1-2
<92-01-19>di 5596 caracteres - <janº-19><j-c-m><cartas>19/1/1992
, PraiaRELATIVIDADE: O PRINCÍPIO SUBVERSIVO POR EXCELÊNCIA?
[ESCALAS - A SUBVERSÃO TOTALITÁRIA DO SISTEMA TOTALITÁRIO - IDEOLOGIAS DO PROGRESSO ATÉ QUANDO? HÁ QUE SUBMETER A IDEOLOGIA DO PROGRESSO AOS SEUS PRÓPRIOS CRITÉRIOS DE VALOR]
O princípio da relatividade -- que leva, por exemplo, à publicidade, à moda e ao Kitsch -- anula a ideologia do progresso. Tal como a «perspectiva de escala» sua complementar, parece-me um conceito extremamente ecológico e o único capaz de, com as próprias armas do sistema, dizer ao sistema que não vale a pena correr tanto para metas e ser tão arrogante em tudo aquilo que o sistema deita fora ou acarinha em nome do progresso.
O que se disse do Azeite, meu deus!, quando se tratou de promover (nas décadas 50/60) os cufóleos, justificando as monoplantações gigantescas de cártamo e girassol! E hoje os semanários de luxo inserem anúncios de duas páginas ao azeite importado algures da Europa!
O que se disse da crítica impressionista e do pobre João Gaspar Simões -- que se cansou a ler os outros -- quando se tratou de publicitar o tecnoestruturalismo do sr. Coelho Eduardo do Prado. E hoje, a escola de Yale --«desconstrutivista», que bonito! -- repõe a crítica impressionista como um direito fundamental do homem...quer os polícias estruturalistas queiram ou não queiram.
O mal que se disse das pequenas barragens e que só as grandes eram «rentáveis» (palavra mágica da ideologia do progresso)! Hoje as «pequenas barragens» já se inserem, com alguma facilidade, nos programas de desenvolvimento vigiados pelos dinheiros da CEE.
O mal que se disse, meu deus!, de Nietzsche e seu colaboracionismo pró-nazi(???), tese que só os estalinistas do pensamento podiam ter sustentado. Hoje, não há António Guerreiro nenhum, pensador do semanário «Expresso», que não exalte, defenda, proclame Nietzsche uma encruzilhada do pensamento, ainda que ninguém universitário consiga metê-lo na História da Filosofia, ou arrumá-lo na História da Literatura, ou da Arquitectura, ou da Engenharia Hidráulica.
O mal que os neorealistas disseram da imaginação ficcional relativamente à matéria histórica (que eles tratavam, está claro, cientificamente); o mal que eles disseram dos «místicos»! Mas chegou José Saramago, no comboio das duas, e o neo-realismo engoliu a «imaginação da história» como um método válido e policialmente defensável. Mas, principalmente, um género vendável, pós Umberto Eco. Calaram-se os poderosos argumentos do respeitabilíssimo Óscar Lopes, do respeitabilíssimo Alexandre Pinheiro Torres, mas na verdade ninguém teve a coragem de exumar como precursor do «romance histórico» o Manuel Ribeiro de «A Catedral», agora que Umberto Eco, com a ajuda do computador e dos alunos que lhe preparam as fichas, escreveu o belíssimo «O Nome da Rosa». Eu prefiro, com todo o artesanal, o Manuel Ribeiro, a quem já chamei, com propositado exagero, o Herman Hess português!
O mal que se disse, meu deus! dos díscolos e vândalos que se opunham ao amortalhar de antigas aldeias no fundo de novíssimos grandes largos artificiais de grandes e novíssimas barragens hidro-eléctricas. Hoje, é a população do Lindoso --e não um grupo de vândalos barbudos -- que EDP enfrenta como oposição à sua megalomónica barragem! Dizem -- para dizer qualquer e distrair as atenções -- que vão transladar a Igreja, peça a peça, mas as moradas dos aldeões vai tudo ficar soterrado pelo Progresso.
Quem há, portanto, nomeadamente entre ecologistas, disposto a dizer que o Rei vai Nuzinho em pelo e que o Progresso é apenas retrocesso?
Até quando vamos continuar -- apesar de todos os arrecuos e meas culpas e marchas-atrás -- os argumentos da ideologia do progresso e desculpando os autores de progressismos!
A «perspectiva de escala», subsidiada pelo «princípio da relatividade», é particularmente expressiva e eloquente na evolução do discurso científico. Se se dá hoje como inocente anacronismo, o que a medicina, por exemplo, dizia há cem anos -- e sendo a aceleração da ciência o que se sabe, de 300 à hora -- o que se dirá, daqui a 20 anos, das verdades intangíveis das ciências de hoje, nomeadamente as teorias -- como a do vírus -- que nos impõem como dogmas? Se relativamente aos dogmas científicos se aplicar, com honestidade, este princípio da relatividade -- que é apenas um princípio de senso comum ou de bom senso -- relatividade que é inerente ao próprio conceito de progresso e que é engendrada pela ideia de progresso -- , não há progresso nenhum que resista. Tudo é mudável, tudo é risível. Atrevo-me a dizer que foi esta intuição que, nos anos 60 e 70, tornou a Ana Salazar uma Diva da Moda, fazendo da anti-moda a moda...Tal como em Samuel Beckett -- o princípio da relatividade levado às suas últimas consequências, levado aos «confins metafísicos da existência» -- tudo o que o homem faça é risível e ridículo, porque tudo tem de um lado o seu melhor e do outro o seu pior. Se eu não posso ser feliz porque há sempre alguém mais rico do que eu -- também não posso ser infeliz, porque há sempre alguém mais pobre e que sofre mais do que eu!
(Depois de Samuel Beckett, só voltei a não rir de tudo quando encontrei o budismo Nyngma) .
Este princípio da relatividade é paradoxalmente absoluto e absolutista! Ou existe e se postula e se aplica (se é que existe progresso), ou não existe, não se postula nem se aplica (e nessa caso não existe progresso, ruindo todas as ideologias que nele se baseiam no próprio momento em que são proclamadas como boas porque nele se baseiam).♥