<61-02-09-sa> - selecção autobiogáfica - diário de um idiota - fragmentos para «O Meu Livro do Desassossego» - datas AC

POR MIM, PREFACIO O SILÊNCIO

«Não um novo-rico, recém chegado às extravagâncias do modernismo»

Tavira, 9 de Fevereiro de 1961, manhã, sexta-feira, dia de sol

É o amor uma forma de equilíbrio, orgânico e psíquico. Mas também o pode ser a amizade, o diálogo permitido pela amizade, a confiança no "para lá" do ego. Não me refiro a uma des-subjectivação mas a uma troca de subjectividades, a um "convívio de solidões" (assim lhe chamei em tempos). Uma certa ordem na desordem, uma tentativa de cosmicizar o caos. Vou tentá-lo na carta, longa carta e talvez enfadonha que me fizeste escrever.

"A humanidade precisa de..." tem paciência mas não é entrar em jogo de palavras, discutir tão discutível asserção. É uma concreta, histórica, comovente evidência que "a humanidade não precisa de coisa nenhuma de ninguém". Ela sabe o que quer, sempre o soube, surda e muda às eloquentes vozes que a doutrinaram. Entrou-lhe por um ouvido a doutrina, e saiu-lhe por outro. Os filósofos ensinando o caminho e a humanidade, pelas mãos dos políticos, no descaminho...

É tudo uma questão de crença. Eu creio nisto, tu crês naquilo. Pode crer-se ou descrer-se. Sabe-se lá porquê! Acreditei na humanidade, nalguma humanidade, no tempo em que lia humanistas e dos humanismos ia aproveitando, tijolo a tijolo, o meu "edifício" . Não me podes acusar, nesse período, de incoerência ou falta de cimento. Era até de cimento armado. Tudo dava, estava certo. Bandeira e exército em riste, andei na guerra.

Mas andei, caro. Queres que te escreva a crónica do que foram esses doidos anos de uma loucura: Convívio? Deixar-te-ei, em dote, os arquivos de correspondência e colaboração dispersa (inédita, publicada ou interdita pela Censura)... Agi. Agi em grupo, mas cada vez mais só. Concluí, em breve, que andava a iludir-me. Não podes por em dúvida a sinceridade da minha luta e, depois, da minha abstenção. Pus sempre a totalidade de mim em tudo, por isso não poderei hoje continuar participando disto e daquilo, se isto e aquilo mortalmente se guerrearem.

Se vim do anarquismo pedagógico para o anarquismo social e deste para o mental, e deste para o afectivo, é porque enjoei o hierarquismo. Não sou um novo-rico recém-chegado às extravagâncias modernistas. Não sou modernista por adopção e adaptação. O pensamento moderno, hás-de concordar, não é todo ele, de fracassados (uma ligeira vista de olhos para o Panorama. das Ideias Contemporâneas - distribuído agora em fascículos para a língua portuguesa - dar-te-á conta de que também os irracionalistas podem ser levados a sério por homens de razão). Nem a arte moderna uma mistificação colectiva, de despeitados e impotentes. Podes afirmar que uns e outros quiseram aderir à mediocridade? Limito-me a acompanhar as aventuras da razão, mas vou um pouco além do que os da razão se aventuram. É tudo, ao que parece.

GRITAR CONTRA A LEI

Não são tanto os ‘rapazes que gritam contra a lei’. N’ O Nariz não me limitei, aliás, a gritar contra a lei. Se bem me percebeste, quando escrevo amor escrevo liberdade. E o nariz, aquele respeitável nariz da lei, está tanto nos outros como em mim. O nariz é um apêndice inerente à raça humana. E o nariz da lei, também.

Não me limito a gritar, porém (sempre faria, contudo, um pouco mais de que tu e todos os que descaradamente colaboram com ela). Vivo a minha revolta, assumo as consequências legais da minha revolta, lúcido e responsável. Porque estou lúcido sempre que o queira estar. E louco, quando assim o entendo. Porque se louco e alienado eu fosse, só júbilo isso vos daria. Assim, lucidamente doido, é que não me perdoais.

Contradigo-me, neste jogo da loucura lúcida ou de lucidez louca? Mas quem garante que seja pré-juízo o meu juízo de agora e o não era o juízo de outrora - quando andei aliado aos da lei racional? Aos juízes do foro racionalista? Não preferi, por comodidade, a linha do menor perigo e resistência. Escolhi o pior. Nesta, estou só. Na outra, ia em grupo. Neste, estou em causa, em cheque e em discussão. Na outra, trabalhava para uma causa comum. Depois de me perde nos outros, julgo que comecei a encontrar-me. Se aderi à mediocridade, não foi à mediocridade colectiva, mas à minha própria.

Quando exalto alguns nomes, não é por eles mas por mim, porque neles me li, me vi, me encontrei, porque neles fui. Nisso, sigo à risca e teu conselho de agora: ‘que seja mais acalorado comigo’. Pois se o sou! Até demais! Quem não irá dizer já que sou um odioso palrador do odioso eu?! Nunca esqueci a máxima de Nietszche-Píndaro ‘Ser o que se é’, um dos meus imperativos mais categóricos.

O MÉRITO DA ANARQUIA

Podes tu ou pode qualquer pôr em dúvida o mérito intrínseco e extrínseco da minha anarquia. É porém a única que me serve. Não aderi à revolta, sou por constituição revoltado. O período humanista foi ainda uma revolta crítica, um prefácio ao nada, ao silêncio, ao ser, à poesia. O que escrevo é testemunho, apenas testemunho de uma tortuosa viagem, de uma inexperiente experiência no corpo, principalmente no corpo, o primeiro e último a pagar as prestidigitações do ‘espírito’. O que escrevo não tem valor intelectual ou literário. Sou apenas um animal que se confessa. Factores vários fizeram que esse mamífero se adestrasse na técnica da escrita. E escrevo. Se me quiseres perceber um átomo, tens de aceitar a banalidade do meu caso. Recuso e recusei sempre os títulos honoríficos ou honorários de intelectual, artista, poeta; e só aceito o de escritor, se não lhe atribuírem mais honras do que o puro significado etimológico : o que escreve.

O TEMPO DA CATEQUESE HUMANISTA

O homem é uma possibilidade de erro. Errar é a única coisa própria do homem e a única que posso fazer pelo homem. Pouco, muito, nada - isso já não é comigo. Até porque, no tempo de catequese humanista, tentei dar à humanidade mais do que isso, e vi que ninguém aceitava. Podes censurar-me de ter desistido, de me ter desviado? De ter traído os poucos ou nenhuns que acreditaram em mim e no meu «convívio»? De ter falido? De ter fugido? De deixar os jornais, a guerra de nervos dos jornais e os recontros sangrentos com a censura, de quinze em dias, de oito em oito dias?

A fraca resistência física do pobre diabo que sou, há-de, que diabo, não digo perdoar-me mas explicar-me. E o que fizeram todos os rapazinhos que não gritavam contra a lei? Saberás tu dizer-me? Que direito tens de me vir agora pedir contas do que eu não estou fazendo ou não quero fazer ou estou nas tintas para fazer em prol da prol humana? Se nada fizeram quando os convidei para uma empresa colectiva, ou se estavam tão empenhados na sua pele e arredores, porque não hei-de eu agora cuidar da minha e catar, ao sol, os meus piolhos?

Se fui à guerra, à guerra da cultura, não foi por heroísmo, foi por elementar imperativo de consciência humanista. É possível que tivesse querido "reformar o mundo’. Um adolescente quer sempre reformar o mundo, e por isso grita contra a lei (nada mais legítimo, ou não?). Hoje, modestamente, cultivo o meu jardim, à Voltaire. Vou para Vale de Lobos. Suicido-me.

Ou fico simplesmente a ver passar os comboios. Verás tu nisto irracionalismo, «violência verbal desconexa"? Estás no teu direito de visual e no de invisual, não vendo mais nada do que vês, porque vês as consequências mas não averiguas as causas. Se alterei as regras da gramátíca (a lei da gramática, ó legistas! ) e com isso a lei lógica, garanto-te que não foi para aderir às modas correntes, nem às correntes da moda. Foi a única forma de dizer quem sou: uma desintegração orgânica e psíquica. A razão entrou, cá dentro, em conflito. Dessa guerra fria resultou, com certeza, uma razão mal penteada e alguns arranhões na lógica, ou na sintaxe, expressão verbal dessa lógica. Estás no direito de não aceitar o meu desregramento. O que te garanto é não haver biltrismo na expressão "literária’ usada. Não armo ao efeito, não omito a pontuação por extravagância. Faço o que posso e o que posso, o que o talento literário me permite. Não viso empatar e deslumbrar o burguês.

Tu queres que "eu encontre o fio da meada que nos preocupa". Mas será, hoje, a nossa meada a mesma? A minha é simples, e já te pus, desta ou doutras vezes, ao corrente. Post-faciei a acção e a ela não voltarei. Tento prefaciar o ser. Preocupa-te isto? Sinceramente agradava-me um companheiro. Mas se ele não vier, que fazer? Já me habituei à solidão. É o meu hábito ou vício mais barato. Já me habituei a viajar só ou na companhia dos mortos (os livros). É o que tenho para dar à humanidade. E nem isso a humanidade, por enquanto, quer (ignoro o que vão dizendo dos meus livros, embora leia o que se escreve sobre). A gratidão às vezes vem retrospectivamente. Espero que a humanidade venha a reconhecer que dei o sangue por ela... E que afinal não cresci, fiquei irremediavelmente adolescente.

Agora por adolescência. Um dia hei-de contar o meu caso passional. E ninguém vai achar correcto. E ninguém dirá que está conforme a lei. Outra chave que, abrindo-me, serve também para me fecharem com as portas na cara.

O CASULO ESOTÉRICO

Do comércio com as hostes racionalistas, nem tudo foi cinza e tempo perdido. Alguma coisa aprendi. Porque nem só por fraqueza e decepção fiquei nisto, nem só negativa, defensivamente. Os inteligentes, muito inteligentes, e os estúpidos, muito estúpidos, contribuíram igualmente, hostilizando-me uns e outros, mostrando o que há de ilusório, imoral, negativo, falso, precário na raiz da civilização racional, para o meu casulo esotérico.

Fui lendo que Huxley não poupou a uma crítica cerrada a decadência do exotérico e que Orwell reduziu o futuro a um beco sem saída. Os cronistas do universo concentracionário retrataram com finura a hediondez de um tipo humano que pode chegar a arquetipo da raça. Os estudiosos da radioactividade prometem um aumento de poeiras mortíferas na atmosfera respirável deste irrespirável planeta. Os inventores de satélites e foguetões apenas conseguiram substituir os estados de sítio e de guerra por outros estados de sítio e de guerra a multiplicar por cem.

Olha que é preciso ter alma do santo para perdoar tanto e acreditar nesta gente! Ou de santo ou de parvo, que saiba ainda sorrir em cor-de-rosa ao mundo de luto. A razão teórica ficou em objecto de museu e a razão prática não vive sem acção política. Tu podes argumentar que a culpa é dos estúpidos políticos e que o escol filosofante nada teria com a acção dos gorilas.

Sem afirmar, com Lukacs, que não há pensamento inocente (e de muito se pode culpar o "inocento" pensador de gabinete) tenho para esse argumento dos argumentos uma resposta: os erros corticais da civilização residem, precisamente, em ser quem é : civilização. Pendam as culpas, umas vezes para o prático, o técnico e o político, outras para o cientista e o teórico, outras para o sistemata, o moralista e o didacta, certo é que todos eles participam da acção exotérica. A minha crítica, portanto, se a princípio e sempre se dirigiu aos aspectos parciais embora cruciais da civilização, e que os próprios racionalistas também vão criticando, vai agora, depois de várias fases, ao problema dos problemas, ao centro da manobra, ao quartel-general das forças armadas ocidentais: ao exotérico. Por muito críticos que sejam esses homens com razão, há uma coisa que permanece sem crítica: a razão crítica. Eles podem parecer, ao lusco-fusco, quando os gatos são pardos, contra a razão. Mas nunca deixam de ter razão.

POR MIM, PREFACIO O SILÊNCIO

Por mim, prefacio o silêncio. Podes chamar-lhe, em vez de silêncio, mito, deus, absoluto, poesia. Contra a razão, prefacio a sem razão (ou trans-razão, ou infra-razão, ou des-razão). Depois, meu caro, nada. Converti-mo a nada. Prefiro o nada de hoje, porém, ao nada do ontem. Os exegetas nem sequer podem ir rastrear a minha súbita "conversão» numa remota educação jesuítica e claustral da infância e a que reverteria no endurecimento dos tecidos e amadurecimento das glândulas...

Tive, nos anos decisivos, uma educação libérrima (não falo, claro, das jaulas escolares, falo do que vivi em família). O meu pai, tipo exemplar de homem religiosamente livre(e, caso curioso, meu pai é profundamente anti-clerical, nunca pôde ouvir falar de padres e de igrejas) nunca determinou em mim uma tendência contra ou a favor de qualquer confissão religiosa ortodoxa, católica ou anti-católica. Fossem quais fossem as suas convicções, nunca as impôs ou sequer propôs. Deixou-me, liberrimamente, escolher. Portanto eu tive a experiência que quis e mereci, sem coacção disciplinar. Não me «converti» agora aos 27 anos por um fenómeno de regressão compensatória afectiva. Converti-me e acabou-se.

Do balanço feito às virtudes, excelências, brilhos da civilização - crítica ou desconfiança que me aproximou das «modernidades» - resultaram algumas páginas fundamentais, inéditas umas, outras publicadas. Dou-te conta das inéditas:

Nietszche e os Optimismos Degradados: Arte e Patologia - Pseudo-modernidades

Publicados são:

Repara que, ainda no período eufórico de fé na acção, o meu pendor foi sempre de crítica geral e a crítica anuncia ou pressupõe crise: a crise, aí, era de dupla face: minha e do mundo.

Em Janeiro de 1957, por exemplo, uma longa ladaínha aos vencedores resumia uma crítica ao arquétipo hierárquico, implicitamente afirmando o anárquico, ou antes, árquico por onde eu ia. A revolta contra a hierarquia escolar (marcada por um caderno feito nos anos, nos dois anos do Magistério Primário), é um dos degraus; o outro, é a revolta contra a hierarquia militar (de que é texto A Arte de Bem Cavalgar Toda a Sela - Dezembro de 1956 - aparecido, disperso, no livro «Espaço Mortal» )

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Documentam ainda esta fase alguns inéditos:

Se nunca acreditei na acção política, acreditei na acção pedagógica. Se nunca acreditei na acção colectiva ou partidária, acreditei na acção individual e crítica do escritor, do jornalista. É desta acção que falam tais inéditos.

 

É preciso reter que nada disto se passou em linha recta, na ordem que aqui lhe dou. É claro que já em 55, ou antes, a conversão se preparava e sempre coexistiram os instantes de fé e desespero, os de acção e de inacção, os de razão e os de sem-razão, os de hierarquia e os de anarquia, os do humanista e os do poeta.

Por isso tu hás-de perguntar se eu não publico tais inéditos. Não me interessa, porque deixei de acreditar nisso. Hoje interessa-me o diário, alguns volumes do diário, porque nele sigo de perto aquela zona obscura que acompanhou sempre o "dar à luz" artigos e outras coisas para a gente ler.

Não se é um homem por programa - isso se concluirá do meu diário. O contrário, porém, se poderá perceber dos artigos, dos cadernos «Zero», por exemplo. Mas aí, além da crítica, uma posição quis eu marcar relativamente às posições instituídas e às instituições de posição. Era ainda a crença na acção pedagógica, sem dúvida, no convívio, na crítica e na controvérsia. Daí, porém, una constante sobrevém: a Luta pela liberdade, no caso concreto desse período, da liberdade de pensar. A minha conversão não foi outra coisa do que a última tentativa de continuar livre no meio da servidão total erguida em absoluto.♥♥♥