1-5-<abjecção-1> os dossiês do silêncio – inédito 5 estrelas de 1971
QUADRO ORGÂNICO
DA ABJECÇÃO
Aqui está um texto de 1971 (ano das intuições-chave) que poderá servir, com ligeiras alterações de linguagem, de prefácio a estes dossiês do silêncio que estou passando no scanner e que ofereço à Cristininha, para ela ver se os torna, depois da minha morte, algo rentáveis. É que, ao reler estes textos de há trinta anos, voltei a ter um pouco mais de auto-estima por mim e pelo meu trabalho de 30 anos. Este quadro orgânico da abjecção é uma bela sinopse dos temas, itens, intuições que, durante trinta anos, me limitei a glosar e nem sempre com o nível de síntese ou de estilo que (sou obrigado a reconhecer) este texto tem.
Mais uma vez, chamo a atenção para os inéditos destes dois anos-chave no meu percurso, que foram 1970 e 1971. E não me sentia tão só e isolado como me sinto hoje. Tinha fé no que afirmava e pensava, embora fosse tudo mais que herético e utópico.
Se alguém, depois de morto, me quiser entrevistar, tem aqui os itens-chave que me acompanharam em todas as andanças e contradanças. A palavra-chave «abjecção» deixou-me vinculado, com muitíssima honra, à antologia do Cesariny (Surrealismo/Abjeccionismo) e vejo hoje que com muitíssima razão: derivam daí, desse surrealismo/abjeccionismo, todas as minhas obsessões e manias.
Também por isso, este texto é uma placa giratória, muito perto ainda do Maio 68, da contra-cultura de Theodores Roszack e de outros utopistas contemporâneos do futuro, como os autores de «O Despertar dos Mágicos» que, se não me engano, é de 1962.
Acho que cheguei a publicar este texto num opúsculo da Frente Ecológica, o que seria conveniente, não vão julgar que o escrevi agora, em Maio de 2001.
Lisboa, 27/Maio/2001
15/9/1971 - A Civilização como Doença ou Crise.
A CRÍTICA como acto masoquista da CULTURA para se salvar, limpar ou curar de si própria.
A HIPOCRISIA terá de ser uma das constantes da civilização que alimenta contradições sobre contradições, que proclama uma coisa e faz outra, que em teoria é assim e na prática assado.
A Hipocrisia é consequência directa da constante incoerência.
E com a hipocrisia vem a DEMAGOGIA.
Incapaz de confessar, por exemplo, a sua natureza HOMICIDA (a sua VIOLÊNCIA inata) inventa os HUMANISMOS para encobrir essa viciosa violência, inventa as MORAIS, os belíssimos IDEAIS, e daí a hipocrisia constante (os ideais nunca se cumprem,).
Quando a hipocrisia se faz mensagem pública (através dos mass media) temos a DEMAGOGIA.
Uma civilização que é ela própria uma DOENÇA, inventa, por exemplo, a sublime hipocrisia do DESPORTO e da "alma sã em corpo são".
Uma civilização violenta e homicida, por definição, natureza, origem e fatalidade, diz que defende e promove a SAÚDE.
USURPAÇÃO e SOBRESUFICIÊNCIA são outras constantes da civilização que se julga com o monopólio de todas as HUMANIDADES e CULTURAS possíveis, que fala sempre como se tivesse procuração da humanidade passada, presente e futura. UMBILICALISMO ridículo, EUROPOCENTRISMO irrisório.
TEORIA SEM PRÁTICA, ANÁLISE SEM SÍNTESE : duas contradições que originam todas as demais.
O ESPECIALISMO É O ALIBI DO ESPECIALISMO: maneira pela qual o funcionário da ABJECÇÃO se escapa sempre às responsabilidades que lhe pedem.
DEUS ESTÁ MORTO MAS OS DEUSES PROLIFERAM.
LOGOS CONTRA MYTHOS OU A DISSIDÊNCIA ORIGINAL, a polémica das polémicas.
A partir deste pecado original., o princípio da INDIVIDUAÇÃO cria todo o mal e toda a tragédia, cria a CULTURA COMO UM SISTEMA DE MITOS.
Os mitos menores da cultura ocidental matando os mitos maiores das outras culturas.
O racionalismo ou MITOLOGIA DO ANTI-MITO.
A ORDEM que se diz RACIONAL alimenta a sua própria contradição e seguintes, safando-se das incoerências internas pelo ALIBI DO ESPECIALISMO e do TECNICISMO - ninguém é responsável de nada, visto que a responsabilidade pertence sempre ao "técnico" vizinho e à técnica do vizinho - e pela DEMAGOGIA dos ideais a atingir.
O CULTO DA PERSONALIDADE e a MITOLOGIA POLÍTICA substituem em certos casos os deuses mortos.
ESTRUTURA HIERÁRQUICA DAS RELAÇÕES HUMANAS.
Exemplos de instituições fortemente hierarquizadas: EMPRESA, IGREJA, UNIVERSIDADE, EXÉRCI TO, ESTADO, ESCOLA, ACADEMIAS
ESCOLA Exotérica ou PEDAGOGIA DO MEDO.
Não foi por acaso que a revolução de Maio explodiu no centro da ABJECÇÃO. O PODER DO SABER.
HIERARQUIA E SABATINA JESUÍTICA, autoridade em vez de liberdade, medo em vez de poesia, competição em vez de solidariedade, exploração em vez de amor.
EXAME DE PASSAGEM E PROMOÇÃO, LOTARIA, CONCURSO, RIFA, COMPETIÇÃO.
A VIOLÊNCIA resulta directamente da ESTRUTURA HIERÁRQUICA: se só se passa vencendo o parceiro, combatendo o parceiro, deixando vítimas no caminho, pulando por cima de alguém, derrotando o próximo, todas as RELAÇÕES se encontram de raiz e automaticamente corrompidas, viciadas, comprometidas.
Mas como, para cada CRIME DA CIVILIZAÇÃO, há sempre um cristianismo a tentar santificá-lo, a ideologia fala então do "próximo" , do "amor ao próximo, da "fraternidade'" , de "todos somos irmãos", de "beijo no leproso", etc, etc.
Como, para cada CRIME DA CIVILIZAÇÃO, há sempre uma demagogia a justificá-lo, a demagogia dos "tempos livres", por exemplo, pretende ocultar a escravatura imposta ao homem pelo trabalho, pelo sistema industrial, por todos os sectores e vectores da ABJECÇÃO.
Condicionado pela inevitabilidade do TRABALHO NÃO CRIADOR, todas as "revoluções" o adoptaram.
A revolução está por fazer, enquanto o trabalhador estiver por libertar, por mais férias pagas que a demagogia inventar.
O PROCESSO IRREVERSÍVEL DA TECNOLOGIA.
A "revolução" industrial e o começo do fim.
A imparável LÓGICA DA VIOLÊNCIA, processo de autodestruição sem retorno.
As medidas ANTI-POLUIÇAO como expediente demagógico característico.
Civilização do LIXO, CIVILIZAÇÃO DO LUXO.
Sociedade do consumo ou SOCIEDADE DO DESPERDÍCIO?
O SUPÉRFLUO ABUNDA, FALTA O FUNDAMENTAL.
Degradada a NATUREZA, onde irá o homem depositar os inevitáveis DEJECTOS?
Boca, tubo digestivo, canal digestivo, cloaca : retrato em corpo inteiro do CONSUMIDOR e de todo o processo civilizatório que transformou HOMEM EM ANIMAL DE CONSUMO .
BOMBA, fruto supremo da LÓGICA TECNOLÓGICA.
Até os jornais mais reaccionários, estão a denunciar a demagogia do ÁTOMO PACÍFICO.
NÃO HÁ ÁTOMO PACÍFICO, dizia "O Comércio d o Funchal", dia 21-3•1971.
Transformado o homem NUMA CLOACA, temos o que os demagogos chamam SOCIEDADE AFLUENTE, SOCIEDADE DA ABUNDÂNCIA, SOCIEDADE DA PRODUTIVIDADE.
Consumo e HISTERIA DO CONSUMO.
Todo o processo humano reduzido ao PROCESSO DIGESTIVO.
Indústrias em geral mas INDÚSTRIAS ALIMENTARES em especial, ao ataque.
Indústrias DISTRACTIVAS também, os MASS MEDIA.
Indústria ARMAMENTISTA muitíssimo em especial.
INDUSTRIOCRACIA - é a indústria e não a Economia, a Política, a Educação, a Poesia ou o Desporto o que decide de nós e nos governa.
TECNOCRACIA - forma "inteligente" de se dizer que não são os industriais (gente de pouco prestígio), mas os técnicos (ao serviço da tecnologia industrial) que comandam os cordéis da sociedade.
Mais uma pequena hipocrisia, mais um expediente demagógico, mais uma contradição não confessada.
MERCANTILISMO - herdado de todas as épocas áureas, eis o ESCLAVAGISMO disfarçado de todos os regimes.
TURISMO - Michael Peters canta em Le Tourisme International um aspecto relativamente esquecido da ABJECÇÃO: empenhado em vender o que tem, cada país socialista entra no jogo que lhe é proposto pelo consumo capitalista.
PRODUÇÃO DE MENINOS como ramo da PRODUTIVIDADE em geral
ADMINISTRAÇÃO DE NASCIMENTOS e controle da actividade sexual do produtor, do cidadão.
Os seios de mamilos provocantes dos mercados capitalistas , n os filmes capitalistas, nos semanários capitalistas, são subsituídos no mercado socialista por caras feias e barbudas dos líders políticos.
O filme que põe a salivar o olho lúbrico do espectador-consumidor não é menos digno do que o filme que põe a salivar o cidadão produtivo.
A explosão demográfica ou a grande chantagem : promove-se nuns sítios, restringe-se noutros. E a moral varia em função dessas variações, conforme as conveniências das administrações: o solteiro é considerado um benfeitor da pátria, se há excesso demográfico; mas se o governo pretende acelerar os nascimentos porque há falta de braços e de cérebros para produzir, é considerado o solteiro um poltrão traidor à pátria.
A pluralidade das civilizações passadas.
A pluralidade dos mundos habitados para lá do globo terrestre.
As razões além da razão A (clássica, greco-latina, ortodoxa): de B a Z.
Verificada a pluralidade de civilizações, começa a compreender-se:
o valor que podem ter o ioga, o Zen, a acupunctura, o karate, as medicinas paralelas;
que todas as raças têm direito à existência e todas as criaturas a ter voz;
que a descolonização dos colonizados pela razão A é um facto irreversível e indetível;
que o futuro será de tolerância e de ecumenismo;
que todas as minorias "anormais" têm direito à existência;
Trata-se de criar uma nova Óptica e de ler, de reler toda a arte, toda a literatura, toda a filosofia, toda a ciência e toda a realidade a essa nova óptica
A imaginação deverá ser método para toda a ciência, todo o pensamento, toda a acção
Aplicada ao campo particular da literatura, a imaginação chama-se poesia.
Aplicada a todos os campos, chamar-se-á prospectiva.
Se a Prospectiva. constitui alguma descoberta, será esta evidência: a imaginação terá de participar em todos os campos da prática humana e, em tão lata acepção, o seu nome é Prospectiva.
VECTORES DA UTOPIA OU REVOLUÇÃO CULTURAL
Desenvolvimento PARALELO
DESCOLONIZAÇÃO total
ACELERAÇÃO histórica
INCREMENTO tecnológico
EXPLOSÃO DEMOGRÁFICA
MUTAÇÃO biológica possível, mutação CULTURAL INEVITÁVEL
O cérebro, esse gigante ADORMECIDO.
A PLURALIDADE dos mundos habitados
A mentalidade PLANETÁRIA substituirá a mentalidade EUROPOCÊNTRICA
As razões PARALELAS substituirão o dogmatismo, a ortodoxia e a ditadura de uma única razão.
IMAGINAÇÃO, HERESIA e HETERODOXIA, noções fundamentais da Nova Utopia ou Revolução Cultural
IMAGINAÇÃO é a palavra do vocabulário antigo que por enquanto se apresenta para designar uma nova noção. A RAZÃO DE OUTRAS RAZÕES além da RAZÃO A
Só uma CRÍTICA TOTAL, CRÍTICA ABJECCIONISTA ou CONTESTAÇÃO pode abrir brecha e fissura no processo totalitário, fechado, da sociedade de consumo, parte mas parte importante da Abjecção
O reconhecimento das MEDICINAS PARALELAS é apenas um caso do fenómeno mais geral dos desenvolvimentos paralelos, das culturas e razões paralelas, das civilizações paralelas, que de maneira explosiva caracteriza a UTOPIA ou REVOLUÇÃO CULTURAL.
A noção de CIVILIZAÇÃO PARALELA substituirá a noção de esmagamento, subordinação, piratagem, racismo, colonização e exploração do homem pelo homem, noções inerentes ao figurino de civilização que, greco-latino e judaico-cristão, se impôs a todo o mundo como se fosse o umbigo do universo.
A quase súbita PLANETARIZAÇÃO dos problemas: eis outra noção sem a qual nada se pode fazer hoje de avançado ou progressivo ou certo.
Tudo ficará irremediavelmente ultrapassado, se não for visto na escala planetária em que todos os problemas hoje, pela contaminação do meio ambiente, se terão de aferir.
O imobilismo caracteriza todo o nosso comportamento e pensamento. O imobilismo é ainda a herança de uma Abjecção que se caracterizaria sempre pelo ódio ao movimento.
A ideia de MUTAÇÃO, pois, estará presente em todos os momentos da Nova Utopia:
mudança pela EXPLOSÃO DEMOGRÁFICA
mudança pela AMEAÇADA POLUIÇÃO
mudança pela queda do imperialismo e ascensão do socialismo
mudança pela DESCOLONIZAÇÃO E AUTONOMIA DO TERCEIRO MUNDO
mudança pela ALTERAÇÃO DE CLIMAS, provocada pelas alterações no meio ambiente natural
mudança provocada pelo CRESCIMENTO ECONÓMICO (industrial) e DEMOGRÁFICO☼