<61-05-09-dp> diário pessoal

O QUE É ISSO

DO TÉDIO?

Tavira, 9 de maio de 1961

É contigo que me agrada travar este diálogo. Tu que transpiras saúde e força, alegria e auto-domínio, tú, bem comido e bem dormido, sem olheiras, sem horas irregulares para nada, com horas certas para tudo, metódico e trabalhador, activo e dinâmico, um bom estudante no presente e um bom profissional no futuro, tu, que vives e sabes viver, tu que me aconselhas banhos de mar e de sol, tu que não serás um Apolo mas que não deixas de dar nas vistas femininas pela tua viril auto-satisfação, estampada no rosto e nos gestos desempenados do corpo, tu que, finalmente, comentas entre sardónico e condescendente, o meu estribilho de todas as horas - «Estou chateado» — , tu que só estás chateado a espaços, tu que tens em funcionamento regular todos o órgãos, tu mesmo irás dialogar comigo sobre o Tédio. Tu andas contente. Mas o que é isso de andar chatiado? Porque falam os poetas do Tédio? Porque são eles os chateados? Porque são eles os doentes?