1-4 - <79-05-25-ie> quarta-feira, 20 de Novembro de 2002 – scan
3 DE JUNHO
DIA INTERNACIONAL DE MANIFESTAÇÕES
CONTRA A ENERGIA ATÓMICA
MANIFESTO DO COMITÉ ANTINUCLEAR DE LISBOA (C.A.L.)
AOS ÓRGÃOS DE COMUNICAÇÃO SOCIAL (*)
(*) Este texto de Afonso Cautela serviu de comunicado ao Comité Anti-Nuclear de Lisboa, em 25 de Maio de 1979 ☻
Considerando o papel decisivo que terá cada vez mais o tipo de energia preponderante na economia e futuro dos povos;
Considerando que as opções energéticas são, fundamentalmente, a opção do tipo de sociedade e de vida que queremos, enquanto seres vivos responsáveis: para os nossos filhos e filhos das nossos filhos;
Considerando que as fontes de energia dominantes irão, em grande parte, condicionar o modelo de crescimento industrial e de desenvolvimento económico adoptado pelos países chamados em desenvolvimento, no grupo dos quais é costuma inserir Portugal;
Considerando que é um dever, por parte de todos os responsáveis dos órgãos de Comunicação Social, informar a opinião pública não só dos perigos e poluições inerentes ao sistema energético actualmente predominante mas apontar, com força e esperança, as alternativas ecológicas das energias limpas, infinitas e inesgotáveis cuja exploração imediata nada tem de utópico nem de impossibilista;
Considerando, aliás, que o realismo energético se confunde cada vez mais com realismo ecológico;
Considerando que um regime de censura, segredo e distorção da verdade envolve, à escala mundial, os problemas da energia, nomeadamente petrolífera e nuclear, verificando-se um clima de total intoxicação da opinião pública;
Considerando que o papel dos órgãos de Comunicação Social é tanto mais importante quanto mais apertada se mostra essa rede de "arame farpado" e quanto mais se intensificar, dentro dela, a propaganda favorável à imposição (anti-democrática, totalitária a até policial) de tipos de energia mais perigosos, poluentes e, afinal de contas, menos rentáveis a curto, médio e longo prazo, além de muito menos favoráveis à independência nacional;
Considerando que a maior parte das energias limpas ou não poluentes são desconhecidas da opinião pública como alternativas práticas, até imediatas, que só os interesses económicos dos imperialismos impedem de explorar à mais vasta escala;
Considerando que não são de ordem tecnológica ou económica, os obstáculos que se põem à exploração das eco-energias mas meramente ideológicos no sentido de blocos hegemónicos e de partidos políticos;
Considerando que só o esclarecimento acelerado das grandes massas da papulação sobre este problema e uma sistemática desintoxicação da opinião pública conduzirá, obviamente, a uma solução democrática dos mesmos;
Considerando o perigo iminente de poder vir a ser aprovado pela Assembleia da República o Plano Nuclear Português, sem que tivessem sido ponderados todos os riscos da via nuclear e exploradas todas as possibilidades alternativas desde o carvão ao solar, desde o hidráulico ao eólico, desde o petróleo à energia das ondas e marés, desde a geotermia ao biogás;
Considerando que para essa decisão ser democrática e não arbitrária nem prepotente, é absolutamente necessário um amplo debate público na perspectiva da moratória Nuclear (horizonte a longo prazo) e dos referendos regionais ( a curto e médio prazo);
Considerando a importância vital que nesse debate, nesse esclarecimento, nessa consciencialização cívica e humanitária do povo português podem e devem desempenhar os órgãos da Comunicação Social que reputamos verdadeiramente de Quarto Poder,
e a-propósito do DIA INTERNACIONAL DE MANIFESTAÇÕES CONTRA A ENERGIA ATÓMICA, que se celebra a 3 de Junho,
a) O Comité Antinuclear de Lisboa (C.A.L.) chamar a atenção dos jornais e jornalistas mais abertos às grandes questões do nosso tempo e do nosso País - como é a opção energética em geral e a rejeição nuclear em particular - para alguns dados de facto que, independentemente das posições de cada um e da guerra ideológica existente neste campo, podem fundamentar de maneira mais justa e consciente essas posições e essas opções;
b) Para lá do 3 da Junho, o C.A.L. coloca-se permanentemente à disposição dos órgãos de comunicação social que queiram abrir dossiês sobre assuntos e problemas energéticos normalmente esquecidos ou minimizados pelos mesmos O.C.S.;
c) O CAL irá trabalhar para lá do 3 de Junho, no sentido da não deixar arrefecer a mobilização que neste porventura se consiga, prolongando e ampliando esta campanha cívica e humanitária em prol da vida contra a morte nuclear, para o que, antecipadamente, com a boa vontade e adesão dos jornalistas que queiram colaborar nessa campanha;
d) Sem nunca abdicar de participar na "mais acesa polémica do nosso tempo", o C.A.L. , sendo polémico também declara, no entanto, rejeitar enérgica e absolutamente quaisquer afrontamentos directos com departamentos, entidades ou personalidades, inserindo-se na tendência universal do Movimento Antinuclear que é a via pacífica, não violenta a alternativista do esclarecimento público activo, da pedagogia cívica, para que, em última e decisiva instância, sejam as populações a impor e a repor, pela força da razão, da justiça e da verdade, o problema energético nos termos exactos;
e) O C.A.L. apela , por isso, em primeira e última instância, para o Quarto Poder - os Órgãos de Comunicação Social - como único interlocutor válido capaz de, em diálogo connosco, contribuir para alterar a correlação de forças que, no campo partidário, acusa hoje distorções grotescas relativamente às correntes de opinião que lhe competiria espelhar;
f) O Comité Antinuclear de Lisboa permite-se sugerir aos Ó.C.S. que os dias de Junho que medeiam entre 3 (Dia Antinuclear Internacional) e 23 de Junho ( Dia Mundial do Sol), sejam largamente aproveitados nos órgãos de comunicação social para uma campanha de verdadeiro esclarecimento e mobilização consciente das populações para as grandes opções energéticas, que são as grandes opções de vida ou de morte para o futuro das futuras gerações, alertando os portugueses para o perigo que corremos de vir a ser aprovado, por uma A. da R. que já não representa o povo português, um Plano Energético que vai contra os interesses desse povo;
g) O C.A.L. afirma desde já com toda a energia:
- É possível, económica e tecnologicamente, adoptar um Plano Intensivo para exploração das eco-energias: solar, do vento, das ondas e das marés, geotermia, gás metano ou biogás;
- É possível adoptar já e gradualmente aplicá-las e multiplicá-las, as teses para um Plano Energético de Transição Gradual, conforme tem sido largamente defendido e explicado pelos técnicos mais competentes do lado antinuclear, Plano em que se propõe aos responsáveis pela País um programa de passagem perfeitamente fiável sem riscos para os portugueses e sem encargos para o orçamento como são os que o programa nuclear implica;
- É possível construir uma sociedade mais justa e fazer face ao constante agravamento da crise económica sem ter que recorrer às energias perigosas (que a médio e longo prazo só agravam essa crise), poluentes, esgotáveis e violentas como é a energia nuclear, realizando gradativamente as energias ecológicas e reduzindo o uso das importadas, que nos sujeitam aos balanços da inflação e agravam a nossa dependência externa;
- É possível desenvolver económica, social e culturalmente o País, criar emprego, ocupar mão de obra, industrializar à nossa medida e para nosso usufruto, sem destruir recursos naturais básicos, nem ficar na dependência de fontes de energia importadas
h) E dado (assente) que tudo isto é não só possível mas necessário, urgente e condição sine que non da nossa sobrevivência colectiva, o C.A.L. não tem dúvidas nenhumas em afirmar e proclamar:
NUCLEAR NUNCA, ENERGIA SOLAR JÁ, VIDA SEMPRE.
Comité Antinuclear de Lisboa
25 de Maio de 1979
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(*) Este texto de Afonso Cautela serviu de comunicado ao Comité Anti-Nuclear de Lisboa, em 25 de Maio de 1979 ☻