<biomassa-1> os dossiês do silêncio

EUFORBIÁCEAS

NO HORIZONTE(*)

28/11/1981 - A importância económica das plantas euforbiáceas, foi referida num colóquio sobre álcool combustível que se efectuou na Estação Agronómica Nacional (Oeiras) em Junho de 1980. Um dos muitos encontros promovidos pelo infatigável Eurico da Fonseca na sua benemérita campanha em favor do álcool.

Traduzindo a palavra científica, apura-se que as euforbiáceas são plantas dicotiledóneas, de folhas simples e frutos secos.

Da raiz extrai-se uma resina (o eufórbio) com aplicações industriais e do caule, por sua vez, o látex com aplicações medicinais.

Segundo o autor da intervenção, «a investigação agrária experimental quer aprofundar»

Será que vamos aproveitar efectivamente uma planta que cresce sem necessitar de cultura e que representa portanto um desperdício se a não aproveitarmos?

Ou será que temos em perspectiva, com toda esta conversa das euforbiáceas, mais uma monocultura industrial destrutiva dos ecossistemas agrícolas como têm sido as culturas industriais esgotantes de oleaginosas (cártamo, girassol), alguns cereais (a campanha do trigo), legumes (o tomate) e a beterraba para produzir álcool combustível?

Onde e quando irá parar a loucura de querer alimentar os luxos da sociedade industrial com os produtos de uma terra que nem sequer ainda conseguiu matar a fome da maioria?

No mesmo colóquio do etanol, um outro participante mostrou-se eufórico com a possibilidade de «imitar a natureza» no seu mecanismo da fotosíntese!

Ah! No dia em que a gente conseguir ser tão perfeito como a clorofila, temos a crise de energia resolvida.

Este « imitar da natureza» revela, aliás, um progresso extraordinário em relação a um outro mito que deu à luz, em Elvas e Oeiras, as chamadas Estações de Melhoramento de Plantas.

Melhorar a natureza foi o «slogan» desta geração de investigadores, quando a velha palavra de guerra «dominar a natureza», se apresentava já um tanto escandalosa e com ressonâncias fascistas.

Dominar primeiro, «melhorar» depois, são apenas etapas da mesma escalada. E agora «imitar».

Tudo isto porque é preciso alimentar os carros, no momento em que a gasolina aumenta de preço e rareia de quantidade.

É preciso mostrar o maior amor pela ciência, da qual depende a nossa fartura de energívoros e até pela «maravilhosa natureza» que «faz tudo tão bem» e há-de produzir também gasolina para os «nossos» automóveis.

Como se vê, eles não recuam nunca.

Como todas as «associações de malfeitores» os cientistas procuram sempre mais e melhor.

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(*) Publicado no jornal «A Capital» (Crónica do Planeta Terra), 28/11/1981☼☻