<68-03-15-di> = diário de um idiota atrapalhado – diário de um jornalista ainda mais atrapalhado – inédito? Ac de 1968
SERVIDÕES DE QUEM ESCREVE
(EM JORNAIS E NEM SÓ)
15/3/1968 - Enredado no ciclo vicioso que a própria imprensa incita e fomenta, o leitor não compreende, a páginas tantas, como crescem certos mitos do nosso tempo, como a publicidade do fait-divers pretende fazer esquecer a gravidade dos pontos quentes onde o futuro e a história se decidem. O leitor não compreende porque se acostumou a confiar no jornal e o jornal, vistas as coisas, não merece confiança.
Há que dizê-lo ao menos uma vez, e embora sem esperança de que o futuro nos absolva, só porque o dizemos: a imprensa, mais para um lado mais para outro, colabora hoje com excepcionais poderes na tarefa de obscurantismo em que forças ocultas se empenham para deter, nas próprias mãos, a iniciativa mental de cada um e de cada qual. Nas mãos pouco limpas dos que, não tendo uma opinião pública esclarecida que os vigie, corrija abusos e reprima, vão sendo auto-corroídos dentro da calma morna em que se instalaram.
O ciclo vicioso não se rompe e o leitor mostra espanto quando um incidente, ocorrido entre as forças em jogo, desmascara esse jogo.
Ainda não há muito, uma empresa de exibição cinematográfica, tentando reduzir a pó a iniciativa crítica de um jornal diário, veio mostrar duas coisas: 1º essa iniciativa tem estado previamente coarctada, sem ninguém dar por isso e sem ninguém se incomodar com isso; 2º, afinal a crítica é um direito inalienável da informação e sem ela tudo se vicia, corroi, corrompe (como já estávamos todos esquecidos).
CRÍTICA AO ESPECTÁCULO
Crítica ao espectáculo, aliás, é apenas uma pequena parcela do dever que ao jornalista incumbe de ser responsável pela opinião que emite e o direito de emitir opinião responsável. Para isso, aliás, está feita esta diária servidão de nos submetermos à chateza no fait-divers, à dispersão monótona do evento, à disciplina esgotante de ouvir e ver para reproduzir, contar, narrar, repetir o que se ouviu e viu.
Ao menos que se deixe ao jornalista, escravo da mais aborrecida realidade quotidiana, com pormenores de nome, horas, idade, estas pequenas alegrias de criar opinião criticando, de criticar e ser criticado, de assinar e responsabilizar ideias, exercício higiénico com seu grão de imaginação criadora que permite varrer, de vez em quando, o terreno atulhado de caqueiros e móveis velhos.
Importa que a circulação não esteja pejada de doentes, ainda quando o número de mortos é para 5 colunas. Da morte não tem o jornalista a culpa mas pode o futuro pedir-lhe contas do lixo que deixar acumular. Isso sim!
INDEPENDÊNCIA DE QUEM ESCREVE
Agora, vem a altura de comparar, pondo frente a frente, estas duas eventualidades: ou independência de quem escreve e sua autonomia face à mecanização dos processos e meios de Informação; ou o cérebro humano serve de facto para segregar ideias e o jornalista será principalmente o crítico; ou o jornalista ganha a batalha contra os trusts que, comandando as indústrias, comandam a publicidade e, com esta, a opinião, o direito à opinião do jornalista; ou então o profissional do facto deixa-se escravizar por ele e pelas máquinas calculadoras que pretendem substituir o cérebro, anulando-o, sem que se veja grande futuro para ninguém...
Se os trusts da indústria e da tecnologia comandavam até agora o "pensamento" do jornalista ( e pouca ou nenhuma margem de crítica lhe ficava) totalmente esmagado será ele quando os trusts da indústria computatriz, já em ofensiva de grande escala, o substituírem por cartões perfurados. E o jornalista tragado ontem pelo facto, amanhã sumir-se-á nos caixões da electrónica.
Ou a Informação, até agora lacaia quer da Publicidade Comercial quer da Propaganda Política, se torna um ramo da Educação e um departamento da Escola Permanente, subentendendo para a Educação a autonomia sem a qual também se nega e trai (não existe educando sem culto e cultivo da liberdade intelectual) só lhe resta o próximo desaparecimento. Perante a escravidão do facto, a escravidão das censuras e a escravidão da electrónica, de facto que saída lhe resta?
TAMBÉM A CIÊNCIA
Também a ciência, sem autonomia, sem liberdade dos seus criadores, sem independência contra preconceitos e convenções de escola, se transforma, breve, numa força reaccionária e anti-progressiva. Tal como a Informação através da imprensa, tal como a Informação através da Escola, a Ciência se depender de forças alheias e dever obediência a suspeitos interesses, nega-se, trai-se, corrompe-se.
É ver como os que se dizem cientistas ou de formação científica denunciam, principalmente na terminologia que usam, no critério que utilizam, nos objectivos para onde apontam, preconceitos anti-científicos, irracionais, religiosos, herdados de antigas inquisições e escolásticas, como os seus conceitos são preconceitos, pre-juízos os seus juízos (pretensamente críticos, objectivos, experimentais) e os mitos campeiam nos seus meios.
No capítulo do comportamento alheio, usam, tal como os antigos inquisidores, os mesmos preconceitos com o ar de conceitos: a noção de "pecado", por exemplo, embora com nomes diferentes, anda ainda hoje em muitos textos "científicos" de considerados cientistas, quando o pecado não é mais, na sua explicação racional, do que doença, hábito ou feitio.
O matreiro, a brejeirice, o juízo moral em matéria de facto, usam-se ainda hoje pelos que se julgam isentos.
Quanto a ídolos, aceitaram os feitos do Dr. Barnard baseados nos preconceitos da escolástica médica; revolução, progresso, avanço, vanguarda, em Medicina, como no resto, opõem-se às Academias, universidades, instituições esclerosadas e defendidas pela inércia da sua estupidez, pela estupidez da sua (pretensa ) sapiência; todos os que acreditamos na ciência devíamos saber que nas instituições residem os seus primeiros e principais inimigos: na Escola e nas escolásticas que cria, os principais obstáculos ao progresso social, político, moral ou científico. No fundo, o ensinamento maior dos tempos modernos e o conceito radical de progresso vai sempre enraizar na intérmina polémica: Escola contra Progresso.
SEM IDEIAS, SÓ O CAOS
Organizar o caos - eis o que se propõe a prospectiva relativamente a um dos factos mais dolorosos do mundo actual: a inflação de factos e a submersão ou atrofia a que o pensamento fica sujeito sob a sua avalanche.
Lançar a luz sobre o caminho atulhado de notícias acumuladas hoje e logo mortas amanhã, seleccionar, hierarquizar, separar e acumular o que não serve do que ao futuro (amanhã, depois de amanhã )de facto importa, eis a função base da Prospectiva no campo da Informação.
Os factos, só por si e entregues à inércia que os atira, no panorama dos acontecimentos mundiais, transcritos em telegramas noticiosos pelos telex das agências, chocam-se e contraditam-se, são consumidos sem crítica nem reflexão. E os mitos proliferam. E os conceitos errados com eles. O fetichismo do nome e do número, do dado concreto, do número estatístico conduz a uma ditadura e preguiça mental que anula a função elaboradora da inteligência que é pensar a notícia, o evento, o facto. Sem ideias, na barafunda das informações que se sucedem e sobrepõem, só o caos.♥