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O ECOCÍDIO
E A ESQUERDA NECRÓFILA
15/Junho/1973 - Como uma breve excursão no domínio do biocídio logo poderá demonstrar, o realismo ecologista nunca esteve nem podia estar - por definição - do lado da violência.
Antes pelo contrário, a sua luta trava-se precisamente ao nível do extermínio; seja ele, chame-se ele etnocídio, genocídio, biocídio ou ecocídio.
Utopista é o que, de qualquer modo, com violência encoberta ou declarada, directa ou indirecta , contribui deliberada e fanaticamente para a exterminação de qualquer espécie viva, incluindo o homem.
Ora no que monta ao ecocídio, onde estão os de esquerda necrófila que nunca os vemos ou ouvimos protestar?
Em nome da sacrossanta industrialização, tudo (inclusive o quotidiano alimentar) é consentido. A pretexto de aumentar a produtividade e de «alimentar a fome mundial», todos os tecnocratas da FAO e os biocratas daqui e dali, são unânimes em defender: prioridade à energias nuclear (mesmo que mate e arruine a humanidade); prioridade aos pesticidas, insecticidas e adubos químicos (mesmo que matem, queimem e arruinem todos os solos aráveis); prioridade aos antibióticos, mesmo que conduzam sistematicamente ao extremo da cirurgia.
De que lado estão os esquerdistas?
Do lado das indústrias alimentares ou do lado dos movimentos de resistência ao biocídio praticado pelas indústrias alimentares?
O mais cómico, no entanto e entretanto, acontece: mostrando-se à la page, o mensário «Seara Nova» comprou a «Le Sauvage -- órgão avançado da contestação ecológica -- um artigo de Michel Bosquet, um dos mais lúcidos comentaristas e dos mais firmes lutadores no campo radical da ecologia política. Pois bem: não «podendo» deturpar de outra maneira, foi mesmo no título que se praticou a manobra de inverter por completo o sentido geral do artigo e do autor. E em vez de se associar a palavra «revolucionário» com a palavra «ecologia» (o que estaria correcto) junta-se o prefixo eco (de ecologia e de economia também...) à palavra fascista, de modo a que no espírito do leitor vibrem as piores ressonâncias possíveis, sempre que veja escrita a palavra ecologia...
A POLUIÇÃO DA ESQUERDA NECRÓFILA
Ameaça a revista «Seara Nova» ir ocupar-se em breve dos graves (sic) problemas da poluição.
Finalmente, a esquerda necrófila ocupa-se desta matéria altamente reaccionária e inflamável, pelo que se deve augurar à empresa não só um êxito sem precedentes mas o apoio -- então sim -- dos órgãos que até agora fugiam a quatro pés das questões ambientais.
Depois de monopolizada pela demagogias da direita triunfal, a esquerda necrofílica preparada está também para lhe deitar a gadanha. É altura de intervir, só, tentando seguir as manobras que um e outro bloco realizam para a respectiva, sacrossanta e tradicional anexação (humilhação) daquilo que os ultrapassa. Por definição, ultrapassa.☻