1-3 <92-06-15-ac-> afonso cartas - domingo, 2 de Fevereiro de 2003- novo word - 6398 caracteres <vozes-9> [ a data é próxima do número especial de «a planície» sobre s. francisco de assis]

CARTA AC  A MARIA ROSA COLAÇO

PARA AC FICCIONAR

CARTA DE UMA OVELHA TRESMALHADA

A UMA SUA AMIGA

QUE A QUER REINTEGRAR NO REBANHO

 

[ 15-6-1992]

Maria Rosa: Não gastes cera com ruins defuntos. Às 5 horas da manhã pregando a esta ovelha tresmalhada, a este tão renegado paroquiano, gabo-te a paciência. Não creio que os homens sejam tão maus como os pintas. Madraços, sim, mas maus não acredito. Ninguém é feliz fazendo o Mal. A nossa humildade, ainda que fingida, porque não aplicá-la?

Sobre a feminilidade das cartas que escrevo aos amigos, por demais comprovada em exames microscópicos, orais e escritos - usando métodos de reacção ao Carbono 80 - é para compensar a excessiva masculinidade de outras. Compreendes ou queres que te explique por música?

Vim de Lisboa (é verdade, estive em Lisboa) e vim farto. Não digo doente, porque já ia. Tudo continua a girar à volta de um pecado mortal de que não há Cristo nem Jesus que me redima. Para resposta (ou entulho) dou-lhes no próximo dia 4 de Outubro, em que faz anos que S. Francisco morreu, um número aqui do jornal, número místico, platónico, lunático e outras famas piores que se não dizem às meninas virgens de ouvidos pudibundos.

À vontade deles queriam eles que eu andasse. Mas não ando; os meus pais tiveram-me ao contrário, daí que o espírito de contradição me atravesse meio a meio, metade do umbigo para cada lado.

Não sei porque te perdes a escrever cartas inteligentes para este teu amigo estúpido (neste minuto, mais estúpido que uma porta). Eu não sei deitar senão pus. Prezei sempre a felicidade dos outros e não concordo com o Georges Bernanos que diz: « A dor dos homens é a maravilha do Universo».

Sumir-me como água em terra de barros de Beja, isso sim. Ser um golo de água fresca, uma nuvem, uma sombra num dia de calma de fogo, uma bilha de barro, uma noite estrelada - qualquer coisa útil ou bela ou simplesmente anónima. Porque assim, sinto-me a desonra da espécie, a degeneração da raça, a nódoa da família. Ter filhos (ou que alguém os tivesse por mim) seria a última asneira que praticaria.

Trazer à vida seres mortos, com as minhas taras, acrescentadas das que emergem de idas gerações nas naturezas inclinadamente mórbidas, nas naturezas predestinadas a todas as mazelas e vírus?

Prezo muito a felicidade dos outros. E a beleza do mundo. E a saúde dos homens, para desejar, por condescendência ou sequer com o meu centro de gravidade deslocado 10 graus, ensombrecer de fealdade, doença e fastio, este jardim das delícias - de delícias, ouço eu dizer. Devo cheirar a cravos e não a goivos, a lírios e não a violetas. No rosto das Violetas representa-se Cristo que os homens todos os dias matam e ainda resolveram embalsamar enquanto o promovem, na Opus Dei, a gerente bancário.

Ao reino da terra não chegam as vozes do Céu, como ao Céu não chegam as vozes que da terra partem. Se eu leio os místicos, não é tua a culpa, não. Mas é porque descobri a solidão. E um homem destes é prego atirado ao mar: vai directo ao fundo.

Senta-se num banco de areia, as sereias comem-lhe pernas, braços, pescoço e olhos. E ele imóvel. E ele místico. Debaixo da água, o oxigénio acende-lhe, à noite, a luz, e de dia a respiração. Come saladas. Porque um homem anfíbio nem para fritar serve: nem carne nem peixe, diz a dona de casa na cozinha.

É assim que um poeta se transforma, mercê das correntes quentes, em dona de casa. Aliás o problema central das famílias é o das férias. Não consta isso da metafísica de São Tomás nem das florinhas de S. Francisco.

Olha: fala-me das chaves de S. Pedro, ao menos dessas sabe a gente o destino. Tanto abrem as portas do céu como as do inferno, as de uma prisão como as de uma casa de banho acabada de desinfectar.

E o S. Pedro com cara de porteiro é o único santo aceitável nestes dias temerosamente correntios, pragmáticos, vertiginosos. Fala-me de coisas concretas: de cornos, por exemplo. Ou de coisas frágeis: a nossa reputação.

Além de mim, da minha carência de vitaminas e hormonas, das minhas ilícitas relações com jornais, não sou pessoa para nada. Passa à página seguinte e nela verás o que não viras até hoje.

Levando em consideração a confiança que te devo, ao longo de um hábito de alguns meses, em que tu foste vítima e eu algoz, transcreva-se para que conste e de ti não passe o seguinte passo (-doble) de uma carta de Jaquelino para Miguel: «O Cautela, com as suas parvoíces que teima em manter, acaba por se desacreditar.

Quando quiser - se alguma vez quiser - arripiar caminho, já é tarde. Não sei então o que será dele. Talvez arranje um fim como o Antero para na morte se parecer com ele... Agora estava muito a tempo da dar a mão à palmatória, ele que pretende ser discípulo de António Sérgio. O que Duarte Lima diz é verdade.»

Ora isto é a conclusão terminal (porque há conclusões que não são terminais) a que vão chegar os amigos, para mais ou para menos, mas por lá. Uma cortina cerra-se à nossa frente e não há meio de os perceber, nem eles a mim. Acabamos fatalmente por nos excluir.

Por isso te peço: enquanto é tempo dá os teus olhos e a tua vida às águas salgadas, ao sol, ao céu e a tudo o que tem saúde de corpo e de espírito para a metástase de todas as alegrias e elementos da Natureza. Eu cheiro a remédios, a suores nocturnos, a tédio, a Manuel laranjeira sem flor, a reumático, a magreza, a velhice, a morte. Enterre-se o cadáver.

Há por aí gente normal - que vive, que respira, que ama - que desempenha, enfim, as devidas funções fisiológicas nas devidas horas. Eu não, sofro dos intestinos, para começar, e sofrer dos intestinos é a explicação de todos os sistemas filosóficos do pessimismo.

Prezo a felicidade dos outros, por isso não quero impor-lhes a minha presença. Vou á bruxa quando calha para saber qual é o prato para o almoço de amanhã. Mas a bruxa é belfa: e quando julgo que há sardinhas, há carapaus, o que destrói inteiramente o equilíbrio do Universo.

Por isso, louvada sensatez dos homens sensatos: esses que têm, segundo expressão da mesma carta, «esses que têm» o coração, a cabeça e mais qualquer coisa malcriada que a referida carta dizia «nos seus lugares», termina a missiva. E aqui termino a minha.

Assim seja entre os anjos do céu e os da terra. Assim nele se contém.

Li em «O Século Ilustrado» a notícia do teu novo livro.