1-2 <biocracia-2-cc> = contra a ciência – crítica da ciência - os dossiês do silêncio – contra a ciência ordinária – mein kampf – obviamente inédito de 1988
BIOCRACIA CEGA(*)
(*) (ver fotocópias em anexo)
5/11/1988 - Avanços técnicos na área das actividades especificamente humanas levam a uma desconfiança crítica cada vez maior por parte dos que têm a obrigação de reflectir sobre a loucura gratuita da tecnologia cega e da cega ciência, seja essa reflexão a do Presidente da República, Mário Soares, seja a do Papa João Paulo II.
Mesmo correndo o risco de passar por moralista caturra, há que ponderar as consequências de aviltamento que sobre a liberdade e a dignidade da pessoa humana se preparam com as «novas tecnologias» nomeadamente as chamadas "biotecnologias".
De tal maneira isso é assim, que muitos preferem chamar-lhe "biocracia" e outros , sem papas na língua, «biofascismo». Neutrais, divinamente neutrais, é que tais ciências e tecnologias onde entra o radical "bio", não são. Porque interferem , directa ou indirectamente, com a célula viva, nunca podem ser neutrais.
Os conceitos alegadamente científicos (só), carregam-se de conotações morais. É-lhes intrínseca, à partida, a escolha ética, contra ou a favor da vida, contra ou a favor da liberdade e da dignidade humana.
Por mais que isso cheire a moralismo, em meios que se dizem e gabam de científicos, logo neutrais, medir as consequências da irresponsabilidade tecnológica só não agrada a irresponsáveis , delinquentes e outros tecnocratas.
Hão-de explicar a este povo de Cristo, por exemplo, que raio é isso de Engenharia Alimentar, matéria curricular de uma novíssima universidade que se chama Católica. Ou Engenharia Humana, ou Engenharia do Ambiente, ou Engenharia da Vida, ciências todas elas expeditas que estão a proliferar como cogumelos à conta de vanguarda cultural e práfrentex. Hão-de explicar, por favor, a este povo de Deus, que é isso de Engenharia humana, porque eu só conheço a que esses"engenheiros humanos"geniais que foram Lenine, Estaline, Mussolini, Hitler o outros discípulos, fabricaram nas suas fábricas de homens...
O campo das indústrias alimentares foi invadido por aditivos, produtos congelados, comidas pré-fabricadas que, a pretexto da "vida agitada dos nossos dias", como diz o spot publicitário, nada têm a ver com um progresso alimentar da sociedade, nem com a defesa qualitativa do consumidor, mas apenas com os mecanismos de rentabilidade económica das grandes empresas multinacionais do "agro-business" e arredores.
A qualidade em geral e a qualidade biológica em particular não tem rigorosamente nada a ver com esta bagunça das indústrias alimentares, ainda que muito úteis, muito práticas, muito económicas, muito pronto a comer, a vestir e a calçar.
Requintes tecnológicos, apenas regidos pela necessidade de inovação da indústria para reconquistar mercado, não têm nada a ver com qualidade, por mais que se use e abuse da palavra, a mais frequente no discurso do tecnocrata depois de "timing", "mercado único" e (a lascívia da) "adesão”.
Aliás, em qualquer área das chamadas ciências humanas (bem pouco humanas, valha a verdade) os chamados avanços das chamadas "tecnologias de ponta", os mecanismos mais complicados, electrónicos ou informatizados não significam, quase nunca, procedimentos e processos mais humanos - na prática concreta do dia a dia das pessoas - mais adequados ao ritmo, ao equilíbrio, à qualidade de vida das pessoas.
Se se entra no campo da biotecnologia, não é a beatice imperante nesse mundo, a incurável arrogância dos seus próceres, o boquiabertismo perante as inovações, que constitui matéria de progresso humano, de qualidade de vida.
É, quanto muito, uma manifestação mais do provincianismo diagnosticado por Fernando Pessoa, que foi o espírito mais universal do século, mas nunca passou do Largo de S. Carlos, ali ao Governo Civil...
Provinciano, nessa acepção, é ficar de cócoras perante qualquer "prodígio de técnica", qualquer inovação só porque é inovação, quer ela beneficie de imediato muito, pouco ou nada o consumidor vulgar de Lineu.
Quando alguns responsáveis - como o Papa João Paulo II ou o Presidente da Republica Mário Soares - apelam aos cientistas para levarem em conta as implicações éticas da ciência, não é porque estejam fora de moda ou tenham alguma coisa contra o progresso, antes pelo contrário. O que eles não têm – presumo - é o cérebro lavado pela beatice tecnocrática, no caso concreto pela beatice biocrática.
Sabendo embora que estão falando a surdos, eles insistem em pedir que a ciência, cega por definição e natureza, como ela própria se reclama, abra alguma vez os olhos e veja.
A ciência hoje, usando e abusando do seu poder sem ética naquelas áreas que afectam directa e às vezes brutalmente a liberdade e a dignidade das pessoas, começa a não ter muitos alibis e começa a ser tão culpada de abominações, como os cientistas, nomeadamente biólogos, do Terceiro Reich o foram.
Modernizar, hoje, já não é alibi para todos os abusos e violências. Se a retórica cientifista tem muita força, penetrando por tudo o que é "mass media", e é assoprada por mandarins da opinião pública a soldo de algum prato de lentilhas, é preciso, é possível e é urgente (chamem-nos embora moralistas, com todo o ar de insulto grave) enfrentar essa retórica, essa beatice, essa arrogância com ideias, um pensamento crítico seguro ou apenas com o bom senso e até o simples senso comum, boas armas contra a pesporrência tecnocrática.
Tudo é preferível ao servilismo mental que se flecte à frente da primeira barbaridade apodada de moderna ou mesmo de pós-moderna e (blá-blá-blá) pós-pós-pós-moderna - - - - -
(*) (ver fotocópias em anexo) ☼