<83-07-18-ec> = ecos da capoeira – inédito ac de 1983 -
HERÓI DE CONSCIÊNCIA
NÃO RECEBE MEDALHAS
18/7/1983 - Menos firme do que se pisasse o seu habitat natural - o céu - o capitão paraquedista José Henrique Melo de Carvalho desceu em território americano às 11 horas do dia 18 de Julho de 1983.
Apenas com uma maleta à diplomata, fardado, com todas as condecorações que lhe valeram os actos de valentia praticados no ex-Ultramar português, Melo de Carvalho lançou-se no desconhecido de uma acção - um "raid" - a que apenas conhecia o princípio mas que ninguém nem ele saberia como iria terminar.
Tal como se descesse do Céu em pára-quedas - a rotina heróica da sua vida e profissão - a embaixada norte-americana recebia-o no primeiro dia das suas novas instalações e como se as inaugurasse com um facto insólito.
Facto pelo menos inédito nos anais das Forças Armadas Portuguesas.
Quando um cidadão - independentemente de pertencer a qualquer dos três ramos das Forças Armadas - decide pedir asilo a uma embaixada, não o faz certamente de ânimo leve ou por motivos fúteis. Estes motivos foram largamente descritos pelos jornais nas notícias que deram do capitão paraquedista Melo de Carvalho. Tão pouco o fará se não possuir uma certa dose de coragem, e espírito de aventura.
É que uma acção individual, ainda que representativa de uma classe (os oficiais milicianos que reclamam direitos iguais aos do quadro permanente) é hoje tão rara que merece reparo. E um pouco mais de atenção.
Acostumámo-nos à vozearia das reivindicações em rebanho, do tipo vai tudo para sermos muitos.
Quem se atreve hoje a lançar-se no vazio da violência institucionalizada apenas guiado pela sua consciência? E, no caso deste oficial paraquedista, sem paraquedas levar sequer?
Ele contesta o sistema e sujeita-se às sanções. Não conseguiu sair da tropa, passar à reserva não consegue. A lei de 1968 não se cumpre. Os oficiais do quadro mandam mais e a guerra colonial, agora, vê-se à distância, na redoma das gravuras já delidas e amareladas pelo tempo.
Um gesto, uma atitude, um riso, uma aposta : com menos firmeza do que se pisasse o Céu, seu habitat natural, ele enfrenta o desconhecido e o risco. Ele foi herói de consciência, quando as medalhas de bravura já nem sequer eram reconhecidas por aqueles que lhas impuseram em cerimónia solene.
Desta vez, ao contrário das outras campanhas em que "defendeu a pátria", não lhe deram medalhas: ele apenas defendia um imperativo de consciência, e consciência não dá condecorações. Dá degredo.
Punirão, pois, severamente, a sua coragem, a sua dignidade, o seu heroísmo.™