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Posted by Big-Bang - terça-feira, 21 de Outubro de 2003

Retrovisor (1978-1999) ->Day by day
21 anos de memórias

<78-10-21>

<flúor-1> ensaios de ecologia alimentar

MUDA A TEORIA

CONFORME O NEGÓCIO (*)

(*) Publicado no semanário «Gazeta do Sul», 21/10/1978

21/10/1978 - Conforme a indústria e os lucros que serve, a ciência tem, para o mesmo fenómeno, uma teoria diferente.

Desgostosa de ainda não ter inventado um vírus para o cancro, eis que o problema já se encontra resolvido para a cárie dentária, hoje endémica nos países ditas desenvolvidos e bem alimentados.

Segundo o último número do «New Scientist» (o primeiro a dar as últimas), a cárie é interpretada desta vez para servir a indústria da vacina: investigações levadas a cabo nos últimos vinte anos (como são persistentes estes cientistas) teriam descoberto (heureca!) que se trata, na cárie, de uma infecção causada (sic) por micróbios aglutinados à superfície do dente - a placa dentária.

Para dar verosimilhança à descoberta e ao bruto esforço laboratorial despendido, inventou-se logo um nome rebarbativo: a bactéria streptococus mutans (a ciência é formidável nos palavrões!) seria a principal causadora da ruína dentária das arruinadas criancinhas dos países ricos. Essa maldita streptococus mutans transformaria a sacarose numa substância adesiva, insolúvel, que lhe permite fixar-se no dente onde produz (sic) o ácido prejudicial à parte esmaltada.

As laboriosas experiências de vinte anos foram efectuadas com macacos «rhesus», a ver se se encontrava a vacina! E, como não podia deixar de ser, encontrou-se. Comercializou-se. Generalizou-se. Mais uma, heureca!

Embora a vacina, para já, provoque sérios efeitos cardíacos, a medicina não vai hesitar em aplicá-la às criancinhas. Se lhes aplica coisas bem piores! Se as deixa cariar os dentes sem aconselhar, uma só vez, que modifiquem os estúpidos hábitos alimentares, muito melhor lhes vai aplicar a vacina que provoca doenças cardíacas. A medicina não hesita. Mas quem leva roda de cavernícola sou eu, querem ver?

Há, entretanto, uma duplicidade que surpreende: isto para não lhe chamar vigarice ou burla, não vão logo gralhar-me a prosa.

Como todos sabem, há outra teoria para explicar a cárie, a qual teoria afirma que é a falta de flúor responsável pelos dentes podres das pobres criancinhas. Essa outra teoria não fala de bactérias nem de «cocus»! Aponta para faltas ou carências. A cárie, segundo esta teoria nº 2, seria uma doença de carência (curioso que para a teoria n.° 1 seja uma doença bacteriana...): a causa estaria na falta de flúor.

Não se pense que a medicina vai dizer aos pais das criancinhas o que hão-de elas comer para não ter falta de flúor: seria demasiado simples e não iria alimentar nenhum negócio especial. Vai, isso sim, dizer aos produtores industriais de flúor para fluorizar as águas de beber...Mais e melhor: ilustres benfeitores da humanidade já preconizaram que se lançasse flúor na água da companhia.

Se julgam que fui eu a inventar esta anedota, lembro que a imprensa noticiou, em Maio de 1978, a grande novidade: a população da Covilhã iria servir de «macacos rhesus» à experiência que a Organização Mundial de Saúde ali queria levar a cabo, fluorizando as águas para abastecimento público, «por forma de evitar o aparecimento da cárie dentária».

Os benefícios do S. N. S. começam já a sentir-se na Covilhã.

A notícia logo pormenorizava:

«Estes trabalhos têm particular oportunidade, dada a falta de flúor nas águas da região, segundo informou o Eng.. Peixoto Duarte, director-delegado dos S.M. da Câmara Municipal da Covilhã.»

Para estes trabalhos com cobaias vivas, o Prof.. Dr. Martella, perito da O. M. S., já andaria a rondar e teria ido já, de dente afiado, à Covilhã, tendo ficado encantado com os macacos «rhesus» desta magnífica experiência «in vitro».

Desde 1933, na Alemanha Nazi, nunca vira outra tão perfeita.

Para um professor doutor da O. M. S. há sempre um senhor engenheiro e uma população que funciona de macaco.

Viva a Ciência e viva a Medicina!

- - - - -

(*) Publicado no semanário «Gazeta do Sul», 21/10/1978

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<81-10-21>

<trabalho-4> os dossiês do silêncio – ideias para o novo milénio – ecologia e trabalho –IV - inéditos ac de 1981

 

ENTRE A ESPERANÇA E O APOCALIPSE

24/10/1981 - Já apontámos aqui de que maneira o trabalho se relaciona com o Meio Ambiente e porque é, portanto, também um problema ecológico.

A fisiologia da pessoa humana que reage às condições do Meio Ambiente não é, no entanto, o único aspecto a considerar.

A maneira como o trabalho ou os conflitos de trabalho determinam uma cadeia de efeitos em recíproca interdependência, reproduz de maneira flagrante o modelo de relações que encontramos num ecossistema.

A maneira como todo o tecido das relações sociais é afectado pelas vibrações produzidas em determinado ponto, faz-nos lembrar um verdadeiro ecossistema, quer dizer, uma série de elementos em sustentação recíproca e simultânea.

Se o fenómeno ecológico se caracteriza pela interdependência simultânea de vários factores, podemos considerar um conflito laboral e suas múltiplas consequências no tecido social como um problema de Ecologia Humana.

EXEMPLOS DA ACTUALIDADE

Mais uma vez vamos recorrer a exemplos colhidos na actualidade mundial.

Uma luta muito recente dos trabalhadores franceses vem pôr em foco as relações da Ecologia com os mais graves problemas da vida e da sobrevivência humana. Entre os quais se contam, evidentemente, os problemas do trabalho.

Como se sabe, o programa que levou o novo governo francês à vitória nas últimas eleições, previa, no campo energético, medidas imediatas que iriam restringir as centrais nucleares.

O programa teve o apoio da maioria e, portanto, o governo ganhou.

Curiosamente, mal se começa a pôr em prática a redução do Parque Nuclear Francês, os trabalhadores que se encontram aí ocupados, reagem de maneira enérgica.

O que se verificou com a central de Catteton, no Leste da França, a alguns quilómetros da fronteira com o Luxemburgo, é bastante revelador do que poderá alastrar às outras centrais em construção.

Os manifestantes, apoiados pelo Sindicato CGT, retomaram o estilo das lutas no campo siderúrgico ao longo dos últimos três anos. Greve em todo o estaleiro, bloqueio do comboio Luxemburgo-Zurique, vagões de carvão despejados, estradas bloqueadas.

Note-se que, entretanto, outra central sindical, a CFDR, que sempre apoiou o programa socialista de desnuclearizar a Franças continua fiel a este programa e não apoia portanto as manifestações da CGT que pretendem a intensificação do programa electro-nuclear, até à fase dos sobre-regeneradores.

Como se vê, portanto, este conflito de características inéditas no campo da luta anti-nuclear, levanta uma questão muito curiosa ao estudioso da Ecologia Humana.

Uma questão de vida e de sobrevivência. Uma questão de qualidade de vida. Uma questão ecológica.

Vejamos atentamente os dados da situação.

Enquanto o governo de François Mitterrand procura reduzir o número de centrais nucleares, congelando a construção de algumas e anulando outras em projecto, enquanto esta medida é tomada, não só em cumprimento de um programa que o eleitorado sancionou votando nele em maioria, mas em nome da vida e da qualidade, da segurança e portanto dos supremos direitos e interesses de toda a população, eis que os trabalhadores, ligados aos estaleiros das referidas centrais, reagem de maneira enérgica contra esses propósitos de melhorar a vida em geral, por considerarem que é a sua vida e os seus interesses de trabalho que vão ser lesados.

Sentem-se prejudicados e encetaram greves para protestar. O grande argumento invocado pelo sindicato que apoia os grevistas é, evidentemente, o desemprego.

O DESEMPREGO

A desocupação tem, na sociedade industrial, duas acepções aparentemente antagónicas.

Se é desemprego, considera-se dramática. Não há - diz-se - qualidade de vida sem emprego certo.

Mas se é tempo livre, se é férias, considera-se um direito fundamental do trabalhador e todos evidentemente o desejam.

Em qualquer dos casos, o que nos interessa sublinhar é que o tempo de trabalho e o tempo livre são temas profundamente ligados à Ecologia Humana.

Os ócios, o trabalho criador, a forma como as cadências e as cadeias de montagem permitem ou não permitem uma relação rítmica do homem com a sua actividade, tudo isto são problemas que relacionam o ser vivo com o ambiente que o condiciona.

Também a liberdade e a dignidade das pessoas anda muito ligada ao meio de trabalho que as cerca.

Por sua vez, o próprio rendimento da sua actividade depende de factores físicos como a luz, a temperatura, a posição, o arejamento.

Falar de trabalho é falar fundamentalmente de um problema ecológico.

A polémica que se está a verifica r em França sobre a indústria nuclear tem ainda outros aspectos que interessam a um curioso da Ecologia.

Enquanto, até agora, os trabalhadores se aliavam normalmente aos grupos e comités de luta anti-nuclear, nos mais diversos países, enquanto o Poder contrariava essa luta, eis que se assiste, em França, ao inédito e ao insólito: enquanto o Poder luta para acabar com as centrais nucleares, eis que os trabalhadores se opõem por óbvias e justas razões de emprego.

COMO SAIR DA CONTRADIÇÃO

Como sair desta contradição é o problema que actualmente se coloca aos responsáveis pela política energética francesa.

Tanto mais que os grupos do movimento anti-nuclear reacendem também as suas batalhas.

Uma das mais renhidas travou-se, mais uma vez, perto de La Hague, que é como se sabe o grande centro de reprocessamento de combustíveis irradiados, situado na Península da Bretanha, perto do porto de Cherbourg.

Em La Hague convergem cargas de combustíveis irradiados transportados de vários países, nomeadamente o Japão.

Um armazém ou cemitério de resíduos como o de La Hague põe problemas de segurança verdadeiramente colossais.

É natural que os ecologistas tenham feito de La Hague um alvo predilecto da sua luta.

Com La Hague é toda a Europa que está em risco de se fundir. Isto sem falar já do risco que há, iminente, quanto às toneladas de resíduos radioactivos transportadas pelo mar. Basta pensar num dos muitos acidentes com navios cargueiros que todos os dias acontecem.

O último navio que chegou ao porto de Cherburg transportava trezentas toneladas de combustíveis irradiados provenientes do Japão.

Brice Lalonde e uma centena de militantes defrontaram-se com as forças da Polícia, quando tentavam impedir o desembarque dessas 300 toneladas de resíduos radioactivos.

De um lado, há confrontos dos que lutam pela vida contra o Plutónio fabricado em La Hague.

Do outro lado, há confrontos dos que lutam pelo emprego e querem portanto que as centrais nucleares continuem a proliferar.

Uns visam o médio e o longo prazo.

Outros, o imediato.

Uns trabalham para que a geração de amanhã ainda tenha um bocado de Terra habitável.

Outros trabalham para manter o seu nível de vida e de consumos.

A grande opção está aí, na encruzilhada, entre a vida e a morte, entre a esperança e o apocalipse.

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<90-10-21>

<amorodio> - euesquiso - diário de uma depressão - [manifesto pessoal contra os clássicos

frutos da minha depressão - discurso em terra de ninguém - nem versos no registo da neutralidade - nem diário idearístico - discurso em «eu» descarnado]

«OS DIAS DO ÓDIO»

 

{que data? um pós 25 de abril ainda muito ligado às leituras surrealistas}- 21/10/1990 - Sei o que sou:

membro gangrenado de uma cultura à prova

só corpo e corpo doente

o que foge, o que se está nas tintas

o que desiste antes de começar

o que levou, leva e levará porrada

como o álvaro de campos

o da dificuldade

o da transpiração (nunca da inspiração)

o que odeia

com ódio líquido, extralúcido e exaltante

os que (só) têm o ódio por companhia

mas não amo o ódio

odeio os que odeiam o amor

Falar claro e mijar direito foi o meu lema

a respeito de literatura também

por isso digo o que penso e escrevo o que digo

em literatura como no resto

é necessário estar contra a reacção

e que formas assume a reacção literária!

De maneira que a esse respeito

informo e proclamo:

merda para os clássicos, o Parténon, a Ilíada e as catedrais góticas

merda para a grande literatura e a literatura dos grandes

merda para o talento inextinguível do Hegel e a dialéctica

do Husserl e a fenomenologia do Heidegger

merda para o Tolstoi da guerra e paz

o Dante da Divina Comédia

o Balzac da Comédia Humana

o Hugo dos Miseráveis

o Gard dos Thibault

o Neruda do Canto Geral

o Camões dos Lusíadas

o Shakespeare do Hamlet

o Aragon dos comunistas

o Padre Vieira dos Sermões

merda para os génios cultivando os géneros

para o romance dos sete fôlegos

e das sete regras

e das sete musas

para os tratados sobre o ser e o nada

sobre o nada e o ser

sobre a vida e a morte

sobre a morte e a vida

para os folhetins e a fertilidade das imaginações

para o génio e o cotovelo do génio

-merda.

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1-3 < 90-10-21-ls> leituras selectas

<tibet>

*) «A Arte de Curar no Budismo Tibetano - A Cura do Diamante» , Drª Terry Clifford, Editora Pensamento, São Paulo

 

21-10-1990

Se é verdade que o maior progresso da psicofarmacologia moderna, o primeiro grande tranquilizante, veio da pesquisa experimental, em laboratórios do Ocidente, sobre a «Rawolfia Serpentina», planta usada há séculos na Índia no tratamento da loucura, este indício pode sugerir o tipo de relações actualmente existente entre a medicina alopática moderna e os sistemas ou artes de curar mais antigos, como o chinês(acupunctura), o hindu (ayurveda), o helénico (hipocrático), para citar apenas as três grandes correntes de fundo que confluem na medicina sagrada tibetana.

A espionagem operada sobre estes sistemas por parte dos laboratórios ocidentais, deve continuar activa e livros como o de Terry Clifford, « A Cura do Diamante» (*), são um manancial precioso para esses espiões de laboratório, embora cultural e editorialmente (ou por isso mesmo) convenha que livros como este passem despercebidos.

Aliás, não sei se ingenuamente, a autora convida os industriais do Ocidente ao estudo aturado dos tantras médicos, para o que têm apenas que aprender a língua tibetana: « Os tibetanos - escreve ela - desenvolveram vasto campo de psicofarmacologia e têm um número enorme de medicamentos psiquiátricos, nenhum dos quais já foi identificado ou experimentado cientificamente no Ocidente.» Ora aí é que a Drª Terry naturalmente se engana: os serviços de espionagem médica não costumam tornar públicas as suas investigações laboratoriais e actividades farmacêuticas, até por causa da concorrência que é, tudo indica, feroz. A secreta e laboriosa pesquisa a que os laboratórios ocidentais se dedicam de toda a ciência e arte milenária de curar, é aspecto de que a autora - não sei se ingenuamente - só levanta uma pontinha do véu, como se percebe pela transcrição antecedente. Não são os aspectos parcelares, acidentais e tecnológicos ( o chamado receituário) destas artes o que a ciência ocidental rejeita mas sim a essência da arte, o espírito que a inspira, aquilo que não pode copiar nem estropiar à vontade. Aquilo que não percebe.

OS APROVEITADORES

Apesar de ter esmagado a maior parte da cultura tibetana, a China comunista continua a importar dos Himalaias grande quantidade de medicamentos fitoterápicos, feitos nas altas montanhas do Tibete conforme manda a tradição. Ainda que rejeite o melhor - o sistema global onde esses «específicos» se inserem, onde fazem sentido e onde resultam a cem por cento - a China comunista faz como o Ocidente comercial e capitalista: serve-se da parte (da casca) e deita fora a polpa (o fruto). Quer dizer: instrumentaliza. Serve-se. Usa. Há outra palavra, muito usada nos bares do Cais do Sodré, para designar esta prática, mas não vale a pena escrevê-la aqui.

Subdividindo - «para finalidade de estudo» diz ela - a medicina tibetana em «dármica ou religiosa, tântrica ou ióguica e somática ou comum», a Drª Terry não deixa de asinalar, porém, o artifício dessa divisão, já que «as três categorias se integram na prática real.» De facto e por mais que se subdivida, por razões metodológicas, a arte de curar tibetana permanece indivisível, íntegra, holística, conforme vem mostrar a Lisboa, em visita de surpresa, o médico-chefe da equipa do Dalai Lama, Dr. Tendzin Chodrak, ontem chegado ao aeroporto da Portela. E permanece íntegra, una, por uma razão física muito simples: a filosofia que a ilumina e de onde parte, começa por não separar nada, considerando, num apriori óbvio, que tudo é energia, para lá das dicotomias ocidentais entre espírito e matéria. As dicotomias da filosofia ocidental nunca existiram nos sistemas iniciáticos como o da medicina tibetana. Por isso não há necessidade de reunificar o que nunca foi desunificado.E por isso os maiores êxitos terapêuticos dos médicos tibetanos ocorrem no domínio chamado «psiquiátrico».

Esta concepção unitária do universo e da vida é que é o mais difícil ou mesmo impossível de compreender pelos analistas do Ocidente, de formação incuravelmente dualista. Doença esta que nenhuma arte de curar - tibetana, chinesa, hindu ou helénica - conseguirá curar.

CHINESES SABEM CHACINAR

Quando os chineses, atacados dessa terrível blenorragia que é o dualismo à ocidental, ocuparam brutal e violentamente o Tibete, em 1959, cem mil tibetanos que conseguiram escapar à chacina foram para o exílio, figurando entre eles grandes lamas mas poucos médicos. Apesar de poucos, eles fizeram a diáspora e o mundo foi tendo conhecimento de que a ciência não chega aos calcanhares da sabedoria. Em matéria de corpo humano, então, não chega sequer ao tornozelo. «Havia afinal mais mundos» como diz o poeta. Que estão agora aí nas nossa mãos.

CURAR É LIBERTAR (DESCOLONIZAR)

A maior acusação que se pode fazer às medicinas iniciáticas como a tibetana é que elas remetem para o doente a principal responsabilidade de cura, isentando de culpas o clínico, que se limita ao papel de professor de saúde. Quem quiser que aprenda a lição, quem não quiser que vá prá faca.

Como diz a drª Terry Clifford, neste estudo que foi sua tese de doutoramento em Psicologia e Religião, «a prática da medicina do Dharma de Buda depende dos nossos próprios esforços do reconhecimento da impermanência, do controle da mente e da diminuição do anseio». Sabendo que responsabilidade é sinónimo de liberdade, esta responsabilização do próprio paciente significa a sua libertação, o que é exactamente o contrário do que faz a medicina colonial em vigor, que põe em total toxicodependência do sistema o doentinho imprecavido. Deve-se, não à caspa mas a este facto, unicamente a este facto - liberdade é responsabilidade - o grande êxito da medicina moderna ocidental e o olho vesgo que ela deita às medicinas eternas. Trocando por miúdos, quer dizer portanto que na «alienação» moderna (tal como o sentido psiquiátrico da palavra «alienado» ainda prova...) reside a raiz da questão terapêutica, que aplicada ao colectivo se chama política. Na qual questão, « libertar» ou «descolonizar» ainda não deixou de ser a palavra de ordem.

A RESERVA ETNOLÓGICA

A provar a sua diabólica perenidade, a medicina tibetana resiste inclusive às incursões «etnológicas» da Drª Terry Clifford que, colocada na perspectiva da sua especialidade universitária - «etnopsiquiatria - , deforma com essa postura a actuante actualidade deste sistema terapêutico. Segundo a autora, «o vasto campo da literatura médica tradicional, sua enorme farmacopeia, seus métodos de diagnóstico e tratamento, seus princípios éticos e seu suporte filosófico e psicológico» contribuem para «a história da medicina, da antropologia médica e da etnopsiquiatria». Esta catalogação etnológica, não só permite a uns maduros fazerem com a ajuda dos «media» o congresso de Vilar de Perdizes - destinado a identificar medicinas heterodoxas com bruxaria - como tranquiliza muito boa gente do tecnoterror estabelecido. Mas não diz a verdade toda, aquilo que a drª Terry designa por «praticabilidade da medicina tibetana». De facto, é a actualidade prática e actuante das tecnologias holísticas de vida e de saúde que interessa acima de tudo sublinhar. Irrita o negócio mas é verdade. Face à impraticabilidade crescente das tecnologias alienantes e desapropriadas da alopatia moderna, o que está em causa no renascimento de sistemas como o taoísmo, a acupunctura, o ayurveda, a fitoterapia tibetana - tudo aquilo a que a própria OMS apela e com urgência na campanha de saúde para todos no ano 2000 - é a sua profunda adequação ao ser humano, a sua indesmentível eficácia e a sua plena funcionalidade, já, no mundo actual. Não são peças de museu etnológico, como boa a rica gente desejaria, mas técnicas (algumas de rigor geométrico) que estão para as curvas e para as curvas difíceis.

Se nos é lícito lembrá-lo, o adjectivo «holístico» colocado junto destas técnicas tradicionais, vem da Idade Média europeia e da tradição astrológica mais genuína. Quando se constata que o que está em baixo é igual ao que está em cima, quando se retoma a unidade homem/natureza, micro/macrocosmo, a concepção holística do homem e portanto da medicina, renasce. Com a ajuda da grande medicina tibetana que está aí à porta, vai crescer robusta, saudável e sem complexos.

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(*) «A Arte de Curar no Budismo Tibetano - A Cura do Diamante» , Drª Terry Clifford, Editora Pensamento, São Paulo

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<96-10-21-iv> interlocutor válido, procura-se

<armindo1>

 

[ texto parcialmente censurado]

 

CARTA A UM TRAIDOR

21/10/1996

Eng:

Entre as secas dos da ciência ordinária e as secas dos chamados místicos, assim se passam e queimam as nossas vidas , num desperdício de energias que, por si mesmo, é o maior sinal da decadência em que caímos neste fim de século e de milénio, a que uns chamam kali yuga, outros era zodiacal dos peixes, outros progresso, outros virtual-e-caos.

Uma das secas a que os da ciência profana e os das chamadas artes místicas nos submetem, como se tivéssemos que expiar as mil culpas deles, uma das secas mais frequentes é precisamente a das nomenclaturas.

Babel está cada vez mais actual, aumenta com os desenvolvimentos do virtual , os simpósios realizados nas universidades (ou nas associações de comerciantes) já fazem pegas de caras com o sagrado e são cada vez mais delegações dessa famosa torre bíblica de babel.

Cada um na sua gíria

cada um no seu calão

cada um no seu dialecto filosófico

cada um na sua especialidadezinha

cada um no seu quintalinho (casulinho)

e aí temos nós a algaraviada de vários cacarejos académicos a que os signatários, muito pomposos e muito senhores dos seus umbigos e narizes, chamam

a minha ciência

a minha arte

a minha especialidade

a minha carreira

Queria dizer-lhe que admiro o seu discurso , por si mesmo, mas também porque é o único fio de Ariadne que podemos encontrar por aqui nestes babélicos e labirínticos percursos com que os místicos das artes e os paranoicos da ciência (ordinária) nos maçam a paciência.

O que eu lhe quero dizer é que a sua via de pesquisa (NOOLOGIA) é a única via de:

a) Escapar à babel das linguagens específicas

b) Ultrapassar as barreiras colocadas no coração humano (sede central do universo e não, como diz a ciência ordinária, o cérebro) por ciências, religiões, ideologias, sistemas, técnicas

c) encontrar o fio de ariadne que nos oriente no labirinto da existência e, desde já, no da eternidade.

A via das energias (da NOOLOGIA) é a via capaz de fazer a distinção fundamental no nosso tempo de confusão, entre:

a) Ciências sagradas

b) Ciências profanas (que neste momento são apenas ciências ordinárias).

Este é o ponto de onde teremos que partir e que alguns , por o terem percebido já, têm maior responsabilidade de fazer vingar num prazo relativamente curto.

Estamos, de facto, em contagem decrescente para o abismo da autodestruição e a verdade é que não temos muito tempo para :

a) evitar a catástrofe

b) MUDAR

A minha campanha , desde que estudo o método de Etienne Guillé, é de facto aprender a mudar e ensinar o que for aprendendo aos outros. Agora na pré-reforma, vou aproveitar para intensificar a campanha.

E vou fazendo , no meu cardfile do windows, 2 listas (adoro listas) :

a) uma lista com aqueles compatriotas que nos ajudam a mudar e que , mesmo ocupados, nunca se negam a colaborar com as forças do progresso

b) uma lista interminável com aqueles outros que estão sempre superocupados, com 10 telefones de volta, e que são

os grandes atrasos de vida

os grandes chatos

os abutres e orangotangos da ciência ordinária

os vampiros e parasitas das artes ditas místicas.

*

É o momento de lhe confidenciar o meu último e mais estrondoso fracasso (fiasco) nesta mania de separar o trigo do joio em matéria de Noologia.

Em Junho de 1996, o Reinaldo Baptista , director da Escola Superior de Biologia e Saúde encarregou-me de uma tarefa interessante.

Tratava-se de organizar para a Escola dele um curso de ciências parapsicológicas (assim resolvemos baptizá-lo em função das forças dominantes neste momento).

Como o eng. sabe, é uma das portas (falsas) por onde o conhecimento do essencial (sagrado) se pretende fazer passar.

Percebi o truque mas aceitei o desafio, perfeitamente consciente de que com este establishment feito de truques só com truques se pode lidar.

Foram 3 meses em que meti dezenas de files em computador, comprei livros que nunca pensara comprar, escrevi cartas, combinei encontros, fiz telefonemas - enquanto Reinaldo fazia suas férias.

Quando regressou, não chegou a poder falar comigo 5 minutos - porque sabe como são as pessoas vip superocupadas. Vem a secretária, vem a outra secretária e pimba. Nessa altura, choviam os telefonemas - diziam-me - e já a parapsicologia era, na vox populi , confundida com bruxaria.

Abreviando : depois de um tratamento e convite VIP, fui enxotado como um cão. O problema é que já tinha em marcha o dito projecto de um CURSO DE CIÊNCIAS SAGRADAS embora sob o disfarce do mot de passe «parapsicologia». E não vou desistir dele.

É a notícia que lhe dou a si e que irei dando às pessoas da tal pequena lista de pessoas a sério neste país a brincar.

Pessoas que, em número de 12, serão aquelas que irão constituir o corpo docente desse tal curso de ciências sagradas (NOOLOGIA) que comecei a organizar e de que não vou desistir.

Há-de haver uma escola superior (das muitas que proliferam) que aceitará com certeza este curso quando ele já estiver em fase irreversível de não escandalizar as ratazanas e os macacos do costume, incluindo governo socialista e social-democrata.

O meu plano mais imediato para levar o projecto de ciências sagradas (Noologia) em frente é o seguinte:

Um grupo inexpugnável de 12 fiéis que em regime de forum/seminário, reunam regularmente para:

a) estudar até ao pormenor o estabelecimento deste projecto

b) dividir tarefas de especialização na área da noologia , cada um em uma área das 12 áreas das ciências sagradas.

Desculpe a linguagem escatológica mas está biblicamente de acordo com os tempos.

Afonso Cautela

 21 /Outubro/1996

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<99-10-21>

<sdfc-1> sem data fase crítica ANOS 60?

 

O HOMEM, ESSE ANIMAL METAFÍSICO

(Para localizar data deste texto, ver ensaio escrito quando ele morava, efemeramente, em Algés e devidamente dactilografado a limpo sobre a metafísica . Era ainda o tempo em que ele utilizava muito, a propósito de tudo e de nada, a alegoria do poeta, às vezes vocativo... Era o tempo do franco-atirador e do discurso supostamente independente e crítico - outra palavra constante nos textos da época, que por isso classificarei de crítica, de fase crítica... Era o tempo das enfáticas maiúsculas para as palavras poesia e crítica mas também para as outras «grandes palavras» da época: dialéctica, liberdade. Era o tempo de chamar sistematicamente homem ao ser humano. Mas era também o tempo, que pode ser o de hoje, 8 de Agosto de 1999, da revolta contra a ciência, a tecnologia, o dogmatismo ideológico )

A ciência, usurpando cada vez mais e maiores zonas do humano social , a este circunscreveu o homem, deixando em descrédito e pondo a ridículo, pelo golpe positivista com as arlequinadas da metafísica e dos profissionais da metafísica.

O poeta apercebeu-se então que lhe competia substituir no coração do homem a satisfação da necessidade religiosa que os metafísicos profissionais e as igrejas instituídas já não satisfaziam e nunca mesmo satisfizeram.

Se o poeta contava, desde sempre, com a aversão do homem positivista, ela recrudesceu ao investir-se o poeta da missão de mediador entre o homem e um absoluto.

Quando a metafísica oficial e canónica, dogmática e oracular caiu em descrédito, a (literatura que é) poesia, sempre pronta a sintonizar os mais profundos movimentos do humano, satisfazia, no «animal metafísico» que é o homem, a necessidade de criar formas míticas evoluídas.

A ciência julgara matar o que a (literatura enquanto) poesia ressuscitava. Substituindo a lógica dos sistemas, a sistemática das filosofias, a didáctica das dialécticas, a (literatura enquanto) poesia instaurava, sobre a civilização técnica, positivista racionalista, a civilização ou religião da liberdade.