<suicidio> Publicados ac

7-3-1987

O LEIT MOTIV DO SUICÍDIO

        (In Torre do Tombo, 40 mil documentos sobre a Inquisição ainda por investigar)

SUICÍDIOS POR SATURAÇÃO

Porque se suicidam os portugueses de 50 anos?

Entre outras hipóteses explicativas desse sintoma social, há uma bastante convincente: com idades de reforma, tão absurdamente recuadas para fases praticamente post-mortem do indivíduo, é natural que o trabalhador , aos 50 anos, se veja confrontado com a saturação de existir em Portugal.

E como não lhe dão, na idade exacta - 50 anos - a hipótese de relaxar e abrandar o suicídio, o fio parte-se: suicida-se. Só os nossos brandos costumes evitam que não haja ainda mais suicídios na idade crítica da Andropausa.

É verdade também que se suicidam mais homens que mulheres. O que talvez prove, pelo menos, ao contrário das teses feministas, estados de opressão pelo menos idênticos.(20.9.1984)

7/Março/1987 - «Pela primeira vez, desde o 25 de Abril, o Governo cairá (se cair) no Parlamento» disseram os "mass media", com a visível satisfação de quem encontra finalmente a novidade, quer dizer, a notícia , no meio da monótona banalização da crise, oxigénio sem o qual certos partidos não podem respirar, não podem viver.

Visível, natural e lógica foi também a satisfação que assaltou os órgãos da chamada direita e centro direita . Vozes de extrema esquerda, que já não se ouviam desde as últimas eleições, vieram publicamente alertar o povo português para o perigo iminente do reforço da direita, facto que nós, portugueses eleitores, ainda não tínhamos notado.

Quem desencadeou a crise também ainda não tinha percebido que ela s@ poderia ir reforçar a chamada direita. Quando percebeu, era tarde. Se até agora não sabíamos em que lado do espectro se movia o PRD, ficámos a sabê-lo: objectivamente ( abençoados os inocentes, pois deles será o reino dos Céus ) , com este colossal haraquiri da chamada Esquerda, será à chamada Direita que competirá aproveitar os erros acumulados da Esquerda, que parece não ter aprendido nada com todos estes anos de prática, a não ser autoliquidar-se, de maneira cada vez mais trágica e autofágica,

Bem podiam ter frequentado uma escola de Dialéctica. ou de Xadrez,I

conforme conselho (grátis) várias vezes dado nesta crónica: agora e tarde para aprender, ou sequer rever posições.

Fica, deste haraquiri com espada (proeza difícil, dado o tamanho de lâmina), a definição à direita de um partido até agora indefinido e indeciso (o PRD);

E fica a PR mais uma vez a braços com a quadratura do círculo, em que a dita Esquerda é fértil, à falta de melhores talentos;

E fica, a nível de superestrutura partidária, tragicamente a nu a vocação suicida e trágica do povo portuguesa

Desta vez com espada, o que só prova a estreita ligação de vasos comunicantes, entre as bases sofredoras e os mais altos escalões da hierarquia institucional.

Como já tínhamos pensado glosar hoje o tema do suicídio e da vocação trágica do português, caiu-nos a sopa no mel, colorindo esta crónica anacrónica com umas tintas de actualidade (o que já não era sem tempo).

Parabéns à direita que não precisa de mérito próprio para se impor, definitivamente, neste País. Bastou-lhe a estupidez incurável da chamada Esquerda, esses águias que ideologicamente a conduzem. ( Entre outras ocasiões, este aviso foi feito num texto da "Frente Ecológica", edição de Maio de 1981, intitulado «Ecologia e Cancro – 1ª Carta à Geração do Apocalipse»).

Agora é tarde. O Apocalipse vai mesmo ser consumado e à cegueira da Esquerda o ficaremos a dever, mais do que a méritos próprios da Direita.

MODUS VIVENDI - MODUS MORRENDI

Tartufos de várias especialidades científicas, psiquiatras, sociólogos e outros animais domésticos, vieram verter lágrimas de crocodilo sobre os últimos casos de suicídio ocorridos em cadeias portuguesas.

Afivelando o dramatismo que a circunstância impõe, até parecem humanos a sinceros. Mas logo se traem, ao diagnosticarem o suicídio como doença individual, devida a desequilíbrios afectivos e emocionais, a distúrbios familiares, a problemas passionais ou de toxicodependência.

É o que se chama inverter tudo. Por mais causas que enumerem e apontem, deixam sempre as principais por denunciar.

O suicídio, doença tipicamente provocado pelo ambiente, é consequência directa, com efeito e de facto, das próprias estruturas do sistema que vive de ir matando os ecossistemas.

Ora quem preencha essas estruturas, essas tecno-estruturas, exactamente aquelas - psiquiatras, sociólogos, políticos, professores de ciências "humanas" , etc - que depois derramam lágrimas de crocodilo quando o insuportável  modus vivendi (modus morrendi) , que todas elas contribuíram para instalar, explode numa séria de suicídios

Os portugueses conhecem hoje bem as classes da tecno-estrutura que não só decidem dos nossos bolsas como principalmente das nossas vidas e até de nossa morte para não dizer da nossa alma : é um ver se te avias.

Classes, instituições e serviços que não fazem mesmo outra coisa do que chatiar-nos, verdadeiras fábricas de ódio, essas estruturas levam a resistência do cidadão comum ao paroxismo a ao extremo limite.

Portugal pode gabar-se de ter um dos quotidianos mais abjectos, sórdidos o chatos do mundo.

Um quotidiano , assim, insuportável, em breve se irá traduzir num recorde de suicídios, forma expedita, rápida, radical, globalizante e eficaz de os mandar todos à atabua.

Quando, no "Jornal das Nove", um psicanalista receita turmas de "especialistas" para tratarem da saúde aos reclusos, a coisa atinge o auge molieresco da tartufice desaverganhado: os desgraçados que nas penitenciárias espiam as culpas do sistema, dos funcionárias do sistema, ainda teriam - na caridosa perspectiva daquele carinhoso psicanalista, que gramar turmas de psicoterapeutas.

O curioso da fita é que, logo a seguir, o mesmo "Jornal das Nove» indica uma causa real, essa sim, do suicídio à portuguesa, apontando um caso de suposta corrupção numa autarquia do Norte do país.

A justificar perfeitamente que o povo português se suicide em massa, antes que esta nova máquina da inquisição triture ainda mais gente inocente, está o mesmo «Jornal das Nove» no dia seguinte: um autarca que fala 15 minutos a um jornal de TV, a dizer que vai meter em processo-crime um cidadão que teve a ousadia de se queixar de sevícias burocráticas, é ou não um irresistível convite ao suicídio?

Se os portugueses de terceira e jornalistas de segunda, como eu se pudessem confessar, todos diríamos da vontade diária que nos consome de pôr fim a uma arrastada "zombiria" (vida de zombi) a que despotismos nacionais, mas também regionais, nos estão condenando.

As causas deste horror não estão (só) nos manuais de psiquiatria, estão em vários manuais das várias ciências que, no fundo, nada mais são do que sucursais de internamentos psiquiátricos.

Moral da história: quem devia estar lá dentro anda cá fora a receitar mesinhas psicanalíticas aos que estão lá dentro.

Resultado: o suicídio é a resposta ainda possível ao impossível mundo de tartufos, verdugos, homens de leis, terapeutas, que tornaram de facto um Planeta habitável num campo de concentração , numa cloaca fétida, e um país possível num degredo insuportável

Portuguesas de terceira como eu, são candidatos obviamente a um próximo suicídio, se as coisas continuaram como têm vindo a estar, - quer dizer, burocratas, eurocratas, biocratas-e-burrocratas –malhando forte e feio no desgraçado mortal que teve a triste azarina de nascer aqui. Aqui, nesta penitenciária chamada Portugal.

Os suicídios na prisão

Da carta de um preso da penitenciária de Lisboa:

A terapêutica dos suicídios não está na reforma dos Serviços Prisionais, pois resultam, geralmente, do estado psíquico resultante da prisão.

Os Serviços Prisionais não têm responsabilidade pelos suicídios e pouco mais podem fazer.

Dos sete suicídios recentes, seis eram presos preventivos. Ora os presos condenados são quase 60 por cento do total, e são tratados pelos serviços de forma idêntica aos outros.

As causas têm, pois, forçosamente, de ser outras.

É que os tribunais não têm aplicado a lei antiga nem a nova, por falta de sensibilidade preparação. aceitando que presos preventivos inofensivos possam ver a sua situação suspensa para se tratarem.

Todos os suicidas eram acusados de crimes insignificantes, não violentos, atravessavam grave depressão nervosa, e na sua, maioria tinham já sofrido excessiva prisão preventiva.

Essa depressão, devido ao excesso de prisão preventiva, tratando-se de pessoas não violentas, só tem tratamento em liberdade, e é hoje considerada pelos clínicos como doença grave, como aliás se verifica pelos resultados...(In «Diário Popular», 7-3-87)