<61-05-19-sa> selecção autobiográfica - o livro do desassossego em reedição - chave ac para 1961

OU QUEM

SE LEMBRARÁ DE NÓS?

Tavira, 19 de Maio de 1961

Nenhuma carta, nenhuma palavra, nenhuma poesia quebra a solidão. Inquebrável só o vidro deste aquário, e restrito o espaço que nos deram, o oxigénio que resta. Onde vamos respirar? Que saída? Que razão de espera? E no entanto continuo, e no entanto continuo, e no entanto...

Quanto vezes já disse isto: Nada é solução. Nada é solução de nada. Aceita-se a existência mais atroz e estúpida, porque tem de aceitar-se. E tem de aceitar-se porque se tem de aceitar.

Nenhuma saída: nem a droga, nem o suicídio, nem a loucura. Para todas, falta a coragem e para a droga o dinheiro e para a loucura um pouco menos de lucidez do que estes dez réis... O suficiente para me moer o juízo, para me fazer os miolos em farelos. Nem a morte salva da vida. Nem a doença da doença. Estou aqui, até cair. Nem sequer em pé. Deitado, horizontalizado a maior parte do tempo.

Se durmo, tudo vai bem. Há anos que não sonho, e dormir sem sonhos é meia-solução, - nem droga, nem suicídio, nem loucura e isso tudo junto sem as consequências de nada disso. Um sono sem sonhos não prolonga a morte em vigília: deixa-nos descansar dela.

Os dias vão gastando o espaço onde ainda me movimento e o espaço é cada vez mais pequeno. Que espero? Quem espero? Quantas vezes faço esta pergunta? Duas únicas pessoas me escrevem: minha mãe e M.A.R., mas criam-me esta péssima consciência de não lhes poder responder. A sinusite desculpa-me. A sinusite deixa-me sem vontade, sem atenção e sem memória. Ando à busca das palavras. Preciso de beber dois cafés para acordar do torpor habitual. Mas o café esfrangalha-me os nervos. Ou nervos ou nada: a bolsa ou a vida?

Não me lembro de ter tido complexos. Hoje tenho pelo menos um: o de sair à rua. Graças à cidade onde vivo (?), criei a fobia das ruas. E tenho medo, chego a ter medo de sair. Sempre ao lado, o medo: de ver gente, de que alguém me veja, de estar a mais, de estar a menos, de... Humilhado, miserável, vulnerável, que direito tenho a andar na rua de toda a gente? Não sou nada, não posso nem devo sair deste poço, apenas cavá-lo, cavá-lo e nele me afundar... Real ou inventada, qual é a diferença? Se há uma hostilidade em tudo e em todos, e se me tornou insuportável? Não aguento o convívio de ninguém: o dos desconhecidos irrita-me, o dos conhecidos cansa-me, e não aguento a solidão. Não me aguento nem aguento os outros. Não aguento nada e nada me aguenta.

Até quando? Até quando? Até quando?

A rez há-de matar

Hão-de surgir milhões de planícies

infinitos rostos nus de cicatrizes

por ti por mim por nós os imperfeitos

hão-de cabular-nos na pele

um fogo regular à memória dos vivos

à vida dos mortos.

Dedico este «poema» ao cronista de Angola que diariamente enrouquece os ares com uma purga noticiosa, uma pregação de sucos indigestivos e indigeríveis. A voz telefónica deste correspondente ultramarino, vomitando asneiras e mentiras, é o que odeio hoje com mais força. Quem pode acreditar, quem pode criar, quem pode ter um átomo de esperança, se tudo se reduz a uma noite de calor, a um comunicado de guerra e a uma telefonia que range ao fundo da rua no fundo de uma taberna? Quem pode respirar neste beco? Quem pode viver? Quem pode continuar?

Ou quem se lembrará de nós?