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A MISSÃO DE JORNAIS E TELEJORNAIS

10/Junho/1995 - Vírus é o efeito, enquanto a resistência aos antibióticos é a causa

Sismo é o efeito, enquanto os rebentamentos nucleares subterrâneos são a causa

Seca interminável é o efeito, enquanto os fogos postos de Verão são a causa

Buraco na Segurança Social é o efeito, enquanto a escalada no preço dos medicamentos e das cirurgias é a causa

Cada vez mais doenças oftalmológicas são o efeito, enquanto a causa são todas as que advêm do inferno luminoso (monitores de televisão e de computador, fotocopiadoras, etc)

Etc

*

1 - O mal, coitados, de jornais e telejornais é que não conseguem ligar o que dizem (noticiam) na página 5 com o que dizem na página 6, e vice-versa.

O mal é que nos enchem, hoje, olhos e ouvidos, com o Vírus Ebola numa cidade do Zaire - com o José Malheiros a assustar o pessoal, lembrando que o Zaire fica a 4/5/6 horas de avião de Lisboa - para igualmente nos encherem olhos e ouvidos com a causa dessa e/ou de outra epidemia viral, causa que é a notícia vinda a lume, horas depois, uma página antes, de que «o avanço das bactérias resiste aos antibióticos» (?????).

Antes de haver vírus nos jornais e telejornais, à razão de três milhões por milímetro quadrado, já se sabia das estirpes de micróbios - extremamente virulentos - que os antibióticos estão criando, produzindo, préfabricando. Vírus são produzidos por antibióticos, até o meu vizinho que é padeiro sabe.

Mas como os jornais e telejornais sabem menos do que um padeiro, porque devem vassalagem a tudo o que vem em nome da ciência e da tecnologia, e Ana Gershfeld não se arranjam todos os dias, todos os alibis são bons para separar a causa do efeito, ou seja, separar os antibióticos, das novas estirpes bacterianas de inusitada virulência.

Aliás, nunca os jornais e telejornais se perguntam, porque só agora esses vírus esquisitíssimos estão chegando a sítios onde eram totalmente desconhecidos antes.

Com o chamado vírus da sida - ele próprio mutante - o mesmo tipo de retórica é usado por jornais e telejornais, que fazem de nós, seus leitores, tudo gente estúpida. Incapaz de relacionar o que lê na página 5 com o que lê na página 6, e vice-versa.

Mas todas as ligações do crime ao respectivo criminoso são «perigosas», inconvenientes, e os jornais e telejornais não fazem ligações «perigosas» dessas. Preferem deixar causa e efeito desarticulado. Com o alibi da famosa «objectividade jornalística».

2 - Igualmente por «objectividade científica» continua a omitir-se, há mais de 40 anos, a causa chamada «rebentamentos nucleares subterrâneos» com o efeito «sismos catastróficos».

Se esta correlação não existisse, porque raio 80% dos sismos aconteceriam aos domingos, com notícias, manchetes e parangonas nos jornais e telejornais de segunda-feira?

Porque será que a Terra, essa megera, só se lembra de tremer aos domingos?

Isso era o que eu gostava que jornais e telejornais explicassem à malta, apontando a dedo qual o centro de explosões nucleares subterrâneas que produz os sismos dos fins de semana: Semipalatinsk, Nevada, Muroroa ou Lopnor. Diga-se que os mais catastróficos são os que a França produz a partir do atol da Muroroa, ainda que nem uma palavra fosse dita, seja dita, venha a ser dita. Jornais e telejornais cumprem bem a sua missão de silenciar.

3 - Mal chega o Inverno, já os jornais e telejornais berram, na página 5, da calamitosa seca, que está assolando o já de si seco Alentejo. (Quanto mais, na página 5, os jornais e telejornais berrarem a calamidade da seca, mais os europeus se vão compadecer e dar-nos subsídios de seca à agricultura, que cobrarão depois com meios muito mais líquidos).

Mas na página 6, sem que jornais e telejornais liguem o efeito à causa que o provoca, lá vem mais um incêndio inaugural da sempre festiva época de incêndios, que jornais e telejornais anunciam como sendo todos os anos a novidade do ano.

De tal modo os fogos se antecipam à época própria, que os helicópteros ainda não se encontram no hangar do Dias Loureiro, preparados para arrancar quando, com as temperaturas a 20o à sombra, os primeiros fogos florestais continuam a tarefa iniciada há 50 anos, ainda no tempo da comadre Salazar.

Cadenciada e ritmadamente, jornais e telejornais proclamam sempre o acontecimento como a novidade das últimas 24 horas. Sem esquecer que o «Expresso», especialista em fogos, irá procurar sempre a fotogenia do horror e publicar os mesmos mas a cores. Eventualmente, um magazine do fim de semana irá também filmar a cores. Com mapas a cores feito a computador. Tudo a cores. O terror a cores, sempre, como gostam jornais e telejornais.

Página 5, seca <- > página 6, fogos. Soma & Segue. Mas que tem a ver uma coisa com a outra, efeito e causa? Nada. Para jornais e telejornais, nada e a nossa missão é informar, não é relacionar. Quem relaciona é maricas.