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O PROGRESSO:
MAIS ALGUNS SOFISMAS
1/Junho/ 1983 - Tenho a pretensão de até ao fim da minha vida descobrir algumas das leis fundamentais que regem o sistema e, portanto, descobrir a dialéctica apropriada para usar essas leis na análise científica da realidade.
1/Junho/1983 - O sistema conduziu as pessoas a becos sem saída e depois diz que só há a saída ou solução que ele apresenta.
A vítima fica na dependência do sistema, que ainda faz o favor de a manter viva.
Por mais insuportável que seja a solução, a vítima terá que a suportar se quiser continuar viva.
O capitalismo internacional tornou-se de facto o sistema da Hediondez. Veio então um outro sistema que se proclamou anti-capitalista.
Pretende este último que não há agora terceira via. Que não pode, no Mundo, haver não alinhados, independentes dos dois blocos: o Capitalista de um lado e o Anti-Capitalista do outro.
A dialéctica é o romper deste dualismo bipolar. É a alternativa. É a utopia do realismo.
Por mais benfeitor que o sistema se considere só porque se apresenta como única saída para o insuportável, isso não significa que a emenda não possa ser pior ainda que o soneto.
*
"A faca tanto pode servir à dona de casa para cortar o pão do seu filho como ao criminoso para matar um homem."
Este pitoresco aforismo, geralmente atribuído ao físico nuclear Frederico Joliot Lurie, é frequentemente utilizado para tentar demonstrar às massas a famosa "neutralidade" da ciência e da tecnologia.
Ambas - segundo aquela ideologia - podem estar "ao serviço do Bem ou / e do Mal". Depende do"bom" ou "mau" uso que delas se fizer. Da vontade (e da moral) de quem as utiliza.
Aparentemente, ao nível da faca e do garfo - tecnologias leves... - ao nível da tecnologia elementar, a neutralidade parece evidente e a separação entre a tecnologia e quem a utiliza óbvia. Estas tecnologias têm em si mesmas uma lógica que não conduz necessariamente ao bem como não conduz necessariamente ao mal.
Daí nasceu efectivamente a lenda da "neutralidade". Mas à medida que a ciência se complica e a tecnologia se torna mais sofisticada, à medida que as indústrias se tornam mais pesadas e poluentes, esta independência desaparece.
Mais: em determinada fase da engrenagem tecnocrática, a tecnologia já é produto e usufruto de uma dada ideologia.
Isto acontece em campos científicos onde as especialidades atingem um grau máximo de sofisticação. Comparativamente, a faca ou o garfo são tecnologias não-especializadas.
TECNOLOGIA DAS TRANSPLANTAÇÕES
Exemplo elucidativo pode colher-se na técnica cirúrgica, nomeadamente na tecnologia das transplantações, onde a neutralidade ou independência da técnica aparece claramente como um mito.
Sendo a cirurgia uma especialidade dentro da Medicina, subdivide-se em tantas especialidades quantas as aplicações e órgãos do corpo humano a que se aplique o transplante.
Um cirurgião que transplante rins já não pode opinar nem julgar um cirurgião que transplante corações, e este não poderá ter qualquer domínio crítico sobre qualquer outro campo do transplante, muito menos da cirurgia em geral (ou antes, das dezenas de cirurgias) e muito menos ainda sobre as centenas de outras especialidades médicas.
Acontece, portanto, que acima de qualquer destes especialistas não fica praticamente ninguém que os possa julgar na sua actividade tecnológica. Eles constituem-se juizes de si mesmos, poderão - quando muito - ser analisados, avaliados, julgados por uma elite de meia dúzia da mesma especialidade. A isto que se chama o poder tecnocrático de uma clique, neste caso a clique de uma determinada especialidade médica.
Longe estamos , portanto, do mítico exemplo da faca para mostrar a inocente neutralidade da tecnologia.
Não há comparação possível e o exemplo , mais do que mítico, é absolutamente fraudulento.
Porque a questão é a de quem domina a técnica em causa: ora a técnica da faca é universal e dominável por todos, para o bem e para o mal. Já o revólver, por exemplo, técnica de objectivo mais específico, é difícil de compreender para que serve além de servir para matar , a margem de inocente neutralidade que permite... Que exemplo nos poderão dar os sofistas de aplicação "boa" do revólver? Com que sofisma nos argumentarão ?
Mas chegados à tecnologia refinada, é evidente que o seu domínio é assumido por uma clique e essa clique não presta contas a ninguém, não tem nenhuma instância que a julgue, não define sequer o seu poder em termos políticos de Esquerda ou de Direita mas em termos de uma super-política a que só podemos dar o nome de Tecnocracia, para lá do Bem e do Mal, da Esquerda e da Direita.
Será isso então a falsa neutralidade?
Os esquemas habituais da política clássica são abolidos à medida que a tecnologia e a ciência refina a sua sectorização ou sectarização,
MARCAS E MODAS
Há ainda uma outra razão que mostra não haver qualquer tipo de semelhança entre a faca , tecnologia apropriada e a tecnologia hiper-especializada de "combate ao sintoma".
Esta última, como se pode ver nas revistas da especialidade, é matéria de uma desenfreada exploração comercial: firmas entram em concorrência a ver quem fornece o melhor "aparelho" anti-isto ou anti-aquilo. As marcas e as modas proliferam.
Quem pode, perante este panorama da completa instrumentalização comercial da técnica, falar na neutralidade desta?♥