1-3 < 91-05-14-gg> guardas do gulag quarta-feira, 5 de Fevereiro de 2003-  <medina><diario>5580 caracteres > <siglas-8>

80 ANOS

DA FACULDADE DE LETRAS

DE LISBOA

14/5/1991

CITAÇÕES FEITAS POR JOÃO MEDINA:

OUTROS CITANTES:

«Ser realista, exige o impossível» (Maio 68)

«Reprovação de António Sérgio nesta Faculdade de Letras»

«Como é que um país que tanto fala de história, não tem memória histórica?»

João Medina fala da admiração por Nietszche, Kierkegard ou Bartolomé de las Casas, como se fosse um humilde libertário anarquista, mas fala do alto da cátedra, no sentido literal desta palavra cátedra, de que ele incarna todas as virtudes e atributos.

Fica-lhe bem, com ar de mofa, criticar o facto de «António Sérgio ter sido reprovado nesta Faculdade de Letras», como se isso fosse culpa do salazarismo, dos mestres caturras, enfim, do direitismo e do fascismo, como se não fosse inerente ao próprio sistema universitário reprovar um homem com ideias como era António Sérgio.

O exílio dourado de que o Prof. João Medina se queixou ontem, nos 80 anos da sua Faculdade de Letras, deixaram-me com a «boca a saber a papel de música», com aquela sensação de fracasso congénito e irreparável que sente qualquer pessoa que não ascenda às alturas de todos os João Medina deste Mundo, que sente quem os ouve vangloriando-se de seus triunfos, currículos, viagens, teses de mestrado, teses de doutoramento, etc.

É um burguês queixoso de não poder ter sido ainda mais burguês, a quem a carreira correu segundo todos os trâmites previsíveis de um burguês bem instalado na vida, a quem os tios médicos militares livraram da tropa e de ir parar à guerra colonial, com um «pé fracturado» ou alegadamente fracturado, mas que ainda vem exibir o discurso esquerdista da repressão salazarista dos anos 60 e tudo o que Salazar não fez em favor da favorecida classe estudantil de burgueses portugueses que viam interrompida a promissora carreira com a estúpida guerra colonial.

Afinal a guerra era para filho de pobre, porque havia um estudante de ir à guerra? «O drama de um estudante, activista de 1962, convocado para o Curso de Oficiais Milicianos de Mafra» conta ele.

E cita uma anedota do tempo de Salazar, cheio de gozo: «A política desse tempo era considerada a mais culta do Mundo, porque, mal se levanta, vai logo para a Faculdade.»

Mas Medina, mesmo com tantos contras, lá conseguiu emigrar, graças a uma «fractura» (?) no «escafóide torácico» que lhe foi arranjada pelos tios que eram coronéis da tropa -- mas de esquerda. Tão importante como o nariz de Cleópatra, foi esse «escafóide torácico», diz o professor, cheio de humildade.

Considera «pedante» a tese que dedicou à «dialéctica da totalidade» de Hegel, colocando-se -- porque hoje é popular colocar-se aí -- na perspectiva de Kierkegaard que dizia: «Os filósofos constroem palácios mas habitam em cabanas».