1-3 - <clandest-ac-gg> novo word - 8860 caracteres segunda-feira, 18 de Novembro de 2002

NOTÍCIAS

DA CLANDESTINIDADE

Lisboa, 9 de Fevereiro de 1992

Miguel: Talvez sem grande exagero, posso dizer que esperava esta conversa há 18 anos, se tomarmos como ponto de referência a data de 25 de Abril de 1974.

Esperava poder trocar impressões sobre a estratégia que o PCP entende seguir relativamente aos vários problemas do País. A verdade é que -- como tu vens a contar no teu livro -- o meu problema era também sofrido, de maneira idêntica, por pessoas como tu que eu supunha mais «gratas» ao aparelho.

E, nesse caso, quantos anos perdemos da nossa vida com este quiproquo? Com este equívoco? E como é possível que o ambiente continue a ser o mesmo, em terras do Alentejo, por exemplo, quando os ventos agora sopram ainda mais fortes no sentido de uma liberalização que é a única maneira de o Partido não perder tudo daquilo que conquistou: terreno, votos, autarquias, influência, etc.? É um momento de encruzilhada que me assusta. Mas eu estive sempre do lado do susto, estes anos todos, enquanto pensava que alguns amigos estivessem mais do lado (da confiança) dos «aparatchicks» dos aparelhos.

Como tu disseste, feitas as obras de saneamento básico, os povos voltam-se agora para outras necessidades e valores: exactamente por ter trabalhado nessa onda, é que eu me senti sempre excluído, nestes anos, do diálogo com os homens do PCP.

Nas redacções por onde andei, também o clima era esse: pois a influência do PCP, no meu entender, foi ainda mais poderosa nos casos em que agia dissimulado, do que nos casos em que agiu às claras. Há inclusive um mistério «A Capital» -- do tempo do Iriarte - como há (houve) um mistério «Portugal Hoje», como houve outros mistérios.

A influência indirecta e «clandestina» do aparelho foi muito maior nestes casos implícitos ou indirectos: e ainda hoje, os grupos de pressão mais influentes, são aqueles que se encontram em empresas onde o topo da direcção é pró (partido do) governo, por exemplo, ou pró católicos, mas, logo no escalão a seguir, a influência é de antigos membros declarados do PCP.

Tudo isto, como calculas, me sufoca a garganta, por não poder falar disto com ninguém. Conheces a cena: antes de falar, muito baixinho, olha-se para todos os lados a ver se há algum homem de gabardine azul escura, ou algum microfone dissimulado numa parede...

Mas este «sufoco» vem, como te digo, dos mais longínquos tempos do «gonçalvismo»: e ter sido chamado de fascista por um Casimiro de Brito (por exemplo), que foi sempre gerente de banco estes anos todos, não é apenas um episódio solto, avulso, foi o clima que sempre enfrentei, por onde quer que tive de andar para garantir a minha profissão e sobrevivência.

Quer dizer: encontro-me neste momento do teu lado, com quem aliás e através de todas as vicissitudes, me senti sempre, dada a antiguidade e raízes da nossa amizade. Mas hoje, o reforço de laços é também cumplicidade ao nível de coisas estranhas que continuam a passar-se no nosso Gulag português e -- falando claro -- agora no gulag do nosso querido Alentejo.

Mas deixemos de choradeiras: que será possível ainda fazer, antes que definitivamente nos deitem no buraco? No «Diário do Alentejo», talvez seja possível lançar a última, a derradeira ponte para o diálogo entre passado e futuro, entre estalinistas da velha guarda e perestroikianos da nova vaga. [ A palavra «Diálogo» continua a ser tão bonita, tão necessária, tão urgente -- e com tantas ressonâncias desde o «Diário Ilustrado», como de certeza recordas --, que eu quase me atrevia a sugerir «Diálogo» em vez de «Largo», sei lá...]

Como disseste, há áreas a marcar agora mais do que nunca; depois das infraestruturas, vem:

Já vi que tens referências aos «movimentos ecologistas» no teu romance: mas aí vamos talvez ter nossas longas conversas, onde eu posso pôr-te a par de alguns dos meus ressaibiamentos mais chatos, onde mais me feriram (o amor-próprio também e porque não?), onde fui literalmente posto fora da carroça, áreas onde joguei -- apostei --, antes de ninguém tudo por tudo, e nas quais fui -- melhor do que ninguém tu compreenderás o termo -- chulado: primeiro pelo António Gonzalez e depois pela maviosa Maria Santos-a-do-rabo-de-cavalo.

Quer dizer, em uma área política que estava virgem, que eu ocupei com sangue, suor e lágrimas com mais dois ou três malucos -- investindo tempo, dinheiro, energias, vontade, papel, edições, investindo tudo --, de repente, e quando se viu que o ambiente dava votos, eis o Aparelho a recuperar, oportunisticamente, tudo aquilo em que eu apostara com paixão e em que por isso tinha sido indirectamente censurado, criticado, insultado. E sem sequer me convidaram para entrar nas fileiras do Partido...

Reinou a ambiguidade, estes anos todos, nas relações entre células intelectuais do aparelho e a minha pessoa, mas também o desprezo, quando eu até sabia bem que era um «capital político» não desprezável e que devia minimamente ser levado em conta e em consideração.

Mas não: jamais a arrogância dos PCP me convidou fosse para o que fosse, antes pelo contrário. Muitas vezes eu senti que estava debaixo de olho. Que era seguido para servir de barómetro. Muitas vezes, o partido marcava -- pura coincidência, claro! -- sessões de esclarecimento, ou manifs,. a coincidir com o horário de manifestações ecologistas de inspiração libertária, anarca, liberal ou reformista.

Quer dizer: uma guerra surda, e jamais um frente-a-frente leal, que dissesse «vamos lá discutir esta merda», vamos pôr isto em termos de «unidade de esquerda», em termos de jogos de influência e correlação de forças, etc. Todas as manigâncias feitas pela calada, apropriações, inclusive partes do discurso «roubadas» sem dizer a origem, enfim, toda uma processologia malandra que, afinal, constato agora, tu também, pelos vistos, conheces bem e narras no teu livro-bomba.

Bom: para a gente não desesperar vamos pensar que ainda há alguma coisa a fazer, vamos fazer de conta que temos um plano comum de trabalho; vamos falando sobre esse passado que, pelo menos para mim, esteve amortalhado no silêncio dos silêncios. Como é que eu não esquizofrenei há mais tempo?

De qualquer modo, quero ainda compreender o que se passou. Quero perceber e não atribuir grosso modo todas as culpas ao aparelho, ao estalinismo, ao gonçalvismo, ao Gulag, etc tentando saber afinal de contas onde é que eu também claudiquei, onde -- sem querer e sem saber -- fiz o jogo «contra-revolucionário», onde prejudiquei a estratégia popular. etc. etc.

Em suma, quero fazer a auto-crítica que sempre esperei que eles fizessem e não fizeram. E continuam a não fazer. Tragicamente para a esquerda, penso eu, e aí é que estás o busílis.

Recordo-me que, no auge gonçalvista, colaborei no semanário esquerdista «Página Um» com uma secção didáctica que se chamava «Da esquerda à Esquerda», tentativa de convidar a esquerda a fazer a autocrítica que já então, como hoje, ela se recusava a fazer. A chuva de insultos com que fui mimoseado!

Como eu não posso estar sem fazer planos, sem projectar qualquer coisa no futuro, lanço aqui um repto: vamos publicar, em edição policopiada, artesanal, clandestina, um «fanzine» chamado «Notícias da Clandestinidade»?

Recordo, em fotocópia, alguns relacionamentos que esse projecto podia ter com uma reforma, por dentro, de estratégias que estão em vias de se suicidar. A menos que o Barros de Moura seja a resposta para esta minha preocupação: mas nesse caso o Barros de Moura terá que agir muito rapidamente para reconquistar o Alentejo aos mouros...♥♥♥