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FORUM DOS AFLITOS
ATRIBULAÇÕES DE UM VELHO À CATA DA REFORMA
CARTA DO BENEFICIÁRIO Nº 072000736 AO SR MINISTRO DA TUTELA
«Porque não se pode ao menos morrer em paz?»
Lisboa, 11/2/1992 - Eis, senhor ministro da Tutela, mais um sinal de que tudo se simplifica na nossa vida quotidiana e de que a tão falada modernização da Administração Pública se sente a todos os níveis, inclusive o da Burocracia. Tal como se previu e foi anunciado, está cada vez melhor. Sem dúvida, Senhor Ministro da Tutela, sinto-me de tal modo jubiloso com a modernização e grato e estimulado a voltar outra vez a esta vida e a este País, que quero comunicar-lhe, sr Ministro, toda a alegria que me vai na alma e a minha eterna gratidão. Acabo de sair do Distrito de Recrutamento Militar, na Avenida de Berna, pela simples razão de que resido há vinte anos no distrito de Lisboa. Mas aí me dizem, com extrema simpatia, aliás, de que se não tenho já a caderneta militar, a coisa apresenta-se feia. Pode ser então que consiga a certidão no distrito de recrutamento de Beja, distrito onde militarmente me recenseei quando jovem mancebo, de acordo com todos os conformes legais, e onde talvez (talvez) me seja gentilmente passada agora a tão solicitada Certidão Militar que me exigem na Caixa Geral de Aposentações, para contagem do tempo de serviço como professor primário.
A vida é esta rede inextricável de interligações. Ainda ontem eu saíra da dita Caixa Geral de Aposentações, ao alto da Rua Castilho, cheio de esperança e paz de espírito, quando me disseram ali, com particular certeza, que bastava requisitar em papel azul de 25 linhas ao senhor -------- da Caixa ------, a contagem do tempo de serviço, e tudo me seria indicado conforme o pedido, uma vez que eu ostentava, para isso, o documento que era a declaração fornecida, no curto prazo de dois meses, pelo Distrito Escolar de Beja, com os anos de serviço como professor agregado. Mas não bastava.
De ontem para hoje deixou de bastar. Lá está, nessa declaração, com particular nitidez, os anos que eu prestei serviço como professor e o tempo em que interrompi esse serviço para ir cumprir o serviço militar obrigatório. Mas não chega: agora, aos 58 anos, quando até fica mal a um velho ver-se em sítios de recrutamento militar, a declaração do distrito escolar não chega, falta a tal Certidão Militar a pedir no distrito de Recrutamento Militar de Beja, depois dos 45 anos de idade, ou no Arquivo Militar, Estrada de Chelas, depois dos 55 anos do que foi soldado aos vinte.
Mas a sombra sempre negra de ter ou não ter perdido a caderneta militar não me sai já do espírito, onde tenho que ter sempre uma pedra destas para me tirar a paz.
Mas isto deve ser do karma, senhor Ministro. Fiquei sem saber ao certo se encontrar a dita caderneta era condição sine qua non para me poder ser passada a tão falada certidão. Se não a encontro -- a Caderneta Militar -- e para a procurar tenho de virar a casa do avesso -- estou tramado, lá se vão os anos de serviço militar obrigatório por água abaixo, na contagem que preciso de obter para a tão anunciada e ansiada reforma. Se não A encontro, é o (meu) Fim.
Mas antes da modernização, senhor Ministro, seria bem pior e isso me tranquiliza. Custa tanto a reforma a um velho, mesmo mais do que morrer. E todos sabemos como é difícil morrer, neste Mundo, com o médico provavelmente diante do meu cadáver, recusando-se, por motivos ideológicos, de incompatibilidade política, passar-me a certidão de óbito.
Para já, é só a certidão militar, que surgiu como um pequeno episódio numa rede complexa de idas e vindas pelos organismos centrais que tratam da reforma aos portugueses, Caixa Geral de Aposentações, Centro Nacional de Pensões e (no meu caso) Caixa de Jornalistas. Tudo se tem simplificado e, se não fosse assim, teria 5 ou 10 organismos em vez de 3. Só fui duas vezes ao Centro Nacional de Pensões, duas à Caixa Geral de Aposentações e um sem conto delas à Caixa dos Jornalistas.
Se contar só os anos de serviço fora do Estado, conto apenas 34. E sem 37 anos ninguém me deixa abalar, ninguém me dá por inválido, por mais com os pés pra cóva que eu esteja. Como gostam de mim! Juntando, em soma aritmética, os anos de professor e tropa talvez já perfizesse os 37. Porque os 65 de idade, definitivos para me darem a reforma, estão ainda longe e nunca lá chegarei vivo, obviamente. O que significa que nunca terei hipótese de viver uns dias ou meses nesta vida.
Mas podia ser bem pior e, por isso, senhor Ministro da Tutela, lhe agradeço. Não esqueça, senhor Ministro da Tutela, que entretanto fui remetido, em corpo e alma, para o inferno dantesco do campo concentracionário de Cabo Ruivo. E acho que vou terminar aí os meus dias afogado em gases e merda, porque a casa -- a empresa -- também não vai ter a bondade de me despedir.
É que, despedindo-me, tudo me seria mais fácil: entrava dois anos no desemprego e, ao fim desses dois anos, segundo a legislação---- em vigor, entro automaticamente na reforma. Aleluia! Aleluia! Só que o jornal «A Capital» não despede ninguém. Nunca despediu. É ponto de honra de uma grande empresa. Mas na fase terminal de Rudolfo Iriarte saíram da redacção 25 jornalistas em um ano e desde que «A Capital» foi para Cabo Ruivo, menos de um ano, já abalaram 13.
O Senhor Ministro da Tutela acha isto tudo muito natural, não é?
Mas atenção -- eles não despedem ninguém, são muito respeitadores da lei laboral. «Que pressa a tua em antecipar a reforma!» - dizem-me frequentemente. Afinal, com as viagens que fiz, nestas últimas semanas, aos três sítios de peregrinação já citados, até se justificava um pouco da minha angústia de antecipação.
Agora, com a tropa a criar acrescidas dificuldades de papeis, acho que emperrou mesmo e de que o labirinto pré-construído pelo sistema não tem mesmo saída. Com toda a modernização da Administração Pública, senhor Ministro, que faria dantes. É como se uma punição estivesse em curso, por eu não querer aguardar a reforma de morte aos 65 anos! Para os quais ainda me faltam, contando pelos dedos, 1,2,3,4,5,6 anos!
Desculpe o sr. Ministro da Tutela mas a minha velha tese de que mais valia porem os velhos à frente de um pelotão de fuzilamento tem aqui perfeito cabimento. Se tanto se dificulta a morte de um homem, se ao menos não há a misericordiosa coragem de o fusilar, porquê tanta retórica, porquê tanto paleio, tanta modernização, tanta simplificação de burocracia, tantas falsas esperanças criadas àqueles que já não têm nenhumas? Sinceramente, e mesmo tendo isto como um jogo palerma, para entreter velhos gágás, começo a ficar farto do vosso jogo, oh! Canalha que manda nisto e deixa morrer de vazio os velhos sem horizontes. Nunca!
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<eu-jor-4 ><simulac><diario>- quem ganha com o medo? - diário de um espectador -vide <simulaºs> <aflitos> <cartas>
A POLÍTICA DO SIMULACRO
11/2/1992 - Agora é a própria Rússia que tem interesse em exportar uma imagem de Caos, guerra, tensões, miséria, bichas ao supermercado, manifestações de protesto, etc. Estende assim as mãos à caridade ocidental, o que é rentável para ambos os lados. Não digo que seja tudo simulacro - há, evidentemente, uma base real para esse espectáculo, diariamente transmitido pelo Carlos Fino.
Mas hoje a regra é que todo o simulacro tem uma base real - para o tornar verosímil - e todo o real se expande em simulacro.
Se a Rússia tem interesse em estender a mão à caridade ocidental, o Ocidente capitalista tem maior interesse ainda em mostrar o Caos que por lá vai, a prova d«o fracasso do comunismo».
É assim muito difícil saber até que ponto as imagens vindas hoje daquele lado traduzem a realidade e que percentagem dessa realidade traduzem. No geral, está provado e assente que os media ocidentais vivem do «sindroma pânico».
Leia-se o semanário «Tal & Qual» e desde a ponte sobre o Tejo que está com fissuras na estrutura, até aos autocarros laranjas que voltam outra vez a matar peões, até ao eterno vírus da sida que ataca por todos os lados o pobre cidadão indefeso, esse jornal - como tantos outros - sabe que o medo faz vender papel e parece um boletim de publicidade às companhias de seguros.
Como seguros e bancos são nomes diferentes para a mesma coisa, parece não estar muito longe a ideia sobre o modo como o medo, o pânico, a insegurança, o perigo, insistentemente cultivados, noticiados, enfatizados, criam o estado de espírito necessário para que as seguradoras (e portanto os bancos seus filiais amigos...) prosperem.
De um ponto de vista psicopolítico, é óbvio que a insegurança serve bem o Poder estabelecido. Mais inseguro, o cidadão fica na dependência do primeiro protector salvador que lhe aparecer. O susto é politicamente relevante e rentável. O Susto - tal como o Crime - compensa. A Angústia é rendosa e rentável.
Há jornais e telejornais que não vivem mesmo sadomasoquisticamente de outra coisa: explorar o Medo, os medos vários em que estamos atolados, apertar-nos a boca do estômago parece regra inviolável para todos os dias nesta sociedade de violência e canibalismo. Quando não são imagens do dia a dia, são subhitchockianas ficções romanescas de suspense e medo pré-fabricado. Tudo vai dar ao mesmo: mais clientes para as companhias de seguros. ™™™