1-1 < 93-05-12-ac> afonso-afonso - sexta-feira, 28 de Fevereiro de 2003-novo word - 1524 caracteres  <1990-83> <diario>

12-5-1993

-> OS GUARDAS DO GULAG

-> M.G. (MEMÓRIAS DO GULAG )

[Repescagem em 10/11/1990 de uma página de diário de 16/5/1983]

Como se pode comprovar pela página [ 3 ] que o «Diário do Alentejo» censurou, o Sr. Afonso Cautela foi chamado a Portalegre para «cair numa armadilha». Teria sido mais um episódio da velha história do Menino Jesus entre os doutores. Recordo sempre esta [ minha ] fatalidade que moldou, que inclusive me moldou o rosto de rugas.

Os doutores quiseram sempre fazer-me o «exame» para concluir que eu não prestava, que não servia, que não tinha estudado a lição. Desde a «primária» que odeio exames. Confesso que foi o meu trauma por excelência - e ainda não fiz psicanálise. Ele ressoa em (quase) tudo o que escrevi, está latente em (quase) tudo o que sinto, escrevo, penso.

É como se no limiar da sala de exame, tivesse sempre que perguntar: «O Sr. dr. dá licença?» E sentir que toda a minha vida, toda a minha respiração, todo o meu equilíbrio, todo o meu destino depende, irá depender, nos próximos minutos, da autorização do sr. dr., do seu semblante ou humor de ocasião, da sua momentânea disposição, da sua magnanimidade em dizer «entre». Aos 58 anos, estremeço e fico lívido só de imaginar que, ao abrir da próxima porta, terei que perguntar «Sr. Dr. dá licença?».

E foi precisamente para um colóquio sobre ciências de educação que esses «amigos» de Portalegre - amigos de Peniche - me atraíram no dia 16 de Maio de 1983. E foi no meio de Amigos que me vi no meio de um bando de ratazanas!