1-2 < 90-11-11-ie> ideia ecológica – publicados ac - antinucl-<ecos>-3906 caracteres

 

DO MANIFESTO ANTINUCLEAR

CAUSAS DO TERROR NUCLEAR E NEM SÓ

[ 11-11-1990]

É tempo de se pôr a claro, entre os anti-nuclearistas portugueses, que a aparente e táctica unidade ou unanimidade da frente anti-nuclear não tem qualquer significado. Não existe. É uma fachada para fazer medo aos nuclearistas.

Já sei que vão classificar-me de suicida, demissionário e cisionista com esta afirmação, esta atitude, esta carta. E suicídio, seja ela qual for, é o acto individual de afirmação libertária que vocês, cientistas encartados, acima de tudo mais temem. Ao lançar com afirmações verdadeiras a cisânia na frente anti-nuclear, é possível que eu esteja a ter uma posição «suicida», mas será por isso que vou deixar de dizer a verdade, a pura verdade dos factos?

A chatice é que, vocês todos, donos universitários da ciência, não admitem que ninguém se suicide por sua própria conta e risco. O inacreditável desta situação é que, até no suicídio, em sentido lato e em sentido estrito, temos que ir conforme vocês, tecnocratas competentes ou incompetentes, querem e programaram nos vossos computadores. Até para me suicidar tenho que vos pedir autorização, não é?

Ora quem, antes de mais e acima de tudo, acciona o suicídio colectivo da humanidade - a que depois chamam crise ecológica - são os cientistas e todos os servidores do sistema que, logica e coerentemente, nos conduziu ao buraco (sem saída) do nuclear. Estamos encurralados - e foram vocês, cientistas de mãos limpas, subscritores dos acordos de Helsínquia, protestantes pacifistas à Einstein (depois do mal a caramunha), à Bertrand Russell, à Linus Pauling - (quase) todos com o prémio Nobel no papo - que nos encurralaram.

Como hoje o comité dos 110 também quer, quiseram aqueles nobeis vir penitenciar-se daquilo mesmo que a sua deles ciência engendrou no seu ventre de adúltera. É tarde, porém, este lavar de mãos pilatesco, a vossa contestação são sopas depois do almoço. E o almoço já conta algumas toneladas de resíduos plutónicos e radioactivos sem mais destino a dar-lhes que espalhar-se, a breve ou curto prazo, na biosfera. É tarde, porém, e a geração que vai ser apanhada, como ratos, no buraco do nuclear, ainda não viu quem lá a meteu.

O Comité dos 110 quer evitar, in extremis, que a nova geração veja quem a vai matar de morte radioactiva. Por isso disse que é tempo de se pôr a claro, entre os antinuclearistas portugueses, que não há unidade nem unanimidade táctica capaz de encobrir a responsabilidade absoluta que os 110 têm no processo, mais os 1100 que ainda o não assinaram nem quererão vir jamais a assiná-lo, mais os 11000, mais os 110000, que nunca o exército dos cientistas encartados e físicos eminentes termina jamais.

Os que ainda defendem o Nuclear não precisam de registo. Entram automaticamente na eternidade da Bem-aventurança e aí terão o cancro respectivo a que têm direito como electronuclearistas de sempre e para sempre. Já os outros, nem pró nem contra, querendo escapulir-se à última hora do barco que ajudaram a meter no fundo, querendo ver se a ambiguidade os livra das chamas do Inferno, me metem grande nojo e repugnância. São os meias tintas das soluções intermédias, ou das revoluções com dois ss, aqueles nos braços dos quais (e segundo os quais) o militante tem de cair para não ser folclórica a sua acção.

Neste momento e por conjuntura meramente interpartidária, faz um certo jeito anti-PS ser, por agora, contra a central de Ferrel e defender o adiamento. Mas há que distinguir entre os que rejeitam hoje para melhor a defender amanhã e os que a rejeitam ontem, hoje, amanhã, sempre, porque rejeitam o sistema ideológico (o desenvolvimentismo) que tanto pode cagar centrais como eucaliptais.

Não digo que alguns dos 110 estejam neste grupo: sei que para alguns de vocês o Nuclear, mesmo como obra-prima da vossa ciência, está falido e não tem futuro. Mas se vocês, cabeças dos 110, não podem abdicar da vossa ciência, como raio vão descalçar a bota e como raio estão iludindo os portugueses? In «Gazeta do Sul», ??????  ☼