<84-06-15-ec> = ecos da capoeira

POBREZA

 

15/6/1984 - Curioso, muito curioso é que respeitáveis instituições de caridade e filantropia só agora(?) denunciassem, em forma, a existência de fome e pobreza absoluta em Portugal.

Não podem, no entanto, fugir ao dilema contraditório de serem instituições eventualmente subsidiadas para prover em que tais emergências de carácter social.

Perguntamo-nos então que fizeram assistentes sociais, inquéritos à população, instituições de misericórdia, totobolas, senhoras tão esmoleres e caridosas, instituições tão evangelicamente vocacionadas para, no mínimo, estar no meio dos pobres e, com eles, através deles, por causa deles, erguer as respectivas almas às alturas divinas.

Desculpai, irmãos, mas esta não percebo eu: afinal se a pobreza chegou a tais apuros de miséria, desmentindo a Caritas o que o Primeiro-Ministro dissera e aproveitando, ao que parece, para até disso se fazer chicana partidária contra o Governo, de que serviu tanta solicitude e filantropia?

Já sei: os dinheiros que tem a seu cargo administrar, não chegam, mas administrar pressupõe ou não exactamente o sentido das prioridades, dando primeiro aos que mais precisam?

Pouco ou muito, se o houver, é para dar aos mais necessitados, de modo a que, também na pobreza, não haja uns mais pobres do que outros nem se atinja o ponto de rutura e o nec plus ultra, o ponto sem regresso.

Valha-nos Cristo que não percebo: será que também as veneráveis instituições não fogem à tentação de fazer chicana anti-bloco central, não hesitando em, para isso, se servir da miserável pobreza?