças de Ambiente!
Mas para reconhecer isto, quantos anos demoraram? E será que já o reconheceram, até pelo menos às médias consequências disso? E quando o reconhecerem em teoria, quantos anos vão demorar a aplicar a teoria coerentemente na prática? Quer dizer, sem se proclamar por um lado uma coisa e desdizê-la logo a seguir ?
Para quem anda nestes tombos e enganos há muito, a famosa poluição tem apenas um mérito: revelar, sem contemplações, onde estão as contradições mortais de Sistema, os seus absurdos e sofismas.
O que não se quer reconhecer mas os inquéritos epidemiológicos fatalmente hão-de revelar, é de que toda a terapêutica do remedeio está errada! E de que se o problema por um lado é de erradicar ambientes contaminados e não doenças (endemias), por outro lado o problema é de aumentar as defesas naturais de crianças e adultos, em vez de as depauperar com vacinas, medicamentos e mais arsenal tóxico autorizado, ajuntar à lista de todos os tóxicos proibidos, ou semi.
O mérito dos inquéritos é não permitirem nunca mais (pelo menos sem que a contradição seja flagrantíssima) a demagogia de estar a dizer que se elimina por um lado o que se está autenticamente a fabricar por outro. Aceite o princípio (final e fatalmente) da causa ambiental para as doenças, há que seguir raciocinando até ao fim dentro desta lógica inflexível. Ambiente contaminado não é só o ar e não é só na vila do Barreiro. O inquérito epidemiológico terá de fazer-se a todos os ambientes e atendendo a todos os poluentes, que são centenas entre os não catalogados e milhares entre os catalogados...
Tão grave como a poluição da chaminé B na vila do Barreiro é, de um ponto de vista estritamente epidemiológico, o tipo de pensamento sofístico e respectiva terminologia de poluentes, antipoluentes, «defesa contra», «combate», «luta», quando não se trata de combater ou de lutar contra coisíssima nenhuma, porque se trata pura e simplesmente de fazer a revolução terapêutica que, evidentemente, equivale à mudança da sociedade desde os seus fundamentos, incluindo os mitos terminológicos que a Imprensa e seus responsáveis é a primeira a alimentar.
É ainda o sofisma numérico - o número estatístico, o inquérito ad hoc, o critério estritamente quantitativo para avaliar fenómenos qualitativos como são os da vida, da saúde e da doença - que explica uma notícia de Londres, onde se afirma esta coisa espantosamente cínica:
«Geoffrey Cowley, perito do meio ambiente do condado de Bedford, sugeriu uma solução romanesca para a poluição auditiva: isolamento das crianças.
« Ao falar numa conferência sobre o «controle» da poluição, 37 por cento dos inquiridos consideraram as crianças os principais fautores de ruído, seguindo-se o tráfego rodoviário, com 22 por cento e os aviões com 11 por cento. Para solucionar o problema, Cowley sugeriu que as crianças sejam isoladas de toda a gente, de modo a diminuir o barulho das cidades.»
Antes de retirar qualquer conclusão de ordem moral, que num caso destes muito importa tirar, para a gente saber finalmente a quem chamar assassinos ou advogados de defesa de assassinos, registemos apenas dados inertes:
Retiremos agora a esplêndida lição moral: os tais inquéritos ad hoc, mas objectivos que se fartam, provaram ser crianças o pior foco de ruído. Há aí alguém para pasmar? Ou está tudo rendido à infalibilidade da objectividade? De cães, não se fala (excepto quando se fala do senhor Cowley). Claro que a omissão é deliberada, se quisermos ler a notícia criticamente. E serve um objectivo preciso. Omitindo-se pura e simplesmente o ruído mais odioso do Orbe, salienta-se o ruído das crianças sobre as quais se transfere o odioso que deveria cair sobre os cães.
Obra-prima do cinismo, tinha de ser obra-prima do sofisma, este caso do senhor Cowley, semelhante àquele de que tive experiência própria: um dia bate-me à porta o vizinho de cima protestando contra o Mahler que nesse dia, propositadamente, à laia de teste, pus no máximo volume do pick-up, vizinho que diária, consecutiva, ininterruptamente enchia o prédio e as redondezas com o ladrar dos seus dois rafeiros de estimação com os quais dormia, sem falar de outros eflúvios que é costume exalarem-se deste tipo de gente.
Pois foi: o vizinho dos dois rafeiros protestava contra Mahler, como o senhor Cowley contra as crianças. Algo se passará aqui por acaso, ou o sofisma não é já hoje apenas um erro de raciocínio e antes (desde os crematórios) o melhor aliado nazi-fascista?
Poluição não é só questão de medição e vamos para casa todos satisfeitos com a soma. A problemática ambiente é fundamentalmente questão qualitativa (subjectiva se quiserem e sem que eu tenha nenhum medo à palavra) e dela só estão autorizados a falar os que se especializaram em qualidade: poetas, por exemplo, músicos, ou gente dessa que não serve para nada...
Ambiente não consente nem admite mãos mercenárias de senhores Cowley.
O Mahler pode atingir os 90 decibéis que não incomoda homens humanos e sensíveis, mas 20 decibéis de uma cadela histérica e desentoada, roufenha, estúpida como o dono, é para um homem fonte patogénica a radicalmente eliminar. É esta ordem, queiram ou não os medidores profissionais, venham os inquéritos que vieram a tentar provar que o ruído de uma criança é pior do que o ruído de um cão.
Não julguem os demagogos dos poluentes rolhar-nos mais uma vez a boca e o raciocínio com as suas máquinas de medir, as suas pesquisas de laboratórios com ratinhos, os seus diagnósticos e prognósticos, as suas estatísticas abstractas, os seus critérios aritméticos e numéricos, não julguem poder continuar desprezando sob os rótulos pejorativos de empírico e qualitativo o critério dos que efectivamente e unicamente podem fazer sondagens qualitativas sobre o que desta vez e finalmente se trata de avaliar: a qualidade da vida, que os profissionais da quantidade completamente degradaram.
Ah! não, não pensem que a ditadura continuará e se prorrogará até às calendas. As crianças do Barreiro, cobaias vivas das suas experiências in vitro, dos seus laboratórios de nazi-fascistas, saberão ainda a tempo quem eles são.
Forçados pelo escândalo das endemias, pelas situações de congestionamento e cul-de sac intoleráveis, pelos travões naturais, pela resistência instintiva e orgânica que os próprios indivíduos oferecem ao ecocídio e biocídio, ao etnocídio e genocídio, à vaga de terror e de sofismas com que a ciência coadjuva o terror político, económico, tecnológico, eis que os especialistas da quantidade se lançam nos inquéritos epidemiológicos, uma manobra mais de distracção e adiamento, porque não integrada no conjunto global que os explicaria e na cadeia causal que os tornaria coerentes.
Tomar determinada zona (e separá-la), determinado poluente (e separá-lo), é manobra isolacionista de confusão e adiamento, porque se há problemática que obrigue a uma constante visão de conjunto em função das partes e das partes em função do conjunto (e portanto uma teoria unitária do Todo) é exactamente o Ambiente. A Poluição torna a dialéctica inevitável, e inadiável.
Indagar se o ar (só o ar), do Barreiro (só do Barreiro) determina surtos endémicos nas crianças (só nas crianças), são três ordens de restrições amputantes que contrariam desde a raiz a metodologia ecológica.
Para só referir o capítulo dos poluentes, e na impossibilidade prática de enumerar aqui todos os milhares que estão catalogados, faço questão de apresentar uma amostra daqueles que normalmente não são indicados, os que não figuram nas listas clássicas dos poluentes porque à respectiva demagogia só interessa denunciar aqueles para os quais a indústria já preparou antipoluentes...
Já que gostam de listas em geral e de listas de poluentes em particular, pois aí terão material que muito os irá enriquecer. Segue em apêndice deste ensaio, para não quebrar o ritmo.
E que, como desencadeantes das doenças, além dos poluentes arqui-clássicos - micróbios do ar, água das torneiras, esgotos por acondicionar - há centenas de outras determinantes, entre as quais é justo destacar, porque se «esquecem» sempre, os próprios medicamentos e as doenças que de efeitos passam novamente a causas.
O que os inquéritos epidemiológicos vão de certeza ocultar é que entre os factores ambienciais desencadeantes de endemias devem contar-se as próprias doenças que, sendo efeitos, se tornam por sua vez causas de outros efeitos. Só o suicídio não é novamente causa de outros efeitos: é a única resultante final de todas as outras doenças.
Exemplo deste factor causa/efeito? As doenças nervosas em geral; ou as toxicomanias por drogas farmacêuticas.
No dia em que os autores de inquéritos incluírem entre os poluentes os medicamentos e as vacinas, cá estamos para acreditar. Até lá...
Forçados, pois, por certas evidências que se tornam escandalosas, alguns especialistas começam a falar de um reino «flutuante», outros referem uma certa realidade «ondulante» e outros ainda falam de «turbulência», e nem só a propósito da mecânica dos fluidos.
Teimando em usar métodos, instrumentos unicamente quantitativos não podem evidentemente abarcar: por um lado o carácter totalizante, movediço, maleável do fenómeno Ambiente (da Realidade) e por outro o seu carácter qualitativo. Isto só torna evidentemente explosiva a necessidade de um método dialéctico, quer dizer, revolucionário, que faça explodir por dentro os sofismas numérico-matemáticos.
Se o método se abalança a estudos epidemiológicos, correndo o risco de uma contradição mortal com as suas próprias e inamovíveis premissas sintomatológicas, reformistas, tenhamos a certeza de que o método está no último grau da sua ruína.
«Diário de Lisboa», 22/Junho/1973
- - -
(*) Transcrito do «Diário de Lisboa», 11 de Junho de 1973, este texto de Afonso Cautela, que o Afonso Cautela subscreveria com a mesma lata no dia de hoje, foi publicado no livro «Ecologia e Medicina», edição «Gazeta do Sul» (Montijo), 1977, por favor e gentileza do meu inesquecível e querido amigo Dr. Rocha Barbosa, a quem fiquei devendo mil atenções ☻