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AC À SOCIEDADE PORTUGUESA DE NATUROLOGIA

 

Lisboa, 13/Junho/1996

Exmª Direcção da SPN

Recebi a vossa cartinha, que muito agradeço. Estimo que estejam todos bem, que eu bem felizmente, mais a minha família.

A vossa carta deixou-me feliz por variadas razões:

Sendo maioritariamente de senhoras - viva o matriarcado - é natural que o instinto maternal relativamente à minha pessoa se manifeste de maneira tão carinhosa.

É verdade que da actual e distinta direcção só conheço 3 pessoas: o Jorge, bom rapaz que tão boas sopinhas me tem dado nos jantares conviventes do Dr. Cardoso; a Palmira/Palmirinha que me tem dado também coisas maravilhosas - como o meu adorado gato Félix - mas também as maiores secas que tenho suportado na minha vida em nome da causa naturo-vegetariana; a drª Adelaide Carvalho que conheço dos editoriais floridos e primaveris que, modestamente anónima, escreve para o boletim da SPN, e também dos muitos congressos de Bratislava a que regularmente vai.

Mas se é verdade que só conheço 3 pessoas na actual e distinta direcção, isso não impede que não venha a conhecer melhor o distinto elenco.

Acho, aliás, que seria mais quente e vivo, mais claro e cristão, terem-me chamado à pedra em reunião de direcção - para me darem conhecimento em directo e olhos nos olhos da vossa hostilidade.

Já sei que tenho a minha cabeça no cepo para ser expulso da SPN em assembleia geral de 7 presenças. Não tenho mesmo feito outra coisa senão provocar e pedir essa expulsão. O que seria, para a futura campanha eleitoral que se avizinha, o melhor argumento político para que a minha minha lista A ganhasse.

Mas esta vossa cartinha vai-me igualmente ser preciosa para o efeito de campanha.

Aproveito o selinho desta carta para comunicar que, em matéria de perigos pendentes e iminentes sobre a SPN, está um que particularmente inquieta alguns sócios mais responsáveis. É o facto de um homeopata «vender» produtos: o caso chegou à APIFARMA (ou à Infarmed) e à Ordem dos Médicos, duas organizações humanitárias que não são para brincadeiras, quando se trata de lhes mexer nos bolsos nem que seja com um tostão.

Humanitário seria, aliás, que se avisasse quem de boa fé ainda não foi avisado do perigo que corria e fazia correr à SPN. Mas como a actual direcção está muito mais ocupada e preocupada em perseguir o sr. Afonso Cautela e as suas práticas de «bruxaria» radiestésica (sem se preocupar com outras bruxarias que aqui se praticam) é provável que nem sempre chegue a tempo de evitar, neste triste caso, o pior desfecho.

Em matéria de fiscalização e cuidados a ter, aliás, há uma lista de coisas que são necessárias para perfeito esclarecimento da actual situação da SPN, onde o mesmo poder, anos a fio, gerou necessariamente situações pouco claras.

Se a direcção, em vez de me ignorar e/ou perseguir, tivesse tido comigo a mínima atenção que eu exijo - como dos sócios mais antigos desta casa, ao lado do venerável Cardoso, era capaz de ter sido melhor para a SPN.

Aproveitando também o selo, queria dizer que tenho dezenas de questões sobre as quais, como sócio proponente de uma lista, tenho o direito de ser informado e que exijo, em prazo muito curto, ser informado. Em directo e sem burocracias de papelinhos para cá e para lá.

Quero que a Lista A seja tratada em pé de igualdade com a lista B que me consta a direcção vai «ter que propor» às eleições, porque a D. Palmira Bastos Ferreira assim o ordena.

Falando com a presidente da direcção de alguns pontos, fiquei exactamente na mesma: continua apenas o mesmo propósito de me irritar e provocar com questões menores, para que as questões de fundo fiquem por tratar e resolver.

Nada é claro, nunca, nada é explícito, tudo o que respeita à vida da Sociedade é sempre a eterna nebulosa que há pelo menos 6 anos conheço mais de perto, desde que de mais perto convivo com a digníssima presidente.

De claro, apenas soube que o famoso - e imprescindível regulamento interno da SPN - está inacessível, com a eterna desculpa que já me acostumei a ouvir e em que a presidente é mestra, de que...desapareceu.

Muita coisa desaparece nesta casa nos momentos críticos, quando afinal há sempre tanta preocupação em aferrolhar bem aferrolhado e a sete chaves outras coisas.

Enfim, agora que, com todo o vosso amor maternal, me desataram a minha língua viperina e o meu ódio, sem coragem para o fazer olhos nos olhos e frente a frente, desafio a distinta e actual direcção para uns papos muito agradáveis sobre o muito que eu tenho a dizer, como sócio (ainda), observador dos malentendidos (para não dizer «podres») que tão acarinhados têm sido por quem detém ininterruptamente o poder absoluto nesta casa há uma boa década.

E se me permitem um conselho maternal, já agora, especialmente à Palmirinha, que adoro e respeito, porque me deu o meu adorado gatinho Félix:

«Não levem estas coisas políticas e financeiras da SPN tão a peito: a vida é mais e melhor do que dar lucros à SPN. E os lucros devem ser investidos não em mais matéria, para reproduzir mais matéria, etc. mas em espírito, sempre mais espírito.

Pelas doenças de que vejo as pessoas padecerem, acho que estamos a precisar na SPN é de um banho de energia espiritual, pois de matéria é demais e já chega.

Afonso Cautela