<71-03-08-dp> = diário pessoal e instransmissível – ao ralo do confessionário – inédito ac de 1971 – memórias confessionais – teses de 5 estrelas

QUANDO SE FALA

E SÓ NOS OUVEM SURDOS

Pois: escrevi em 1960 o que em 1971 muitos já não hesitam em publicar.

8/3/1971 - Diziam-me que a fé é proibida o eu deixei de ter fé naquilo em que acreditava, naquilo que era toda a minha existência e o sui-generis da minha existência. A medo, escrevia em 1960 o que hoje, em 1971, vejo escrito e publicado, e posto em prática pelos movimentos da contestação, pela contra-cultura, pelos jovens radicais dissidentes, pela revolução cultural.

Quando falava de obsceno era disso que falava.

Mas não tinha fé, porque ao Sistema interessa muito que os galileus, no último instante, abjurem da sua fé, das suas afirmações, das suas heresias.

Eu sabia que trabalhava um terreno de heresia, que sempre trabalhei um terreno de heresia, mas quando se procura o eco e o diálogo e só se encontra o muro-murro, o vazio, a noite, a solidão, ninguém, quando se fala e só nos ouvem surdos, como vamos acreditar, irmão e camarada Galileu?

Não quero valorizar a minha solidão, mas acredita, meu amigo: tu chegas numa época em que muita coisa já está madura, mas há 10 anos tudo estava ainda no limbo e podes calcular como é perigoso contestar o Regime, o Sistema, o Establishment - ao mais alto nível da ditadura tecno-burocrática - quando, de permeio, ninguém ajuda, nem colabora, nem ouve, nem dialoga, e quando há os que contestam apenas partes e parcelas do sistema.

Então, em vez de irmãos temos inimigos: porque a nossa contestação , sendo global, abrange também os que monopolizam a contestação parcial.

E NEM SÓ O MEDO

10/Março/1971 - E nem só o medo me impediu, estes anos todos, de ser autenticamente quem sou.

Não, nem só o medo aos avançados e militantes, entre quem tive sempre a fama de reaccionário, quando não de fascista, só porque não alinhava pelos seus dogmas e mitologias de via reduzida. Nem só o medo me impediu de existir a fundo o que sou e tal como sou, mas também tudo o que neste maldito mundo nos distrai e arranca do essencial .

Todos os dias, a necessidade de sobrevivência me amarraria às mais servis tarefas, que nada tinham a ver comigo. Entrevistas com imbecis, notícias de crimes e festivais da canção, roubos e fait-divers na sua insignificância e efemeridade: quem pode fazer alguma coisa de profundo, no meio de toda esta frivolidade?

As edições consecutivas dos neo-realistas - e o imobilismo da sua literatura - serviriam de não menor barreira posta ao tempo e à disponibilidade de tempo nossos.

E o diário da tarde que impede a leitura de mais algumas páginas do livro que trazemos em meio, e o filme imbecil que nos rouba uma tarde , uma noite, quando tanto precisava delas para pensar, ler, reflectir, escrever, amadurecer uma intuição ou uma ideia.

Pensar, neste País e nesta sociedade, que heróica aventura de estoicismo e sofrimento!

Depois, ainda, as inquisições da esquerda, os funcionários do Bem Comum e da Morte, os grupos de pressão, as ameaças dos dogmáticos, os cretinos que se vangloriam de esquerdistas para ocultar e desculpar (tentar desculpar) a sua estupidez, a sua mediocridade, a sua indigência mental e moral e humana. Tudo isto de volta, quem pode ser alguma coisa mais do que um falhado e um frustrado?

Depois, ainda, as polémicas com os doutores: eles que sabem tudo, dizendo que não sei nada. Mas eu não quero saber, vomitei sempre e vomito e vomitarei a ciência deles que toda a vida quiseram impor-me, quer nos bancos da escola, quer depois na escola permanente em que eles, doutores, gostam de transformar o país, desde que presidam à lição como indiscutidos e admirados mestres, desde que nunca lhes falte cátedra onde assentar o cu.

Depois, ainda, ainda, o amigo que é poeta e porreiro e tem um automóvel porreiro e tem prédios. Como foi isto? Eles tiveram tempo ainda para prédios? Como foi possível, se eu nem para respirar tive tempo, se nem para ser poeta aos domingos, se eu foi só e sempre ganhar o negro pão de cada dia, nisso se me esvaíram sempre as horas e as energias.

Verdade que muitas dessas energias iam direitinhas a gaveta, mas ... isso é outra história - quem me mandou nunca me aperceber de que nada disso era imediata e directamente rentável?

Por isso nunca tive automóvel (e por isso tive inveja dos que tinham automóvel), por isso tive uma colite agravada, por isso o cancro me subia recto acima todas as semanas, por isso três esgotamentos nervosos, por isso magreza congénita, por isso a angústia crónica, por isso a sinusite, por isso o reumático, por isso a depressão permanente, por isso o desgosto, por isso o medo, por isso o horror ao cimento armado e à cidade de cimento armado, por isso a inadaptabilidade, por isso a necessidade de vida ou de morte de escrever, por isso a impossibilidade de escrever, por isso...

Pois: escrevi em 1960 o que em 1971 muitos já não hesitam em publicar. Mas tinha medo (tinha e tenho), acima de tudo e de mim havia sempre os doutores, os progressistas, os militantes, os pais e salvadores da Pátria, acima de tudo e de mim havia os que sabiam tudo, me davam reguadas, me punham em exame e em tribunal, de cada vez que aparecia à rua, me mandavam aprender para a Universidade e me apontavam à polícia para me prender. Acima de tudo e por cima de mim, havia sempre o Doutor que me zurzia de gosto por eu não ser nem querer nem poder. Sempre.

Quem pode, no meio disto, ser poeta?

O CANSAÇO TECNOCRÁTICO

Um certo pensamento de esquerda - um "socialismo de rosto humano" - insurge-se contra a tecnocracia, mas não alinha com os contestatários radicalistas dessa Tecno-burocracia, em globo considerada, desde que, aparentemente, os postulados da ciência e da técnica, como únicos vectores culturais possíveis para desembrulhar a História e fazer avançar o desenvolvimento, sejam também contestados.

Henri Lefèbvre, entre outros, apresenta a saída dialéctica que é sempre uma saída para o que saída talvez não tenha.

Quando António José Saraiva contesta a "civilização burguesa" e parece fazer o elogio de um neo-tribalismo rural, pré-industrial , os seus críticos apenas o entendem como um "reaccionário" , porque eles apenas conhecem a (falsa) alternativa "ou tecnocracia" ou "reacção", esquecendo-se que, como ninguém pode garantir a fisionomia do futuro, o progresso daqui a dez anos pode revestir exactamente esses aspectos que hoje nos parecem reaccionários, porque nós apenas temos padrões do passado para os imaginar. Quero dizer: o futuro pode inventar formas sociais e culturais pós-industriais que, porque o são, parecem hoje aos curtos de vista pré-industriais.

Recusar a "ordem industrial" ou Tecno-burocracia, porque não há-de ser uma etapa pós-industrial e porque não há-de ser progresso o que profetas como Saraiva, Allan Watts, Cohn Bendit, Marcuse, Allen Ginsberg, preconizam, recusando a indústria e a era pós-industrial?

Porque havemos de imaginar sempre uma sociedade unitária, monolítica, sem diálogo - em vez de uma sociedade onde coexistam Indústria e Tribalismo, Cidade e Campo, os funcionários da Tecno-Burocracia e os que apenas querem ser, amar, viver, existir?

Aliás, se a própria sociedade margina, pela exploração do homem pelo homem, os seus párias (em guetos adrede preparados, em bairros da lata ) porque é que hipocritamente não consente aqueles que se auto-segregam e rejeitam o paraíso da abundância que até (como se prova) nem é para todos e só para os funcionários arregimentados e obedientes da Ordem Estabelecida?

O cansaço do labirinto tecnológico e tecnocrático, só terá para os cretinos seus funcionários o sentido de um regresso (à natureza, ao Rousseau, ao subdesenvolvimento, ao tribalismo, etc)? Porque não há-de ter como tem o sentido de um progresso? Porque se julgam monopolistas únicos do progresso, esses que seguem a vida e via da industrialização a todo o preço?

CONTRA-CULTURA

Neo-utopismo, neo-romantismo, neo-misticismo - eis três casos onde o prefixo neo se identifica com o conceito manifestado por Theodore Roszak, que, à Nova Cultura e à Revolução Cultural, prefere a expressão "contra-cultura", ao estudar o fenómeno que normalmente se designa por "contestação" jovem e que o autor prefere designar por "dissidência" juvenil.

Essa contra-cultura passa pela política mas não se fica por ela, porque visa a crítica de um círculo mais vasto e uma saída ou ruptura mais radical com o mais vasto círculo a traçar na cultura vigente e em causa.

Encontra-se essa contra-cultura com a antropolítica praticada por Edgar Morim e, por certo, com a revolução não-violenta de Danilo Dolci.

Para um observador superficial, pode parecer que a contra-cultura ignora e omite problemas que, no entanto, estão no centro das suas preocupações : simplesmente se insere a sua crítica numa crítica mais vasta a um mais vasto conjunto de problemas que geralmente não são lembrados (e mesmo omitidos, a pretexto de reaccionários ou decadentes) pelas chamadas esquerdas clássicas.

Daí uma nova esquerda profética norte-americana, afim da contra-cultura preconizada por Theodore Roszak mas que dela se distingue também por não abandonar a sociedade onde se insere.