1-1 - <80-12-12-ecc> = ecos da capoeira – a mania das grandezas – os dossiês do silêncio
O ACESSO (FEBRIL)
DAS VIAS RÁPIDAS (*)
12/12/1980
- A febre das vias rápidas subiu nos últimos meses.As coisas, em Portugal, passam-se, regra geral, por "acessos febris". Basta que chegue uma ordem de qualquer "Central" e é ver as ratazanas todas afadigadas cumprindo ordens ou fazendo-se eco da voz do dono.
É tal a frequência, quase grotesca, com que de repente se fala em abrir estradas, que muitos concluem tratar-se de "campanha dirigida com determinados objectivos".
A avaliar o entusiasmo com que os órgãos de informação, barómetros destas febres, põem nos títulos e ao espaço que não hesitam em ocupar, com meras suposições e até fantasmas, o Paraíso para este povo está agora na "estrada", seja ela rodo, ferro ou hidroviária.
Fronteiras abertas de par em par, como a da Portela do Homem, tornam este País um castelo onde a princesa e seu dote (Património) espera os príncipes encantados que a hão-de vir requestar.
Quer se trate ou não de mais uma campanha "intox", vale a pena inventariar os benefícios que se prometem para o povo português.
O Rio Douro parece estar na mira desta devassa que prevê todos os meios de rasgar comunicações, para despejar aqui não se sabe que resíduos e para levar daqui não se sabe que recursos.
A Comunidade Económica Europeia - dizem os jornais, enquanto outros desdizem - manifestou o seu interesse carinhoso e paternal, ( claro está!) pelo rio das fragas, prometendo 40% dos dólares necessários a tão gigantesco projecto.
Aveiro-Murtosa e Aveiro-Vilar Formoso são outras vias asfaltadas de que se tem falado até ao grotesco do exagero.
Simultaneamente com a propaganda desencadeada, ao som do adufe, para construir estradas, mais estradas, sempre mais estradas, as belas palavras dos técnicos que sabem disso e sobre isso discursam, vão-se infiltrando, gota a gota, no subconsciente deste povo que, queira ou não queira, terá pela boca abaixo o paraíso das infra-estruturas viárias.
"Desenvolvimento" e "descentralização" , por exemplo, são palavras lindas, que agradam ao ouvido e provocam um salivar de simpatia nos cachorrinhos de Pavlov. São das mais marteladas pela campanha intox das estruturas viárias.
Relativamente ao projecto da Comissão Norte, os municípios abrangidos tiveram um mês para apresentar sugestões e críticas ao projecto de estratégia do desenvolvimento , divulgado no Porto pelo presidente da respectiva Comissão de Coordenação, prof. Valente de Oliveira.
Um mês para decidir projecto de tal envergadura e consequências, é, não há dúvida, um modelo de moral política descentralizadora.
Como vão os autarcas digerir em trinta dias um projecto de 600 páginas, eis o que preocupa alguns gastrónomos.
Mas como se trata de progresso e foi tudo pensando no bem do povo, os autarcas confiam nos técnicos habilitados (infalíveis) que vão transformar o projecto em programa que o governo aprovará: não precisam os autarcas de dar opinião, visto que está tudo visto e pré-visto pela autoridade dos técnicos abalizados. Infalíveis.
Como exemplo de ética democrática pluralista, também é modelar.
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(*) Este texto, provavelmente publicado no semanário «Voz do Povo» , lembra que as vias rápidas, em pleno no ano de 1980, foi um dos megaplanos que vingou e veio até hoje. Com os custos para as populações e o ambiente que se conhecem. ☻☺