1-1 < 91-06-25-ac> ac - quarta-feira, 5 de Fevereiro de 2003-novo word - <ganhos><diario>-2491 caracteres
DIÁRIO EM EU
OBSERVADOR E REVOLTADO
O QUE OS OUTROS GANHAM E A NATURAL INVEJA DE QUEM NUNCA PASSOU DA CEPA TORTA
O PAPEL DA INVEJA SOCIAL NA LUTA DE CLASSES
SERIA POSSÍVEL COESÃO SOCIAL E ECONÓMICA SEM A INVEJA?
Mais pequeno do que uma pulga, esmagada entre os dedos do ministro das finanças, foi como eu ouvi aquele pai, baboso, atrás do balcão da sua loja, a falar do filho que jogava óquei, que começou por ganhar 200 contos mês no Clube de Oeiras e agora já está com 800 no Benfica. «Repare -- dizia-me ele, para que eu reparasse bem que ele não era um pelintra, tendo o filho que tinha e ganhando o filho o que ganhava -- repare que no futebol os ganhos são de uma ordem muito mais elevada, mas 800 contos por mês já é melhor que nada, não acha? Se ele se empregasse com o curso de engenheiro que tem, pouco passava dos 150 contos mensais, se é que passava. Valeu a pena andar a queimar as pestanas?»
Se não houvesse inveja, não havia quem quisesse melhorar o ordenado e mudar de classe, ganhar mais, sempre mais. A inveja acciona o eterno mecanismo da luta de classes, da competição dentro da mesma classe. A inveja acciona a corrida.
Quando se proclama o vencedor de um prémio, quantos ficaram sem o receber? Quando se proclama o Ás, o Vencedor, o Maior, o Top, quantos ficaram no médio, no baixo, no zero, no fundo, na merda a ver navios?
Heroína, esta manhã, foi aquela sexagenária, quase cega, que faz os seus dias, dia após dia, tarde após tarde, a uma esquina do Cais do Sodré, vende refugos de fruta que compra muito cedo na praça da Ribeira, que lhe vendem, de manhã, muito cedo, pelas sete, aí desce ela a calçada, a rua do alecrim, com 3 caixotes às costas.
Que Deus fez este mundo? e com que fito, com que razões, com que moral?
De um lado a sexagenária carregando, todos os dias, o fardo da vida às costas, os seus caixotes, para vender fruta de refugo, 50 escudos o quilo de peritos, ao sol, ao vento, à chuva, numa esquina de Lisboa.
Do outro lado, o grande mundo dos ases, dos desportistas, dos ricos, dos muito ricos, dos quase ricos, dos abominavelmente ricos. Lugar-comum? Miserabilismo? E retira isso razão à minha perplexidade, aos factos da miséria consumada, alimentada, preparada, programada, planificada?
E poderei deixar de ficar cheio de inveja -- cravejado de inveja -- quando aquele pai, todo baboso, se vinga no filho de uma vida inteira atrás do balcão e uma mercearia de refugo, com vários caixotes à porta?♥