<di-70> diário de ideias 1970 Revisão:segunda-feira, 15 de Maio de 2006

HORA DE BALANÇO

E RECAPITULAÇÃO DA MATÉRIA ANTERIOR

 

15/Maio/1970 - Aplicada ao campo particular da literatura, a imaginação chama-se poesia.

Aplicada a todos os campos, chama-se prospectiva.

Se a prospectiva constitui alguma descoberta, será esta evidência: a imaginação terá de participar em todos os campos da prática humana e, em tão lata acepção, o seu nome é prospectiva.

Pobres de estrutura (princípio, meio e fim) os textos aqui coligidos são apontamentos que procuram ir captando, através da vida vária e ao longo de alguns anos, uma unidade, um princípio unitário: o leit motiv que da literatura à medicina, da pedagogia aos serviços públicos, do desporto à investigação, da poesia ao cinema, da filosofia à acção cívica, da conduta quotidiana às situações-limite, do indivíduo à colectividade, da vida privada à vida pública, da empresa ao jardim infantil, da educação permanente à reforma agrária, do teatro ao jornalismo, da crítica à criação, da ética à lógica, do trabalho ao ócio, da saúde à doença, perspectivasse a realidade e a acção ou praxis humana de um único ângulo.

Ambicionam os textos aqui reunidos uma unidade: descobrir em toda e qualquer dessas emergências, o que existe de criador e o que existe de perecível.

A ordem cronológica desses textos - contrariando um tanto a ordem lógica - pareceu-me preferível, já que se trata de um itinerário percorrido com hesitações e tateios, já que nada disto se encontrava definido ab initio, já que os textos assinalam, efectivamente, uma procura, uma investigação, uma descoberta.

A noção de prospectiva só surgiu de várias noções parcelares a pouco e pouco convergentes: imaginação, experiência, obsceno, propedêutica, futuro, óptica epistemológica, estrutura, ciências humanas como ciências da excepção, patafísica, livre arbítrio, crítica como ciência, pensar o simultâneo, poesia como arma, poder da imaginação no poder, iniciação e pedagogia, a poesia é feita por todos, a lógica do contraditório, quotidiano e poesia do quotidiano, o formalismo como reacção literária...