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<90-01-12-di> - diário de um idiotaNão compreendo como este disparate foi publicado na Crónica do Planeta Terra. Mas se não foi, ainda compreendo menos porque o escrevi. Só para a gaveta? Só por desabafo? As energias que eu gastei a escavar o vazio! E mais algumas gastas a fazer o scan disto. Valha-me nossa Senhora! (2001-12-15)(*)
CRISTÃOS LEMBRAM CRISTO (ÀS VEZES)
O DEUS DOS DESCAMISADOS
«Não sendo Jesus Cristo um pobre de pedir, como é que ele começou a ver o Mundo a partir dos excluídos?» (Frei Bento Domingues)
12-01-90 - De vez em quando os cristãos lembram-se de Cristo. Nas horas vagas da ganância e da pecúnia, dão esmola aos pobres. Às ordens religiosas incumbe uma certa responsabilidade moral de dizer alguma coisa, não compartilhar a cumplicidade do silêncio, porque elas, em princípio, também deviam ser a "consciência do mundo", quando todas as consciências se encontram vendidas ao capital e rendidas às delicias do consumo e da carne.
Em Portugal, nunca como hoje a vida foi tão difícil para os pobres, médios, remediados e outros jornalistas. O lumpen fica cada vez mais lumpen, à medida que os ricos são cada vez mais ricos. É a isto que o discurso oficial chama "modernização", "progresso", "entrada na CEE", "crescimento económico", "desenvolvimento".
Éramos um País do Terceiro Mundo, agora somos do Quarto (o Quarto Mundo cresce no território nacional). Mas uma organização qualquer, em Nova Iorque, proclamou que tínhamos entrado para o Clube dos Industrializados , logo o Jornal «O Dia" pôs o dedo na ferida: era a forma e a fórmula (dizia Silva Resende) de a CEE nos dar menos ECU' s e ter menos carinhos periféricos connosco.
Os descamisados têm agora a missão de fazer, nus, a Revolução.
Caídos os Ceausescu e alguns totalitarismos que se tinham implantado em nome da Revolução, nunca a Revolução se tornou tão necessária. A guincharia dos liberalismos não altera um milímetro ao quadro.
Vozes como a de Frei Bento Domingues (teologia da libertação) que se ouviram no colóquio da Universidade Nova, dia 12 de Janeiro de 1990, dão nova vida à esperança dos descamisados.Esperança que não deverá confundir-se com Utopia. Deus ou Morte é a palavra de ordem. E se a resistência ao fascismo corporativo foi em boa parte alimentada nas catacumbas da capela do Rato, a esperança hoje é que a resistência ao neo-liberalismo "social-democrata" (?) tenha, como as ratazanas, vida de ferro. Mesmo na clandestinidade.
Quero lembrar um episódio dessa resistência (quase) clandestina, que ocorreu no passado dia 12 de Janeiro, na Avenida de Berna, Universidade Nova de Lisboa, iniciativa do Instituto de Sociologia e Etnologia das Religiões.
"São Francisco foi precursor dos ecologistas" como lembrou o padre franciscano Víctor Melícias. Mas, ao que parece, de nada serviu ao cristianismo ter no seu areópago (?) santos de tanta intuição antecipativa. Continua tudo na mesma como a lesma, no que respeita a actos e a tecnologias ecoalternativas de libertação ( paráfrase necessária e sine qua non da "teologia da libertação").
Em discurso, em blá,blá, em conversa fiada, em verbalismo e verborreia nunca o cristianismo foi parco nem peco: antes pelo contrário. Mas em acção e em acto, na prática, com as mãos e o coração no concreto, viste-lo. Lepra do mundo ocidental, o verbalismo e a teoria têm bem à vista os resultados práticos, esse panorama do horror tecno-industrial, que todos os dias os "media" pacientemente debitam em infindável diarreia.
Pode não haver hoje e amanhã (como não havia ontem), pão, nem justiça , amor, paz, respeito pelo próximo, angústia pela destruição do irmão Planeta (Terra), pode não haver água limpa, nem casas para a gente habitar, nem uma refeição para as crianças do distrito de Setúbal ( Bom dia, Bispo!) , pode não haver vergonha na cara dos poderosos, na ostentação das classes despudoradamente ricas, pode, enfim, não haver espírito de entreajuda, caridade e vontade de abraçar o nosso irmão leproso (sidoso), mas discurso, palavriado, blá-blá, verbo, verborreia, teoria, conversa fiada, isso não tem faltado nunca aos porta-vozes da cristandade.
No princípio era o Verbo - diz a Bíblia. E a Verba também, claro, que o maganão é tão bonito!
A momentânea recrudescência do neo-canibalismo liberal foi apontada, com veemência, por Frei Bento Domingues, padre dominicano e voz da Teologia da Libertação, reconhecido em todo o Mundo dos deserdados.
Ele é mesmo uma voz incómoda. É talvez a Voz Incómoda, por definição, o que mais longe vai na análise da podridão , à luz dos evangelhos. Ele demonstra, como um teorema matemático, que enquanto houver pobres, deserdados e excluídos, Deus é uma ficção aberrante em cérebros perversos.
Enquanto houver "excluídos", Deus está no lixo da sociedade do luxo e foram os poderosos, todos os poderosos que lá o puseram.
A questão proposta, à queima-roupa, por Frei Bento Domingues, é irrecusável, mesmo para um budista impenitente e confesso como eu. Ao escavar a raiz mais profunda de uma religião, como Frei Bento o faz, parece que se confirma a profecia: vamos encontrar o estrato comum de todas elas, talvez quase ao nível de um inconsciente colectivo nessa fugidia e equívoca consciência da solidariedade.
Ao recordar duas parábolas , estranhas e terríveis, do Livro da Sabedoria (Génesis) , Frei Bento Domingues não labora no campo da Utopia mas no da heresia que é, como se sabe, o campo da libertação e (até) da beleza absoluta como queria Lautréamont: "Belo como uma heresia"!
A sua argumentação aperta-nos de tal maneira contra a realidade brutal dos "excluídos", dos deserdados, dos humilhados e ofendidos, que saímos das suas palavras como de um banho de fogo, como de um banho de sangue, contentes por não sermos ricos, quer dizer, por não estarmos em pecado mortal de lesa humanidade.
Chama Frei Bento a atenção para o triunfalismo contentinho que se desatou agora pelas chamadas democracias parlamentares ocidentais, com a sucessiva queda dos sucessivos totalitarismos.
Como se a queda de algum totalitarismo inutilizasse a ideia de "libertação" dos povos, quer os do terceiro Mundo, quer os do Quarto Mundo que vivem em guetos do Jamor, nas periferias, nas ardentes periferias das podres e grandes urbes.
Cristo mandou os cristãos armar "escândalo'' quando for caso disso.
Ora, na presente conjuntura portuguesas em que ainda a Carta Social Europeia de inspiração reformista estava no ovo e já Ferraz da Costa afirmava a "O Diabo" que iria combatê-la sem tréguas, na actual conjuntura canibalesca ( democrata cristã, social democrata e socialista) é mesmo necessário que um Instituto de Sociologia ou Etnologia das Religiões (ou seja lá o que for) nos ponha à frente do nariz o que os "media", obviamente ocupados e preocupados com outras cavalarias, sistematicamente consideram "assuntos deprimentes" que não fazem, de todo, vender papel: pobreza, miséria, tortura, greves da fome, injustiças , desalojados, seviciados da era informática, suicidas, delinquentes, toxicodependentes, etc., etc.
"Deprimentes" eles são, mas lá que os temos todos de engolir, tarde ou cedo, não restam dúvidas. E o melhor é mesmo dizer aos "yuppies" da nova vaga que tomem tento e não atirem mais fumo para os olhos! Eu já estou rezando a Buda e a Cristo para que o "crash" destes bolsistas novos ricos, deste patobravismo "new look" e CEE, venha depressa e bem.
Não é utopia, é realismo: um dia destes, os deserdados, os oprimidos, os marginalizados, os excluídos, vão mesmo levantar-se e de certeza que haverá vítimas. Ou a lei do karma não fosse irreversível, muito mais do que as nacionalizações gonçalvistas.
Em Portugal, o Estado está-se nas tintas para promover uma das suas mais elementares obrigações - a solidariedade social.
Assim o denunciou o Padre Vítor Melícias, que referiu a inserção social como um direito fundamental de qualquer cidadão, mesmo nos países capitalistas da Europa, onde a solidariedade social serve exactamente para atenuar o canibalismo neo-liberal das economias de mercado.
A social democracia portuguesa ainda não chegou aí.
A única coisa cristã que este Estado de Direito sabe fazer é aumentar e produzir cada vez mais "excluídos", cada vez mais desinseridos, cada vez mais marginalizados.
Mas uma sociedade que cresce à custa deste cancro, é cancerosa. Uma sociedade que cresce à custa deste expediente canibalesco - produzir cada vez mais bairros da lata, pobres cada vez mais pobres, miseráveis cada vez mais miseráveis - é uma "sociedade de loucos" (Frei Bento Domingues).
Para ouvir verdades destas como punhos, temos que ir à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, na Avenida de Berna, porque os "media" estão também e evidentemente muito mais ocupados e preocupados com outras questões.
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(*) Afinal, para desgraça minha, este texto veio mesmo publicado na Crónica do Planeta Terra, 3/2/1990, como acabo agora mesmo de verificar (2001-12-15) ■♥