<esbs1 > - crónica do 3º milénio
A CAMINHO
DO QUARTO MUNDO
21/6/1996 - O estatuto do Ensino Superior Particular e Cooperativo, publicado em 22/Janeiro/1996 está a dar os seus frutos: este Verão, com o novo ano lectivo já à bica, parecem cogumelos, nas páginas dos jornais, os anúncios de mil e uma universidades, todas a mostrar que são melhores do que as rivais.
É que o Governo diz que vai ser ríspido nos reconhecimentos e quanto mais se investir na criação da imagem pública, mais probabilidades há de receber o almejado alvará.
Uma coisa aparece clara, a julgar pelos rios de dinheiro gastos em publicidade: o ensino particular é um negócio da China e os lucros de morrer.
Lusófona e Atlântica, por exemplo, entraram em pública confrontação, acusando-se mutuamente de terem no seu elenco directivo personalidades deste e/ou de anteriores governos. O que só quer dizer que também no ensino superior particular estamos bem entregues. O Diabo não dorme e Deus também não. Vamos ver, pois, quem acorda primeiro e quem mais ressona.
Particularmente às aranhas encontra-se este governo de neófitos e de broncas, quanto às duas escolas que pretendem trabalhar nas matérias novas do futuro: uma Escola Superior de Biologia e Saúde e uma escola de Ciências Naturais e Homeopáticas.
Primeiro o Governo tem que ir ver ao dicionário para saber o que é isso de holística (primeira dificuldade); depois, está nervosíssimo (via Infarmed) para saber o que a Europa anda em vias de legislar, um pacote bombástico que tanto pode arrasar de vez as alternativas como, finalmente, dar-lhes o lugar a que têm direito; depois, a Ordem dos Médicos a quem os Governos democráticos obedecem sempre como se o corporativismo de Salazar ainda estivesse em vigor, deve estar, não tarda, a bater o pé em mais uma das suas exigências corporativas.
«Morte aos naturistas e a quem os apoiar» parece ser a palavra de ordem da Ordem.
No mínimo e conforme os inspectores declararam em uma daquelas escolas superiores «o reconhecimento de uma escola superior da área da medicina tradicional» depende da discussão do relatório (proposta de resolução) no Parlamento Europeu a que «A Capital» já fez referência.
Forma expedita de adiar uma vez mais o que há anos vem sendo adiado. A legislação sobre medicinas naturais é um deserto. À parte um decreto-lei sobre homeopatia, que os legisladores obraram após enorme pressão da União Europeia, pressionada, por sua vez, pelo poderoso lobby da Homeopatia (um empório em expansão crescente na Europa), nada mais existe para regular e regulamentar as novas profissões de saúde.
O que só mostra, como defendia há anos o cirurgião Gentil Martins, que somos um país do Terceiro Mundo a caminho do Quarto. No entender desse ilustre ex-bastonário, medicinas tradicionais é coisa de povos primitivos e sem tecnologia de ponta. A metáfora do avião apresentada pelo dr. Castanhinha, em pleno debate televisivo, ficou célebre. Comparava ele a medicina a um avião, quanto mais moderno fosse o modelo, melhor era.
Enquanto o positivismo do Comte ainda for a filosofia que inspira as mentalidades mais esclarecidas do nosso meio cultural, Gentil tem razão: somos um povo do Quarto Mundo.™