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20-4-1998

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EUROPA - CABO VERDE

[ confidencial para Leão Lopes ]

RAZÕES DE UMA AMIZADE

(Porque amo Cabo Verde e quero ser cidadão deste país)

Com o Tratado de Maastricht, Portugal passa a ser pura e simplesmente uma colónia da Europa. Uma colónia da Sociedade de Consumo (e do Desperdício) que a CE incarna. Uma colónia da Tecnocracia e do terror Tecnocrático. Mas talvez seja bem feito que Portugal seja agora uma colónia, pagando assim o que fez quando colonizou outros povos, como Cabo Verde. Como desejei sempre viver num país independente, gostaria que Cabo Verde me acolhesse como seu cidadão.

A evolução semântica da terminologia tem seguido a consciência da vergonha por parte da ideologia tecnocrática. O que eram, primitivamente, os «povos primitivos» - nem mais, nem menos - passaram depois a «povos atrasados», depois a «Terceiro Mundo», depois a «subdesenvolvidos» e, mais recentemente, o mais recente eufemismo: são os «povos do Sul». Não se pode negar imaginação a esta evolução semântica que têm, como «leit motiv», evitar a palavra «povos colonizados».

Ser militante das tecnologias alternativas era também, por inerência, ser militante do chamado Terceiro Mundo. O País onde vivo, registou essa heresia e, assim que descobriu, condenou-me ao silêncio e aos silenciamentos. Desperdiçou o que eu tinha para lhe dar. Recusou livros, artigos, edições, ideias, principalmente as ideias. Principalmente as ideias sobre tecnologias de vida e de saúde. De facto, ser militante do Terceiro Mundo em um país onde a lepra consumista é endémica, tem consequências. E o preço a pagar é o exílio na própria pátria. É natural que procure um país que eu possa ouvir e que que me queira ouvir.

A sociedade de consumo está agora a vingar-se do que disse e fiz contra ela, ao longo de alguns anos em que militei na frente ecologista contra a sociedade do desperdício. Colocou-me em todas as listas negras, não me reforma nem me deixa trabalhar, tem-me sob vigilância médica, aponta-me a dedo às instâncias europeias, das quais, de facto, sempre disse que eram de vocação nazifascista. É natural que, sentindo-me empurrado de todos os lados, queira ir viver para um país onde possa, no mínimo, dialogar com as pessoas. ☼♥