1-2 < 99-05-24- ac-dn> afonso a diário de notícias - sexta-feira, 28 de Fevereiro de 2003-novo word - <dn-1>

 

Lisboa, 24/5/1999

SONHO OU PESADELO?

Meu Caro DN: Tenho de compartilhar contigo, meu caro DN, esta angústia que me vai na alma e esta dúvida que me atormenta: sonho ou pesadelo, os jornais e telejornais destes últimos 60 dias?

Poderia também dirigir-me ao Provedor dos Leitores e para isso segue uma cópia desta missiva.

Começo então pelo dia de hoje. No noticiário das oito, da Antena 2, ouço que a NATO bombardeou instalações eléctricas. Embora a notícia seja idêntica às que ouvi nos 60 dias antecedentes - ou por isso mesmo - continuo a não acreditar, preferindo convencer-me de que é sonho meu (sonho mau) e pura fantasia.

Por mais que imagine o que seria uma Lisboa sem electricidade (agora que apenas 20% de água nos é subtraída), por mais que habituado esteja a não ter comboios, semana sim semana não, por mais que dê voltas e reviravoltas à minha confusa cabeça, não consigo imaginar-me sem o conforto dos electrodomésticos, da educativa televisão, do rádio que me dá as notícias, da luz que me alumia o cérebro, do computador onde escrevo este desabafo, etc.

Ouço também que tudo irá continuar, ninguém sabe se por mais 60 dias, 60 meses, 60 anos ou 60 séculos: eles devem ter bombas que cheguem para isso tudo.

Que interessa o tempo, aliás, se tudo afinal é sonho de uma noite de Verão? Que interessa afinal a vida, se só vejo e ouço contar mortos em cima de mortos, além dos mortos-vivos a que pudicamente chamam refugiados.

Ouvi, em jeito de balanço, que eram milhares os alvos atingidos e da ordem dos milhares as operações metodicamente efectuadas, mesmo aos fins de semana. Não pode, evidentemente, ser nada disto e nada disto pode estar a acontecer. Devo ter-me passado para o outro lado e já os dedos me parecem hóspedes.

Como te leio todos os dias, meu caro DN, pode ser que alguns dos colunistas que mais admiro - o Luís Delgado, o António Ribeiro Ferreira, o Pacheco Pereira (desde que não me venha pregar a seca do Cunhal) , o Vasco Graça Moura, me possam um dia destes explicar que se trata de um sonho que estamos todos, colectivamente, sonhando.

Real é que nada disto pode ser. Mesmo atendendo a que o ano de 1999 é apenas o ano da Besta - basta ler o 1999 ao invés e dá 666, número da Besta - mesmo tratando-se do princípio do Fim, mesmo tratando-se do revelador apocalipse (e o meu velho amigo jornalista António Carvalho dirá se minto) , nada disto, por mais abominável e bárbaro, pode ser real.

Duas linhas que li, no DN, deixaram-me ainda mais confuso: um tresmalhado queria convencer-nos de que o célebre Bug 2000 iria desactivar todos os mísseis norte-americanos. Uma mente mesquinha diria que então, sim, tudo faria sentido: despejar milhares de bombas antes que apodreçam nos silos, seria uma solução altruísta, vantajosa e acima de tudo rentável.

Também me recordo que o Ruben de Carvalho revelava uma pequena amostra do acordo de Rambouillet. E eu que nunca estaria de acordo com o Ruben, tive que ficar, como ele, estupefacto porque o tal acordo previa apenas a dominação total e completa de um país chamado Jugoslávia pelos EUA, suponho. Nem o democrata mais tirano poderia alguma vez aceitar um tão gigantesco absurdo: pelo que essa de Rambouillet é de certeza sonho.

Vicente Jorge Silva ou Emídio Rangel (e todos os que batem palmas às bombas e justificam com esse acordo de Rambouillet o actual processo de assassinato em curso) , não sei se já foram ler o referido texto: tenho esperado, aliás, meu caro DN, que o publiques na íntegra, logo que o interminável folhetim do 25 de Abril termine. Para sabermos todos se afinal sonhamos ou estamos acordados.

Também espero que Deus ouça a palavra inflamada do bispo José Policarpo, quando disse «Em Nome de Deus e por amor de Deus, acabem com isto .»

Foi o dia , meu caro DN , em que concordei com o Ruben de Carvalho, director do «Avante» e com D. José Policarpo, em breve cardeal, facto que também deve estar incluído neste sonho mau que sonhamos há 60 dias.

Também li abespinhados senhores contra os anti-americanistas primários como eu, tal como se ouvisse repetida a acusação que me tem sido feita, desde o 25 de Abril, de anticomunista primário.

Uma dificuldade semântica é encontrar palavras para exprimir o inominável. Surgem, porém, aproximações. E felicito Manuel Villaverde Cabral por ter encontrado o título necessário: «Histeria Belicista da NATO», de facto, enquanto metáfora psiquiátrica, é talvez a única forma de designar a psicose em curso. Também António Ribeiro Ferreira acerta na muge: «A Farsa de Rambouillet».

Uma coisa é certa: mesmo a metáfora é ainda insuficiente para nomear o inominável.

No sonho, meu caro DN, vi o Dr. Soares em viagem. Não admira, como podemos nós ver o Dr.Soares que não seja em viagem? Que fora à Rússia e que considerava o massacre em curso na Jugoslávia a maior catástrofe da história.

Não pode, evidentemente, ser, com tanta gente séria e tantos poderosos crânios a dizer amen à catástrofe, a abençoar as bombas, a aplaudir os massacres.

O meu sonho, às vezes, exagera.

Se fosse a maior catástrofe da história da humanidade, o V. J. Silva e o E. Rangel já tinham arranjado uma saída para o problema: um tribunal de Nuremberga que, in extremis, os julgue.

Resta-me a mágoa , meu caro DN, de não poder todos os dias compreender um pouco deste absurdo quotidiano, lendo a luz que todas as manhãs iluminava a última página do DN e que se chama Victor Cunha Rego. Talvez ele, com a sua inteligência poderosa, nos ajudasse a compreender que tudo isto é sonho e que todos afinal somos responsáveis por este pesadelo. Que mais não seja, calando a revolta e a indignação.