<83-11-26>dl velho paradigma

CIÊNCIA PODE MUITO,

MAS SABE POUCO

26/11/1983 - O cientista Antímio de Azevedo abespinhou-se na RTP (programa «Fim de Semana», 26 de Novembro de 1983), porque alguém dos jornais minimizou a capacidade futurológica dos serviços meteorológicos, que são, aliás, os primeiros a reconhecer modestamente não poder fazer previsões para lá de 4-6 dias.

Em que ficamos? A poderosa ciência pode ou não pode , sabe ou não sabe , adianta ou não adianta alguma coisa a circunstâncias trágicas como a que, mais ma vez, se abateu sobre o país?

Criticar a ciência não é criticar os cientistas. tem sido, pelo menos, a norma destas crónicas, onde o que se põe sistematicamente em causa é sempre o sistema (neste caso o sistema científico) e não as pessoas. Para quem fundamentalmente defende os ecossistemas, é o sistema, sempre, o que está em causa, independentemente dos que o servem, melhor ou pior.

No caso da meteorologia - a quem se pede, bem como à sismologia, capacidade de previsão - temos de reconhecer que a realidade fica muito aquém das ambições, tantas vezes ambiciosa e triunfalìsticamente proclamadas.

É o «pretensiosismo» triunfalista da ciência o que também se costuma invectivar nestas crónicas do Planeta Terra. E, obviamente, a demagogia inerente.

Ora é claramente demagógico lançar, mesmo como hipótese, o carácter cíclico das cheias. Primeiro porque são os meteorologistas os primeiros a duvidar e depois porque a observação primária mais recente conduz a conclusões bem diferentes.

se alguma coisa se pode concluir das cheias dos últimos anos em Portugal é que, no seguimento de secas prolongadas, as primeiras chuvas trazem sempre no bojo anomalias pluviométricas.

Cientificamente comprovado está apenas uma coisa: é que os desequilíbrios climáticos se têm acentuado (agravado) - seca agora, dilúvio depois - por das causas principais: a intervenção industrial e urbana no meio ambiente e a tal manipulação das forças naturais a que pomposamente as grandes potências chamam super-engenharia do Ambiente.

Por outro lado e pensando apenas em termos domésticos, é demagógico evocar apenas as grandes cheias de 1967 e os 500 mortos que originaram, quando, em cada invernia mais ou menos prolongada - que de vez em quando interrompe uma quase contínua seca - é certo e sabido que se registam desastres, inundações, diques rebentados, aluimento de terras, mortos, feridos e desalojados.

Que a tese dos dilúvios periódicos, pois, não sirva de alibi para a gente agora só se afligir daqui a 15 anos. O único conselho sensato e não demagógico é tomar medidas para a cheia enquanto dura a seca. E tomar medidas não deve limitar-se a desentupir sumidouros de águas (embora também e visto que nem isso agora se faz).

Arborizar com árvores decentes de protecção é medida preventiva de fundo não só contra a água a mais como contra a água a menos. Se desarborizar é o primeiro grande crime cometido contra a ordem climática natural, é pela rearborização que se deverá começar, afirmando que arborizar nata tem a ver com eucaliptar, que é apenas o seu contrário.

1981: PARA NÃO IR MAIS LONGE

A demagogia da ciência é possível, porque é curta a memória das pessoas para os factos.

Em 1981 e para não recuar mais no tempo, tivemos, mesmo no Natal, um temporal com um trágico balanço: 30 mortos e milhares de contos de prejuízos. Houve na altura quem atribuísse as culpas à AD então no governo...

Dizer que temos problemas de 15 em 15 anos, pois, parece um tanto anedótico.

Para os que não se lembram, evocamos aqui os títulos bem significativos com que o jornal «A Capital» acompanhou três dias de tempestade, em Dezembro de 1981:

Sábado, dia 26 - ventania sobre Lisboa faz parar cacilheiros

Segunda, dia 28 - Vento atinge 100KM/hora - Rajadas ciclónicas nas próximas 24 horas - Aluimento em Areosa ceifa 15 vidas - Lama mata sete primos - Viatura com oito pessoas salva da enchente pelos bombeiros - Inundações na região de Lisboa

Terça, dia 29 - Temporal faz mais vítimas - Grua volta-se no tejo - 4 tripulantes mortos - Areosa chora os seus filhos

4ª feira, dia 30 - Temporal - Zona de Lisboa é a mais atingida - Chuva atinge 57 mm em 12 horas - vento sopra a 126 KM na ponte - Queda de árvore mata 6 em benavente - Navios em dificuldades no Tejo

5ª feira, dia 31 - Regresso à normalidade - temporal faz 30 mortos e milhares de contos de prejuízos.

PONTOS FRACOS DE UM PAÍS VULNERÁVEL

Não é gratuito o inventário de pontos sensíveis que cada temporal revela ao país vulnerável que temos.

Era bom que os responsáveis tomassem nota. Nós, em 1981, registámos alguns desses pontos fracos que um dia depois os responsáveis já com certeza tinham esquecido.

Por exemplo:☼☼