<61-03-15-sa> selecção autobiográfica - chave ac para o ano 1961 - o livro do desassossego em reedição

PORQUE ESCREVO

Tavira, 15 de Março de 1961

 

«Aqueles que por obras valorosas..» .

As obras... As obras não libertam nada, não libertam ninguém de nada e muito menos da morte. Quem acredita ainda nisso?

Procuro uma imortalidade real, física talvez. Não me satisfaz um sucedâneo da imortalidade: o trabalho, a acção, o sexo, a criação artística, o dinheiro, o êxito, a carreira, a obra, a imortalidade da alma... Tiveram a sua época, ganharam prestígio, fizeram crentes e prosélitos - todas essas formas de morrer descansadamente sem problemas. Mas quem as aceita, hoje? Quem pode aceitá-las?

A minha existência, o pouco ou nada que me reste de existir será para, no meio de erros, de solicitações negativas, no meio da embriaguês colectiva, no meio da cultura, das artes e das letras, dos brilhos técnicos e profissionais, - será um exercício para a morte. Essa, a minha "obra de arte"... Quando ouço deificar a arte, a poesia-arte, os poetas-arte, os críticos-arte, pergunto se não andam todos muito satisfeitos e a quererem que a gente ande também.

Deliberada ou indeliberadamente, esses críticos andam repetindo o estribilho do Camões: "Aqueles que por obras valorosas...". Eles ainda acreditam vencer a morte pela obra; a glória ou imortalidade do «nome artístico» satisfá-los, compensa-os do medo ao fim, do medo ao nada, do medo da morte. No entanto, querem convencer-nos de que não têm medo da morte. De que não há neles resquício metafísico. De que são poetas e críticos do imanente. De que expulsaram Deus de casa e do planeta e do universo.

Bem felizes são, afinal, e bem quisera estar eu convencido também das virtudes terapêuticas da "obra" e ser um dos que «se vão da lei da morte libertando". Mas eu sei (a única coisa que sei depois de não saber nada): a obra não me liberta de nada, e muito menos da lei da morte; a lei da morte, alias, é a única lei que reconheço, porque é a lei da liberdade e do amor.

Depois de NADA, só o verbo AMAR. Amo, logo existo. Morro, logo existo.

Escrevendo,

Escrevendo, exploro a possibilidade

Não me interessa o que fica, as cinzas, os restos dessa combustão em que me vou queimando. O que fica escrito é caminho andado, sem interesse. Não tem valor absoluto, porque foi via para o absoluto, pisada de mais alguns passos, grito de mais alguns erros, sinal de mais alguns enigmas, e mais uma leve penetração no desconhecido.

Não procuro, juro que não procuro distinguir-me dos outros desgraçados mortais. Que não busco nenhuma espécie de lugar à parte, de fama e notoriedade, de personalidade e de carácter. Que não quero erguer "obra" e à custa da obra libertar-me da morte. Lealmente, nada disso me interessa. Mas também não me interessa ir na conversa dos foliões, nas "esquisitices críticas dos críticos" (já lá andei e apenas choro o tempo perdido). A verdade é que são todos pensando, agindo, procedendo de maneira hostil. Todos proclamam uma razão que eu não consigo aceitar. Eles têm, com certeza, razão. Mas se eu tenho razão, coitados deles...Não me dá satisfação pensá-lo, verifico o facto e prossigo na minha exploração do ignorado, na minha aprendizagem do amor, da liberdade e da morte. A experiência de escrever é uma da poucas que a minha covardia permite. É mais que pobre e limitado o meu mundo de experiências. Mais livresco que vivido, tive medo à vida, por isso tenho medo da morte.

Quando precisei (ou voltar a precisar) de escrever para comer, então sim: farei "arte", escreverei conforme os géneros. Sento-me à mesa e digo: vou escrever um "poema" que me renderá 150$. Ou vou antes escrever um "ensaio", que me renderá 200$. Ou vou escrever " peça de teatro», porque há uma comissão de leitura à espera. Ou vou escrever «romance» para o prémio Lins do Rego. Para eles, escreveria conforme os géneros e conforme o dinheiro que viesse. No fundo, agarrava o dinheiro e ria-me de toda essa comédia, dos géneros literários e dos artistas obrigados a género.

Ao lado de centenas de jovens "artistas" contemporâneos, sei que nenhum de nós é artista e aposto 99 contra um. Nem todos os dias nascem génios e o artista ou é génio ou não é nada, nada pelos menos relativamente à divisa de Camões... Só o génio liberta da morte. E porque eu sei não ser génio, nem 99 % dos jovens "artistas meus contemporâneos, não vou no silvo das sereias críticas, dos poetas-arte, dos críticos-arte. Não quero iludir-me com tão tosca forma de imortalidade como é a da obra, e ainda por cima obra de muito problemática sobrevivência no tempo - quanto mais imorta1idade!

Frontalmente, desisto de fingir. Finja quem quiser. Não continuarei forçando uma vocação que não existe. Sou simplesmente o que escreve: escrevo o que toda a gente que escreve é capaz de escrever: cartas, apontamentos... o diário, o meu diário.

Dou razão a quem tem razão. Quando leio Claude Roy, Aragon e, entre nós, Óscar Lopes - sei que eles têm razão. Uma razão saudável, higiénica, harmónica, própria de gente saudável e higiénica, regular, normal. Gente-padrão para a humanidade-padrão, a futura humanidade da felicidade objectiva, sem assimétricos, sem ovelhas ronhosas, sem doentes, sem ESGAR. Eles servem um ideal humano, eu não sirvo a um ideal porque sou um distorcidíssimo aborto, uma escructação intempestiva no meio do silêncio de uma casa de jantar de hotel de luxo com muita gente, porque sou uma aberração das leis naturais.

Vim e estou ainda aqui por acaso. Penso às vezes matar-me porque estou a mais, porque não sirvo ao ideal da humanidade socialista. Não queira ninguém iludir-me e convidar-me à acção, logo à alegria. Não conheço a alegria. Ando à procura do amor e da liberdade. Tendes de construir o rebanho, não vos compadeceis de uma ovelha ronhosa. Mas olhai que muitas ovelhas ronhosas compõem o rebanho. Muitos judeus há no reino de Hitler. Essas ovelhas poderão malograr a vossa missão de heróis.

Não sei nada. Cada vez sei menos de tudo. Só sei que as palavras vão lavrando o papel. Estou aqui ignorante e quanto mais avanço no que se considera análise crítica, inteligência, pesquisa, cultura, lucidez, mais ignorante fico. Se o caminho da sabedoria é o da suprema ignorância, devo estar no bom caminho... Tendo para zero. Falo de mim, pois falo. Do que hei-de falar? Tudo se vai reduzindo a um bloco homogéneo, impenetrável pela análise, indiferente à observação. Que sou "sentimental"? Mas que sabeis do sentimento e que sei eu? Pois porque não hei-de ser sentimental? Tanto como cruel? E arguto? E contraditório? E virtuoso? E um raio que me parta? Porque não hei-de falar do amor com olhos abertos? E não abrir os olhos para o que me comove, o que implica o mais puro de mim próprio? Estou aprendendo. Ouço ou leio um e as suas convicções; outro e os seus dogmas; um terceiro e a sua ideia fixa; um quarto e as suas doutrinas; um quinto e a sua fé, a sua filosofia, as suas razões; um sétimo e os seus distúrbios internos e externos; um oitavo e os seus azares profissionais, os seus gostos e desgostos sexuais, as suas claridades e as suas sombras; um nono e o seu encanto ou desencanto conjugal, o seu tédio, a sua bonomia, o seu bilhar e o seu xadrez; um décimo e as suas ambições literárias, os seus projectos de viagem, as suas conquistas e amores proibidos.

Ouço-os, leio-os a todos e procuro compreender. Quando desisto de compreender, procuro abrir os olhos, acordar e ver. Discordam uns dos outros, violentamente, mas concordo com todos. Cada um fala de si e a si exalta, exprime, compreende, glorifica ou humilha. E só se unem para me dizerem, à uma, que "falo muito de mim". Que literatura não é experiência, nem testemunho, nem patetismo, nem autobiografia, nem cartas e páginas íntimas, demasiado íntimas.

Que arte não é sinceridade, é fingimento. Não é ímpeto espontâneo, é artifício de elaboração.

Abominável é este sujeito que fala de si, sempre de si. Que nem sequer a si próprio impõe uma lei, um género, uma opinião, um dogma, um princípio. Que deixa a liberdade de cada um libertar-se livremente. Que aprende sempre e não ensina nada (egoísmo). Que não possui nenhuma verdade revelada, nenhum ideal, nenhuma fé, nenhuma sabedoria, nenhum programa e prosélitos, nenhum quinquenal a prazo.

Canalha esse que não adopta a opinião do lº e do 2º e do 3º e do 4º ... porque a todos ouve, lê e tenta compreender. Tenta aprender.