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<76-06-30-ie-bd> scan - domingo, 17 de Novembro de 2002 – paz à sua e à minha almaA DOENÇA CAQUÉTICA DO COMUNISMO (*)
(*) Este texto de Afonso Cautela terá sido publicado, com este título, no jornal «Frente Ecológica» (Paço de Arcos), em 1976, em data a determinar ©
Mário Castrim decretou: "Macrobiótica é banha da cobra".
Na crítica ao programa de televisão"Junho 76" ( In "Diário de Lisboa", 30/Junho/1976) e na sanha de maltratar a responsável pelo programa, Helena Vaz da Silva, o cósmico crítico precipitou-se e avançou com uma palavra que custará cara ao seu sector de eleitorado.
São 6.000 votos que, nas próximas, não irão parar, de certeza, ao candidato da maioria de esquerda. E, segundo os últimos resultados, os 6.000 votos até fazem jeito a quem não ultrapassou 80 mil.
Não valia a pena perder tempo com este desabafo de Mário Castrim - que a eles tem direito como escravo da televisão - mas visto que Castrim é também deputado proposto pelo P.C.P. e porque nas votações para a Constituinte até lá votei porque vi lá o Castrim e outros homens que considero inteligentes, lúcidos, progressistas, descontraídos e honestos, eis que as afirmações de Castrim sobre Macrobiótica assumem, para este seu admirador, o ar de bronca.
Pior ainda é que as afirmações de Castrim ultrapassam o âmbito da sua personalidade individual de escritor e de crítico para traduzirem, com certo rigor de aproximação, a opinião que outros, colocados no mesmo quadrante político, até hoje não exprimiram por medo, ignorância, prudência, preguiça, oportunismo.
Foi muito bom que Castrim, coração ao pé da boca (por isso o admiro tanto) dissesse o que pensa da gente, do movimento macrobiótico em especial e do movimento ecológico em geral, pois a gente macrobiótica e ecológica esperava há muito saber o que pensa de nós, militantes da Ecologia radical, a representativa maioria de Esquerda que nos governa ou ameaça governar-nos.
II
Sem rancor contra Castrim, que muito prezo e admiro, faça ele o que fizer, diga ele o que disser, escreva ele o que escrever e cometa ele as gafes que cometer, que sempre segui quando ele era mais franco-atirador do que deputado, com quem muitas vezes me solidarizei ao vê-lo atacado pela mais baixa escumalha pseudo-literata, pseudo-intelectual e pseudo-política deste País , sem rancor, portanto, mas agradecendo a oportunidade que me dá, eu tentaria demonstrar, a ele e a quem pense da utopia ecológica o que Castrim disse pensar - "banha da cobra" - que banha da cobra e cada vez mais banha rançosa é muita da ciência em que ele ainda acredita, em que ele, embalado por todos os tecnofascismos vigentes e em vigor, falidos mas sempre triunfalistas, ainda acreditam.
III
Já sei o que o irritou, amigo Castrim:
Confesse, Castrim, que foi de facto muita coisa para uma noite só, que o Castrim não estava prevenido (apesar da sua genial argúcia e da sua lucidez hiper radiográfica) para uma "revolução cultural" assim tão de repente e que, no fundo, se sentiu humilhado por ter sido (às vezes acontece...) caçado em branco em plenos assuntos de revolução.
Confesse, Castrim, que a sua ductilidade mental não dá ainda para ver que o adubo de saco é capital-monopolista até ao fim e que o fertilizante orgânico é revolucionário.
Confesse, Castrim, que isto de fazer greve aos consultórios e às caixas da Imprevidência é uma coisa basto de subversiva no actual momento "revolucionário" português, coisa que ainda chateia muito bruto que acredita na "socialização da Medicina ", como se fosse possível socializar o monopólio
Confesse, Castrim, que apesar da sua prodigiosa inteligência crítica, isto de fazer guerra aos consumos supérfluos do supermercado mediante uma simples reconversão de regime alimentar (do complicado para o simples) ainda lhe faz muita comichão e aos intelectuais que se dizem emancipados, progressistas mas que continuam precisamente a consumir o que a sociedade do lixo lhes impinge.
Isto de reconverter consumos não é, evidentemente, para revolucionários que permanecem, no fundo, confortavelmente pequeno-burgueses nos hábitos.
Isto de avançar para a agricultura ecológica do futuro, para a grande medicina ecológica do futuro, para as grandes energias ecológicas do futuro, não pode ser acompanhado nem compreendido por aqueles que, em matéria de revolução cultural, decidiram ficar em Estaline.
Confesse, Castrim, que foi apanhado de surpresa. E que aquela da "banha da cobra" lhe saiu precipitada, confiando você, um bocado, na falta de informação pública destes assuntos para ver se fazia valer a "boca". Confesse , porém, que foi uma "boca", um desabafo, um vento verbal.
Peço-lhe isto porque sou seu admirador e amigo integérrimo, porque quero continuar a ser seu admirador (ainda quando discordo de algumas das posições que assume) e porque me recuso a acreditar que um homem inteligente possa proferir besteiras, a não ser por lapso, por acaso, por descontrole esferográfico-verbal.
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(*) Este texto de Afonso Cautela terá sido publicado, com este título, no jornal «Frente Ecológica» (Paço de Arcos), em 1976, em data a determinar ©