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A PRIMEIRA

E ÚNICA CARTA

Porto, 22/5/1959 - É a primeira e única carta que te escrevo com o coração, Mãe. Não te disse nunca que te amava, nunca sequer o dei a entender enquanto estávamos juntos (tão poucas vezes a vida nos deixou juntos!). Mas agora quero dizê-lo, dizê-lo alto, num grito, nestas lágrimas que me sufocam e são tuas, que te ofereço, Mãe, choradas por ti, com a tua lembrança tão forte e tão perto sobre o meu peito que o faça doer. Quero dizê-las antes que um de nós morra, sem nunca as teres ouvido.

Como sou frio e estúpido ao pé de ti, Mãe, Mãe Querida! Não julgues que estou mal, agora e que por isso te lembro. Não, Mãe: em toda a parte e sempre é o mesmo, e os bons amigos como as boas pessoas não chegam para preencher a solidão que alastra sobre nós. Ao pé de ti, Mãe, também há solidão, mas é diferente. Tu estás sempre, ainda onde e quando não estás. O quarto arrumado por ti, a comida que as tuas mãos cozinharam, a cama que tu fizeste, o copo de leite que deixas ao pé da cama, quando volto de noite, tarde. Tudo és tu, Mãe, na solidão da nossa casa.

Mas aqui, Mãe, aqui tudo está cheio da tua ausência, da tua lembrança, da saudade de ti, Mãe, até das tuas rabujices, das tuas ternuras, das tuas zangas e incompreensões, dos teus cuidados que aí me chegavam a cansar. Eu bato-me de tanta ingratidão, Mãe, minha única, minha terna, minha grande e sublime amiga!

Sei que falhei, Mãe, falhei por não acreditar nos homens, mas principalmente por os homens não acreditarem em mim e não saber mentir-lhes para que acreditassem. Tu o pressentias, com o teu instinto de tudo, pressentias que o teu filho nunca fora, nunca seria querido de ninguém e que o odiavam em toda a parte. Por causa ou por efeito, ele também passou a odiar tudo e todos. Mais ou menos assim, Mãe.

Odiado ou indiferente, ninguém me aceitou para nada. Agora quero voltar, Mãe, sei que falhei e não me sobram ilusões; mas falhado e miserável, empenhado ou vendido, sem futuro e sem presente, sem roupa, sem dinheiro, sem esperança, sem nada, quero estar ao teu lado, viver e morrer contigo, Mãe. Rebentava se te não escrevesse, se to não dissesse, se te não abraçasse de longe, Mãe. Com esta dívida sobre o coração, não poderia respirar.

Fui ingrato para ti em tudo, Mãe. Mas há uma ingratidão que nunca, nunca me perdoaria: era não desabafar, não dizer isto, não sangrar diante de ti, para que os teus olhos me vejam (uma vez, ao menos!), como sou, como teu filho que sou. Agora Mãe, pode vir o mal que ainda tem que vir, posso sofrer todas as raivas e humilhações dos homens, posso acabar mendigo ou ladrão, posso tudo, Mãe, porque estou liberto e puro pelos teus olhos: sou teu filho e viste-me.

E ser teu filho é ser bom, é ser santo, Mãe. Deixa-me dar-te o beijo que nunca te dei, deixa-me olhar para ti e adormecer, deixa-me ser teu de corpo e alma. Porque sei, Mãe, que és a Paz, a paz e a companhia enorme desta enorme, pavorosa solidão. ♥♥♥