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Posted by Big-Bang -quarta-feira, 15 de Outubro de 2003

Retrovisor (1957-1996) ->Day by day
39 anos de memórias

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COM A INDIFERENÇA CÍNICA
QUE LHES É PECULIAR

15/Outubro/1968 - Com a indiferença cínica que lhes é peculiar ao abordarem os temas da morte e da vida sobre o globo terrestre, raro é o dia em que as agências noticiosas internacionais não anunciam «novos tratamentos» do cancro, que ilustres investigadores de vetustas universidades ou institutos, largamente subsidiados, estão em vias de conseguir, de inventar.

Uma das maiores angústias que rondam a humanidade de hoje é assim motivo de especulação gratuita, pois do mesmo jeito que se preenche o espaço dos jornais, alicia-se o leitor com esperanças e promessas de cura e alimentam-se, no doente, ameaçado de morte, falsas esperanças de cura para amanhã e depois de amanhã.

O que as notícias das fontes geralmente bem informadas dizem é a autêntica e séria possibilidade de cura que a mais antiga sabedoria aconselha e o mais poderoso bom senso receita: não é preciso diploma em medicina para saber das curas que uma alimentação científica (racional) pode operar nesses e noutros casos considerados incuráveis pela medicina oficial, mas é preciso saber como funciona a informação e seus órgãos para perceber como e porque se ocultam com grandes mentiras as pequenas verdades que aos homens interessaria conhecer para sua saúde e felicidade.

Ao contrário do que as mirabolantes notícias deixam perceber, esperanças (de as há) de cura para o cancro não estão nos laboriosos laboratórios que, gastando rios de dinheiro, só anunciam malogros, mas nas curas já efectivadas e na recuperação permitida pelas práticas simples da terapia natural.

Entre o desespero pago a pronto todos os dias e a esperança a crédito com que o aliciam, oxalá o leitor escolha a verdade que por nenhum dinheiro a natureza lhe oferece.

Há palavras que não devem ficar esquecidas no silêncio dos livros ou na efemeridade dos jornais. Documentam os tópicos de uma mentalidade que convém ter sempre presente, hoje e amanhã. São afirmações que pela sua imprudente (impudente, também) franqueza, nos desnudam as ideologias que servem. Devem guardar-se, esses discursos, porque espelham uma realidade tão sólida como as realidades materiais e desempenham na história um papel (negativo ou positivo) de idêntica importância.

A uma inteligência laboriosa não passam despercebidas as vozes que, na anarquia das suas manifestações, correspondem, no entanto, a uma vontade comum, às vezes inconsciente, outras vezes de consabida má fé.

Atentos ao que vai no mundo mas principalmente ao que se diz, não se fará com isso o «livro de ouro» da humanidade sem tréguas, a sua monografia cultural ou espiritual, o balanço das suas virtualidades morais e sociais; não se fará da espécie que os zoólogos classificam de humana, um retrato em corpo inteiro mas apenas um esboço do seu perfil...

Tanto basta, no entanto, para alguém se sentir justificado nesta faina de ler, todos os dias, os jornais que também ajudamos a escrever; tanto basta para sentir que o nosso humilde contributo de verdade é, na marcha do tempo, embora pobre, dado de boa fé e de boa vontade, contra a má fé e a má vontade de tantos.

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1-5 <78-10-15-mf>  medicina funcional – 5 estrelas

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MEDICINA ECOLÓGICA

A ARCA DA ALIANÇA

por Afonso Cautela

 

Palavras-chave:

Medicina ecológica

I

15/10/1978 - Se é verdade que naturistas e ecologistas têm em comum o amor da Natureza, mostra a experiência que este vasto e vago conceito «romântico» não basta para definir a posição militante de cada um.

Se há pontos comuns ao praticante da medicina natural e ao militante radical da ecopolítica são, no entanto, numerosos os aspectos que os distinguem e, por vezes, afastam. É pena mas é assim.

O adepto da medicina natural funda os seus mais sólidos princípios terapêuticos em Hipócrates, embora utilize muitos dados da fisiologia e da bioquímica modernas ( que a medicina ordinária também usa).

Se o naturista fala de vitaminas, proteínas, enzimas, etc. , é ainda e sempre hipocrático o seu mais célebre axioma: «A Natureza é que cura.»

«Não há doenças, há doentes» é outro axioma hipocrático que pode conduzir a uma visão causal ( oposta à visão sintomática da medicina moderna) de todos os fenómenos humanos e, portanto, muito próxima de uma visão ecológica, radical (que procura as raízes).

Para Hipócrates e para os ecologistas, a doença constitui sinal, aviso da Natureza para que o homem procure a causa das causas, quer dizer, o meio ambiente que o condiciona, antes, durante e depois de ter nascido.

Perdendo a doença como sintoma, sinal, aviso, lição, o homem perdeu talvez a maior dinâmica da sua evolução cósmica. Daí que os taoístas falem de gratidão à ordem cósmica e de que devemos agradecer à doença tudo o que ela nos ensina, caso, evidentemente, com ela queiramos aprender.

O que de todo não acontece com a medicina e a maior parte dos doentes que a medicina moderna trata.

Forma de gnose nas grandes civilizações solares - que foram também civilizações baseadas no cereal como alimento principal - eis que a doença passou a ser apenas um obstáculo para a medicina, que com ela ganha rios de dinheiro não curando mas prolongando a doença. Quer dizer: multiplicando os sintomas ou efeitos em escalada, em vez de ir às causas ambientais que os determinam e provocam

II

Esta lei da causa/efeito é válida para o corpo humano dos indivíduos e válida para o corpo social das comunidades.

Quando se preconiza uma medicina ecológica, está a dizer-se que é necessário erradicar as raízes da doença, que é, por exemplo, urgente mudar de hábitos e de consumos, alimentares e nem só.

Isto não é utopia, é realismo, uma vez que o dilema, hoje, é precisamente, como os ecologistas da década de 70, proclamavam como slogan e palavra de ordem: « Ecologia ou Cancro, Socialismo ou Morte.»

«Quando vires um homem com fome, dá-lhe de comer mas, logo a seguir, ensina-o a pescar.»

Este é um provérbio chinês, base de uma filosofia que hoje poderíamos considerar «revolucionária» da praxis humana: apenas porque vai às causas da fome daquele que precisa de socorro de emergência. Para que ele não volte a precisar tão cedo desse socorro.

A medicina actual, como se sabe, é o inverso: tornou-se no total e permanente assistanato, na eterna e prolongada dependência do doente relativamente às instituições que o assistem e tratam.

«Diz-me o que comes, dir-te-ei quem és».

Este é um provérbio galego, base de toda uma filosofia ecológica da política. E da economia. E da cultura.

III

Enquanto o vegetariano da escola Castro ou da escola Colucci hipertrofia a importância de um único tipo de consumo - alimentar - o ecologista leva mais longe o conceito de alimento e repara que somos afinal produto de todo o meio ambiente com o qual temos troca de energias: o ar, a água, o clima, a temperatura, o sol, a lua, os astros, a corrente telúrica, o electromagnetismo, o Cosmos, a que os chineses chamam Ki mas a que os ecologistas podem chamar bioenergia, bioritmos, energias vibratórias ou - ainda como os chineses - o SHEN, talvez a palavra que maior conteúdo de informação abrange.

Tudo isso, incluindo os ritmos naturais (a música das esferas) condiciona o comportamento humano e tudo isso é o nicho ou habitat do ser vivo em geral e do ser humano em particular.

O prefixo eco da palavra ecologia significa casa, habitação, nicho, ninho, berço. E não tem nada a ver com prefixo eco da palavra economia...pelo menos da economia que hoje se perfila como o inimigo principal da ecologia e das medicinas ecológicas.

IV

Enquanto românticos e neo-românticos falam da natureza em geral, eis que os ecologistas puxam a primeiro plano um conceito demarcante, um conceito fluido, dinâmico e musical: o de ritmos naturais ou bioritmos, matematicamente preciso. Tão preciso, por exemplo, como o ciclo lunar, onde nem um milésimo de segundo se altera, ou o ciclo dos equinócios a que os astrónomos e astrólogos chamam precessão.

Ecologia, tal como a acupunctura de há 10 mil anos (porque deverá ser esta, pelo menos, a antiguidade da acupunctura) é a matemática mais rigorosa que já houve sobre a terra. Baseada nos ritmos naturais.

É pena que os tristes adeptos de uma ciência esclerótica, neurótica, necrófila e apoplética como é a ciência moderna, teimem em chamar charlatães aos defensores das medicinas ecológicas, entre as quais se agiganta a acupunctura.

De tal foi acusado, diversas vezes, pela Ordem dos Médicos (onde pontificava o bastonário Gentil Martins ) o dr. Indíveri Colucci, o homem que expirou com 103 anos, o homem que nem português era mas a quem os portugueses devem mais curas e ressurreições de mortos.

V

O ecologista passa por Hipócrates mas tem de recuar mais longe e mais fundo na história das culturas para atingir a fonte das fontes do Conhecimento: tem de ir àquelas Biocosmologias (ou Cosmobiologias...) que nos consideram um corpo filho da comida física (do prato), mas também e principalmente um corpo energético filho da eternidade (energia genética) e um corpo energético filho do infinito (energia cósmica ou «prana» como dizem os hinduístas).

Entre as filosofias orientais é talvez o tantrismo a forma de budismo que levou mais longe a formulação energética (quer dizer, ecológica) da nossa essência ou natureza primordial e que nos considera literalmente Luz.

Mas também o taoísmo e talvez o ayurveda nos consideram ecologicamente um corpo de alimento subtil de alta frequência que nos chega em directo do céu (quando lhe abrimos as portas) em ressonância com a mãe telúrica terra.

«Tantra é força, tudo é energia».

Mas tantra significa, entre muitas outras coisas, rede, malha, teia: é a noção eterna do que hoje se chama ecossistema. Tudo se liga a tudo, tudo está em tudo.

Quando o ecologista descobre esta evidência que a ciência levou séculos a ignorar, fica nervoso, perplexo e cheio de gratidão ao maravilhoso e terrível uni-verso do diverso. A asa que vibra num ponto do infinito e da eternidade é ressentida, enquanto vibração, em todos os pontos dessa luminosa e maravilhosa teia, trama, ordem ou tantra.

Isto é também o que outras filosofias e teosofias chamam karma ou (interfluxo da) interacção. Tudo se paga. Tudo no universo tem resposta e a factura vem, tarde ou cedo, mas vem sempre. Nesta ou noutra reincarnação, como a teosofia também diz.

Daí que toda a doença seja kármica, quer dizer, ecológica, resultante da nossa interacção com o meio ambiente, considerando esse ambiente na sua latitude máxima, entre céu e terra.

Toda a doença é kármica, como toda a doença é cósmica, como toda a doença é genética (ou congénita): pode é resultar de uma cabazada alimentar da véspera ou de alguma traquinice praticada há séculos por um bisavô traquinas, que deixou marca no nosso ADN celular, código genético como lhe chama a ciência da biologia molecular.

A profundidade da doença (ou até a sua incurabilidade, mesmo pela macrobiótica) mede-se pela ancestralidade do karma que ela traduz. Neste caso, o que será a teosofia senão uma ecologia alargada?

A visão tântrica (ecológica em nomenclatura moderna, ou holística em nomenclatura pós moderna) vai determinar uma posição cada vez mais distinta e demarcada da visão naturista e naturo-vegetariana.

A acção humana deixa de ser entendida no tantra em termos dualistas e dicotómicos, em termos moralistas e moralizantes: bem e mal, saúde e doença, felicidade e infelicidade, liberdade e tirania, justiça e injustiça deixam de ser entendidos como opostos irredutíveis e em eterna luta maniqueísta (mazdeísta) para serem entendidos como opostos complementares.

Em Noologia, que é a ciência das energias, há apenas uma visão neutra ou, melhor, dialéctica, um princípio único (como ensinou Jorge Oshawa) de onde tudo emana, Entropia e Energia, Yin-Yang.

VI

Este é talvez o ponto onde o cristão e o naturista clássico - propenso a ver o mundo dividido entre o bem e o mal, deus e o diabo, natura e contranatura - se distancia de uma visão ecológica, dialéctica, taoísta, zen ou tântrica, onde deus e o diabo são apenas faces da mesma moeda...

Pelo símbolo da mandala, vemos também que o Universo (reunião do diverso) é o centro de todos os diversos, o macrocosmos de todos os microcosmos e a natureza (a romântica natureza de escutistas, campistas e alguns ambientalistas que se autodenominam ecologistas) é afinal indesligável do microcosmos humano, breve fio de luz (o yoga chama-lhe fio de prata) na grande rede, na grande roda a que também algumas religiões chamam destino.

No campo histórico, o ecologista deve usar-se como despertador. Agitando antes de usar.

«Dorminhocos de todo o mundo, acordai» ou, como disse Gurdjieff (ensinado por Ouspensky) «O homem dorme e nós viemos acordá-lo.» Lá está a terceira visão no meio dos dois olhos, como ensinam os hinduístas.

Para preparar o ciclo histórico que já se desenha - a vida não morre por mais que o tecnocrata a mate e incite a matar -, para lançar os fundamentos da era do Aquário (nascida às 12 horas do dia 26 de Agosto de 1986) - que se está sucedendo à era zodiacal dos Peixes, época de transição a que uns chamam Apocalipse, outros Idade do Ferro e outros Kali-Yuga, temos que mudar. Acordar e mudar.

Diga-se de passagem que mudar é o que nós não fazemos, mesmo os que dizem que o fazem. E não mudar é que poderá significar o Apocalipse no sentido negativista de hecatombe e holocausto que tantos profetas da desgraça se entretêm hoje a proclamar. Porque Apocalipse, como São João ensinou, é apenas Revelação e Abertura à Luz.

Apocalipse não significa o fim do mundo, o fim da vida, o fim da natureza mas, muito provavelmente, o fim do tecnocrata e da tecnocracia médica hoje dominante.

Significa, talvez, é o fim desta bagunça chamada civilização ocidental, de Morte, Cancro, Genocídio, Biocídio, Ecocídio, Exploração do homem pelo homem e da Natureza pelo homem.

Significa, talvez, é mudança e metamorfose ou transmutação alquímica (busílis da verdadeira mudança): a crisálida dará - no meio de sofrimentos planetários, poluições, terremotos, calamidades meteorológicas, acidentes de viação e de aviação, incêndios e bolas de fogo, bombas e superbombas, epidemias e pandemias, espécies, povos e culturas em extinção - dará asas à borboleta.

Comer arroz a fazer macrobiótica pode apenas tornar o ego mais forte e duro, acrescentar mais sofrimentos aos que já temos: comer arroz para aguentar o balanço desta nau, para que a nossa bússola magnética (glóbulos vermelhos, ferro, intuição, I ching do nosso corpo) nos oriente no Norte correcto e no sentido da libertação da roda kármica, é como o ecologista entende a importância da macrobiótica e dos ensinamentos alimentares yin-yang.

Importância individual, histórica e metahistórica ou cósmica.

VII

O ecologista tem que abrir a transamazónia do futuro.

Isto é terrível mas inevitável. Dá trabalho mas cada um sofre o destino que merece. Se há os que julgam expiar o seu karma construindo indústrias de guerra e morte, cimenteiras, celuloses, petroquímicas, centrais nucleares, fomentando as indústrias do cancro (açucareira, farmacêutica, química alimentar), praticando cinicamente a guerra fria dos monopólios, alterando climas e desertificando com eucaliptais e monoculturas gigantescas a terra, envenenando, intoxicando, alienando e manipulando (quando não matando à fome) populações, outros há a quem cabe o papel de recusar tudo isso, fazer greve à sociedade de consumo e do desperdício, construir alternativas ecológicas, ilhas de sobrevivência como as que, no tempo da ecologia a pataco, a l'Arche de Lanza del Vasto ou a Auroville propuseram aos cidadãos do Mundo.

VIII

Os cientistas descobriram, há dias, o Caos.

Se o ridículo matasse, já não havia um cientista vivo.

Caos é apenas a entropia, a energia desorganizada, os ritmos naturais violentados, tarefas estas para os quais os eminentes cientistas largamente contribuíram, embora de imediato lavem daí as suas mãos como Pilatos.

Do que se trata, com a ecologia e as medicinas ecológicas ou medicinas avançadas, é de reorganizar a energia que eles e os sequazes da tecnologia desorganizaram para, sobre o cáos estabelecido, reconstruir a ordem natural dos ritmos, a que alguns chamam equilíbrios.

Um naturista não pede à medicina da farmácia e da cirurgia que o trate: cria a sua própria alternativa terapêutica ( plantas, oligoelementos, alimentação, homeopatia, essências florais, dietas, mézinhas ancestrais, etc).

Um ecologista amplia a necessidade dessa alternativa médica a todos os campos da praxis humana: medicina, energia, agricultura, construção, habitação, educação, ele terá um programa (político) para uma sociedade paralela a construir. E não só para o regime alimentar.

Programa ou projecto que é cada vez menos uma utopia, quanto mais utópica é a escalada do absurdo tecnocrático, do desenvolvimento económico infinito, do crescimento industrial logarítmico.

IX

A leitura ecológica da realidade é tão legítima como qualquer outra.

Ela situa-se na charneira e como interface das grandes contradições: entre história e meta-história, teosofia e diabosofia, física e metafísica, micro e macrocosmos, teísmo e ateísmo, qualitativo e quantitativo.

A medicina ecológica pretende ser uma dialéctica, um instrumento suficientemente elástico para construir, depressa e sem pressas, a Arca da Aliança e da Vida que nos livre do Apocalipse de fogo e nos leve à terra do sol da Bem Aventurança.

Mas - atenção - uma arca onde não caibam os inimigos. Uma arca para os que tentaram construir no meio de risos e apupos, com sangue, suor e lágrimas de solidão, um oásis no deserto. Não poderão caber lá, na Arca, os fabricantes das modernas estatísticas: um cancro por cada duas pessoas.

Os assassinos de crianças e os tecnoburocratas da saúde não têm lugar na Arca: podem ficar em terra firme e continuar o seu belo trabalho de destruição, doença e morte, muitas vezes (o que é patético) em nome da saúde.

«O cancro é a cura para esta civilização do Cancro» - disse Michio Kushi, repetindo Jorge Oshawa, dois dos maiores sábios modernos.

Se não for capaz de nos acordar a todos deste pesadelo, então a espécie humana estará efectivamente condenada a extinguir-se. O que as baleias e os animaizinhos em geral iriam, evidentemente, festejar com alegria: porque rigorosamente não precisam de nós para nada, quando nós deles e delas precisamos para tudo.

Afonso Cautela

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1-3 < 80-10-15-cm> contra a medicina
<dcm80-1>

Palavras-chave:

Delitos

Delinquentes

Crimes

Maternalismo

Paternalismo

Discurso tóxico

Inimigo principal

Manobras de distracção

Pina Manique

Progresso que mata

E O PROGRESSO QUE MATA
QUEM PROÍBE?

15/10/ 1980 - Vai por esses «media» fora um imenso alarido contra o tabaco.

Pelo aspecto caritativo de que se reveste, esta campanha, que nada tem de sinistra, antes pelo contrário, vai mesmo ao coração da gente, é um símbolo e, como tal, vale a pena perder com ela linhas e latim.

No meio de um mundo, de uma economia, de uma indústria, de uma cidade, de um sistema todo ele altamente e propositadamente cancerígeno, a que subtil manobra de distracção ou brincadeira obedecerá esta parcialização sectorial e sectária de um problema global, que é o da contaminação química do Planeta?

Porque se anda com tanta desfaçatez a brincar com a gente?

Porque se faz do tabaco o bode expiatório de toda uma sociedade, dita moderna, dita civilizada, mas toda ela cancerígena e psicopatogénica?

Porque se ocupam os «media» com a retórica do tabaco, deixando em branco a lista negra interminável de poluentes químicos e radioactivos que impregnam o meio ambiente? Deixando os poluentes mais terríveis, insidiosos e numerosos no tinteiro?

Que quer afinal esta campanha e esta demagogia iludir?

E que negócios serve?

Sabendo que ninguém vai deixar de fumar com os discursos e ameaças do Dr. Pádua ou do Dr. Adão Pereira, será que é esta uma promoção indirecta do tabaco, falando dele a toda a hora a pretexto de que se fala contra ele?

Como dizia um político ansioso de auto-publicidade, «o que é preciso é que falem de mim: bem ou mal, é indiferente.»

Mas a campanha anti-tabágica tem um aspecto acima de todos benemérito, para lá do maternalismo dos senhores doutores que é outro dos seus aspectos nada despiciendos.

Não analisa e critica instituições, estruturas, condicionalismos, ambientes : escolhe oara alvo das suas diatribes maternais o indivíduo prevaricador. Resulta, portanto, uma campanha moralista e, portanto, execrável.

Tal como o exército de salvação e suas heróicas cruzadas, a campanha anti-tabágica ajuda muito a que o sistema se mantenha intacta, mudando o alvo ou inimigo principal para os inimigozinhos secundários.

Caso do inocente tabaco, que não merecia tantas parangonas e cantigas.

O êxito do Eça de Queiroz a que se deve, afinal, senão a essa perfeita sintonia com a mentalidade mais pequeno-burguesa, moralenga e puritana da sociedade portuguesa?

Eça escarnecia as pessoas e passou (passa ainda) por escritor «escabroso» exactamente para deixar intactas as instituições, o sistema e seus queridos aparelhos. É o mais benemérito dos escritores portugueses e por isso se vende bem num país com tanta vocação maternal e paternalista. Por isso há vários (editores e nem só) a mamar da teta.

É este mesmo aspecto moralizador e benemérito, apontando a dedo os primos basílios e os conselheiros acácios mas ignorando e omitindo as instituições e as estruturas que os produzem, o que torna os sermões anti-tabágicos mais venenosos e mais tóxicos do que cinco mil charutos havanos.

Em vez de se procurar o inimigo principal e as contradições que efectivamente estrangulam, adoecem, condicionam, manipulam e alienam as seres humanos, este tipo de moralizadores, de missionários do progresso, de Pinas Maniques, de inquisidores e polícias, de padres curas sempre no púlpito de todos os sermões, são de facto a praga mais retintamente portuguesa que nos podia caber pela porta, com recomendação, claro, da O.M.S. que encontra aqui, bem amestrado, quem lhe traduza as campanhas intox.

Atrás destes doutores emproados que nos pregam virtude, não é difícil ver a figura do jesuíta nosso ancestro, o inquisidor e o Pina Manique que pelos vistos existe potencialmente em todo o portuguesinho valente, só esperando o momento de se manifestar.

Aos missionários do progresso e protectores da minha saúde, eu desejaria, delicadamente, pedir duas coisas: a conta da consulta que não pedi e que me é impingida, porta dentro, pelos indiscretos e sempre maternais, sempre paternais «media»; depois, pedir que aceitem, com os meus melhores votos de felicidade e longa vida, uma reprodução em miniatura do célebre gesto que imortalizou o Zé Povinho no barro de Bordalo.

Já agora e se não se importam, recebam como preito da minha homenagem um típico das Caldas mas não me ralem mais com o coração, o cancro e o tabaco, OK?

E O PROGRESSO QUE MATA QUEM PROÍBE?

A partir do momento que se perfilha determinada ideologia do progresso (que mata, esfola, aliena e adoece) não adianta vir com campanhas de moralização dos costumes.

Quem é cúmplice de um sistema que leva a vida matando não pode vir dizer que está muito preocupado com os meus pulmões, a minha saúde, os meus pecados tabágicos.

Não pode porque eu não autorizo que se metam na minha vida e nos meus vícios estes polícias da virtude, estes missionários do progresso, e considero um inclassificável abuso de autoridade teimarem em afastar-me do pecado.

se teimam e se continuam a gastar meia hora do «Tal e Qual» afazer propaganda contra o tabaco, sou eu que chamo a polícia e, na falta desta instituição da ordem, o próprio Pina Manique em pessoa que me vingará com os seus expeditos processos em defesa da civilização cristã.

A terminar não queria deixar de assinalar o aspecto verdadeiramente épico desta benemérita campanha a favor do seu coração, essa máquina. Trata-se da última e profunda intenção que a anima: desviar a juventude do tabaco.

É que tal intenção deliberadamente omite duas coisas fundamentais:

a) O tabaco é apenas algo que surge para preencher um vazio de alienação a que o sistema e seus aparelhos efectivamente conduzem a juventude; Falar do tabaco e não falar da alienação, que raio pretende tal campanha?

b) Por outro lado, se a alienação e o vazio continuam (e os missionários anti-tabágicos sabem que continuam) o que vão esses puritanos dar à juventude em troca do tabaco que lhe tiram?

Coca-Cola que dá mais vida ?Ou droga mais pesada e para a qual o puritanismo do sistema não autoriza a publicidade?

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1-1 -
<83-10-15-ie>
ideia ecológica

Algures encontrei o seguinte registo:

15-10-83 – Dez Anos Depois – I – O Choque Petrolífero

22-10-83 – Dez anos depois – II –

29-10-83 – Dez Anos Depois – Conclusão

Deduzo que sejam as datas de publicação na «Crónica do Planeta Terra», «A Capital», de um curioso diálogo à volta de petróleo e crise do petróleo, 10 anos depois do Kipur, precisamente

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1-2 <84-10-15-ie>

3560 caracteres < luta-3>< diario><diario91>

 

LÁGRIMAS DE CROCODILO
SOBRE A POLUIÇÃO

Lágrimas amargas são vertidas, nos países do centro e norte da Europa, por causa das chuvas ácidas que vão destruindo as florestas. «A danificação das florestas ameaça ruir lentamente as bases da indústria madeireira, que dá ocupação a 800.000 pessoas» - queixava-se um articulista, na revista «Scala», de Outubro de 1984.

Com o mesmo cinismo com que levaram uma década a fabricar as «chuvas ácidas», os mandarins da indústria mandam agora o articulista «alertar» as populações para as árvores mortas e proclamar que é preciso a ajuda dos empresários (novas indústrias), para despoluir o meio ambiente. No caso das «chuvas ácidas», o argumento da «despoluição» é duplamente cínico, pois o processo é irreversível e não há já hipótese de dar vida aos milhões de árvores mortas.

Triplamente cínico é o anunciado «negócio da despoluição» relativamente ao holocausto dos incêndios de Verão em Portugal, igualmente irreversíveis, tão irreversíveis como os milhares de eucaliptos que irão ser plantados nas áreas ardidas.

As empresas salivaram de contentamento quando se anunciou que o Koweit ia ser reconstruído, após os bombardeamentos cirúrgicos aliados. As empresas salivaram de contentamento quando os jornais relembraram que a poluição está cada vez mais uma porcaria e que era preciso, era urgente despoluir. Ora não se despolui à mão. É preciso montar sistemas, aparelhos, modernos e caros, de despoluição, e isso constitui um negócio.

As empresas não salivaram quando se anunciaram as passagens aéreas em toda a linha de Sintra e de Cascais (para começar) porque quando as empresas portuguesas acordaram já o monopólio do negócio estava dado a um consórcio, vindo da CEE e estimulado por quem sabia do projecto.

As empresas ficaram menos zangadas quando, às 13 horas de 18/9/1991, o Dr. Macário Correia, mais brilhante de bochechas e com um sedutor bronzeado algarvio, veio dizer que a despoluição é o grande negócio do futuro, expressão que até hoje, dia 18/9/1991, era clandestina e já fora proferida por terroristas do ecologismo radical não reformista. O que tipifica este nosso tempo de pós-perestroika, é que o cinismo do capitalismo triunfante se exibe às claras e já não usa estratagemas. Com a derrocada dos socialismos (que nunca foram) reais (e daí a minha estranheza por ouvir designá-los de reais embora entre aspas), o capitalismo entra numa paranóia exibicionista do seu triunfalismo de merda.

Sempre que mais uma alternativa se fecha, o sistema capitalista dá urros de contentamento, refina o cinismo e dá coices de excitação. Nem é preciso que John Updike, talentoso escritor, escreva um refinado romance «S» para colocar a ridículo (e no banco dos réus) um «asharam» de esoterismo hindu. As comunidades -- de inspiração ióguica -- são um alvo privilegiado, não porque tencionem derrubar o sistema mas porque são alternativas de vida possíveis ao canibalismo capitalista, adoptando inclusive alguns dos seus defeitos. É preciso fechar portas atrás de portas e fazer com que o desespero dos felizes consumidores desemboque numa única solução: o suicídio ou a droga.

Os cientistas não podiam adivinhar -- porque não são bruxos -- quando puseram detergentes com fosfatos no mercado. E agora que o mercado está saturado de detergentes não biodegradáveis e o ambiente, coitado, geme sob toneladas de espuma -- agora, sim, os cientistas previdentes e cautelosos, colocam à nossa disposição, amigos que são do Ambiente, detergentes biodegradáveis. Será que não vamos agradecer-lhes?

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<88-10-15-di-ie>

ÚLTIMO GRITO DA MODA

«IMPIEDADE» DIZ O PAPA(*)

(*) Este texto de Afonso Cautela, nada por aí além, foi publicado com este título no jornal «A Capital», 15-10-1988, «Crónica do Planeta Terra»

[15-10-1988, in «A Capital] - Ao traçar, em Estrasburgo, no Parlamento Europeu, aquilo que Fernando Balsinha (Telejornal., 10-10-1988) considerou um «retrato pouco lisonjeiro do europeu», o Papa notou com certeza a contradição do seu discurso e assumiu-a, já que a Europa - segundo dizem as estatísticas - se gaba de conter 54% de católicos no seu bojo...

Se a Europa é esse monstro de «impiedade» que o Papa sugeriu, resta saber se é por ter catolicismo a mais ou cristianismo a menos. Budistas, por enquanto, não chegam a 1 %, pelo que estão isentos de responsabilidades no Mercado Europeu.

Nas palavras do Papa, o direito à vida e à sobrevivência (os direitos ecológicas do cidadão à saúde, à segurança, ao silêncio) completam os direitos de ordem política, económica e social, mas são algo de novo, algo de tão novo na nomenclatura tecnocrática de todas as ideologias desenvolvimentistas, que também ele, Sua Santidade, se arrisca a não ser ouvido.

Quanto mais nós, franco-atiradores, para aqui ladrando no deserto, à espera de melhores dias.

A velocidade a que se propaga a destruição ecológica dos recursos naturais e dos ecossistemas organizados do Planeta Terra, faz pensar com pessimismo em qualquer hipótese de retrocesso ou de estabilização.

Se eles já nem ouvem o Papa, quem vão ouvir? A Crónica do Planeta Terra?

O mundo está a desfazer--se - dizem as estatísticas - -e nada indica que possa inverter a marcha para o abismo, com as medidas pontuais, casuísticas, que a chamada política do ambiente põe em prática, quando põe.

Há 15 anos, o alerta já era este e desde então nada mudou para o lado da esperança, antes pelo contrário: acumularam-se os sinais de apocalipse e desespero

Hoje, a morte dos mares tornou-se rotina dos noticiários internacionais: fala-se na morte do Adriático, do Mediterrâneo, do Báltico e do Mar do Norte, com a mesma naturalidade, e a mesma resignação, a mesma indiferença e o mesmo cinismo com que, há 15 anos, se falava no biocídio de várias espécies animais.

Hoje, a ciência diz ter demonstrado a existência de um buraco na camada de ozono que protege a Terra das radiações ultravioletas, e ainda não chegaram à estratosfera os clorofluorcarbonetos que os aerossóis têm vindo a debitar nos últimos 10 anos. Quando ao buraco, que já está, se juntar o efeito dos gases que irão chegando entretanto à estratosfera, haverá ainda ozono ou será tudo buraco?

A "inércia da asneira", que é também uma "inércia da escalada", não permite paragens rápidas no crescimento industrial, mesmo que surgisse algum governo, alucinado de bom senso, com a vontade política suficiente para suster a catástrofe e desmantelar, uma por uma, as centrais nucleares e outros sarcófagos da chamada civilização ocidental.

O "crescimento zero", preconizado no início dos anos 70, caiu em descrédito pelo carácter utópico da proposta: aliás, era essa a intenção de quem lançou o slogan. Todos sabiam impossível travar o crescimento industrial, pelo que a melhor maneira de ridicularizar e desacreditar os movimentos ecologistas era atribuir-lhes uma proposta que eles nunca fizeram, era propor o impossível, a que se chamou "crescimento zero".

Se a inércia existe nas estruturas industriais, incapazes de se reconverter ou auto-suspender, se o sistema é um todo e não dispensa nenhuma das partes, se só os «travões naturais» podem fazer ranger os freios da desenfreada sociedade de consumo, cada vez mais histérica a leste e a oeste, aos gritos de «mercado único», como um D. Sebastião que viesse salvar-nos numa manhã de nevoeiro, se nenhuma esperança brilha ao fim do túnel da engrenagem triunfalista, que só vê cifrões atados em cifrões, enquanto continua esmagando, com números, objectos ou mercadorias, as pessoas, e embalando os cadáveres em celofane, é ao nível dos conceitos e nomenclaturas que se verificam ainda os maiores bloqueios.

Já ninguém ouve ideias, só se repetem slogans. E os poucos que ainda pensam, acabam por desistir, com as ideias a desceram de cotação na bolsa das prioridades.

O pensamento enferrujou e substituiu-se por uma ladainha de lugares-comuns, repetidos pelos lideres dos lugares-comuns (os demagogos), e depois pelos heróis do lugar-comum que são, por obrigação, os jornalistas. Em vez de ideias, produzem-se slogans.

Não se trata já de viver ou de saber como orientar os países, ou mesmo de planear, quinquenalmente, para construir um futuro qualquer. Como já ninguém, verdadeiramente, acredita na futuro, trata-se só de "queimar os últimos cartuxos", no crepúsculo da 25.ªhora que passa, que vem aí.

Mesmo nos países do colectivismo económico, a palavra «planeamento» deixou de se ouvir. Consome-se o presente e é tudo. Enverniza-se a angústia, como as novas tecnologias gráficas da cor e do papel couché o sabem fazer de maneira habilidosa e sedutora. O mundo é que continua, para milhões de pessoas, cada vez mais a preto e branco, mesmo com televisão a cores .

Afinal, basta salvar as apa-rências: a ruína ecológica e a sociedade de consumo (que é também a do luxo, do lixo e do desperdício) têm bom aspecto, vestem-se bem, sintonizam o último grito da moda, nesta Eu-ropa, mítica terra de Promissão, que, feita em cacos, exalando o último suspiro, se oferece ainda assim como paraíso a conquistar pelos portugueses.

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(*) Este texto de Afonso Cautela, nada por aí além, foi publicado com este título no jornal «A Capital», 15-10-1988, «Crónica do Planeta Terra»

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antes do dilúvio – ficções inventadas – inédito ac de 1989

DOENÇAS DE LONGO CURSO

15/10/1989 - Para trás, na cidade que lhe servira de berço, deixava todas as recordações, ainda tão vivas, da perdida infância.

Nunca mais se deitaria, como sempre fez, no leito de pilhas alcalinas, acumuladas em anos de perseverante pesquisa nos principais contentores do bairro e recolha minuciosa no seu depósito particular, tamanho familiar.

Agora, faziam-se recolhas municipais de pilhas e já se generalizara o uso de fofos colchões com esse resíduo químico da sociedade. Outros, aproveitavam-nos para fazer subir o salto dos sapatos, mas eram raros ainda os que detinham esse privilégio.

Também se via longe do seu mais dilecto costume alimentar, os diversos tipos de "ice-cream", de valor calórico inigualável, com diversos sabores conforme o corante, mas os que ele mais amava eram, por ordem de importância, os gelados de nata, de leite, de leite com gordura vegetal, de ananás , de fruta e de água, este o mais raro, dada a matéria-prima de que era fabricado.

Nas suas visitas ao Museu da Água, ele recordava-se (de que se tratava) de uma substância insípida, inodora e incolor, a que os antigos davam uma desmesurada importância, talvez porque no momento não tivessem nada de melhor.

Um gelado de água chegava a ser oferecido como prenda de noivado, dado o seu exotismo, e havia também quem escolhesse a quadra do Natal para pôr no sapatinho tão lúdica prendinha.

O Natal enchia-o de luzes, era a Festa Nacional e nada se lhe igualava, quando, em plena noite santa, com o automóvel nas palhinhas, o presépio se desentranhava de místicas figuras, cantando a "jingle bell, jingle bell," sobre tufos de folhas plásticas imitando relva.

No centro da cidade, onde o Estado instalara um quiosque de venda especializada - os famosos chapéus palhinhas, o melhor alimento para os asnos sobreviventes - assistia-se, também, o cidadão produtor na ingrata tarefa das compras natalícias, de forma a defender os fabricantes dos assaltos à mão armada, que grupos histéricos de cidadãos consumidores organizavam como autênticos bandos invasores.

DOENÇAS RARAS

As doenças de coração eram raras, pois o excesso de sal na dieta dos selenitas eliminara naturalmente os mais fracos, com estupendos ataques cardíacos, a doença que a ciência médica descobrira como o substituto mais eficaz do chatíssimo cancro, quando este já atingira a cifra fabulosa de dois mortos por tumor maligno em cada três europeus.

Ficara conhecido por Era do Sal - período áureo da civilização selenita, o que alguns historiadores interpretaram como uma corruptela, assas simbólica, de Sol - pois corria nos meios de informação secreta que o extermínio quase total da espécie se deveria também ao Sol , quando encontrou livre a camada de ozono que o impedia de torrar, na Terra, os veraneantes expostos nas praias aos seus lânguidos raios.

Agora que se deslocava a Marte em missão do Estado e que deixara um seguro em nome do seu "doberman", produzido nos Laboratórios Hitlerfax SS Ldª, a viagem por satélite afigurava-se-lhe uma enorme estopada e mesmo algo perigosa.

Daí que tivesse prevenido qualquer percalço, assinando, em nome do seu querido Dobermann, o seguro de três milhões de dólares franceses, em caso da explosão espacial do satélite "voyager 50".

Quando abriu o computador em forma de mala de viagem, invadiu-o uma estranha tristeza, para a qual não encontrava nome em nenhum dicionário. Os portugueses dos anos 90 ainda lhe chamavam "saudades" , mas também desses portugueses já poucos vestígios havia e nem os grandes contentores centrais do lixo selectivo SA tinham acusado, até à data, que se soubesse, vestígios de tão feia raça, que se dizia oriunda dos Celtas.

Destino não lhe faltava e a amenidade do clima, nos últimos anos do Terceiro Glaciar, congestionara as suas praias de uma multidão frenética, mas de tal modo contaminada pelo vírus da moda - a sida - que, em poucos anos, as praias algarvias e mediterrânicas em geral, pouco mais eram do que imensos campos santos povoados de esqueletos insepultos.

No cais da Rocha, frente ao Rio Tejo, hoje seco, ainda persistia - segundo as últimas informações que tivera - uma estátua em bronze de Laura Ayres, derradeira homenagem à figura que, nos tempos do Estado Laranja, comandara o combate contra a sida com a mesma galhardia com que (como a ) Padeira de Aljubarrota afrontara os castelhanos em defesa da nacionalidade.

Apesar de angustiado e com aquela indefinível sensação a que, antes do dilúvio, os livros chamavam saudade, ele tinha que se sentir seguro, pois a estrutura do Estado selenita era copiada, alínea a alínea, dos últimos grandes empórios particulares, com arranha-céus nas principais cidades, das companhias privadas de seguros. O que só provava a alta segurança das sociedades.

Ainda que as centrais nucleares nunca estivessem abrangidas por qualquer apólice, as companhias de seguros tinham atingido, no última glaciar da Era Primitiva, uma tal hipertrofia que se constituíam em Estado dentro do Estado, senão no próprio Estado "himself".

Dizer (ou pensar) que não se sentia seguro a bordo daquela nave já antiquada e com dois anos de uso, era o mesmo que fazer recair sobre o seu pensamento a cólera dos " superiores hierárquicos" , os Vigilantes Póstumos, sobreviventes de todas as catástrofes que tinham ganho, através da imunidade merina, a imortalidade. Pelo menos era o que se dizia nos canais televisivos do Estado, e o ar mumificado desses seres imponentes confirmava a sua resistência ao tempo, às intempéries e até - prova máxima de imunidade - às crises da Bolsa Universal, o mais temido dos mecanismos de controle, depois do Fisco e da Polícia de Costumes.

OS SATURNINOS

Ele sabia-se, portanto, seguro, e seguro estaria, na mesma, ainda que não o sentisse. A subjectividade estava bem morta e enterrada, figurando apenas entre as velharias do Museu Central do povo selenita. Sensações não confirmadas em laboratório, não existiam, pura e simplesmente.

Por isso ele devia estar seguro, sentir-se seguro, como atestava o boletim de viagem com as anotações clínicas necessárias durante o voo.

Quando abriu o livro de novelas, esquecido no banco da aeronave, leu uma reminiscência estranha: as principais vítimas são os jovens dos bairros pobres que se habituaram a comer as escamas da pintura, com gosto ligeiramente adocicado, que depois de algum tempo de uso se libertam das madeiras pintadas, principalmente dos apoios das janelas.

Em Brooklin, por exemplo, era vulgar a Polícia encontrar esses jovens estorcendo-se com cólicas violentas e dolorosas. Recolhidos pelas Brigadas de Trânsito em uso na época, era-lhes então diagnosticado o quadro clássico da intoxicação saturnina aguda, prisão de ventre e hipertensão, anemia e perturbações nervosas.

Na civilização selenita , aliás, estavam ainda longe de viagens interurbanas com Saturno, pelo que nunca compreenderia nomes como esse dado às manifestações patológicas de época tão primitiva.

As doenças de longo curso (longas agonias) ficavam caras ao Estado Selenita e já na anterior geração de tecnogovernantes se decretara um sistema de óbitos extremamente eficaz e mais económico: só eram oficialmente autorizadas as doenças de agonia curta, ditas fulminantes, de que o ataque cardíaco dava o modelo clássico.

O cancro fora abandonado como não rentável, pelos cuidados intensivos em internamento hospitalar (caríssimo) que exigia, depois de ter sido o maior negócio da civilização selenita.

Tal como um dinossauro, cujas dimensões gigantescas comprometeram a sua existência, o cancro provocava um feed-back que iria, em cadeia, anular, pela proliferação desordenada, as próprias vantagens económicas que em princípio se esperavam, se esperaram sempre, da "doença do século" e na qual o Estado selenita tantas esperanças depositara para combater a explosão demográfica.

Os produtos cancerígenos não foram eliminados do mercado, é certo, antes pelo contrário, aumentaram sempre, mas para muitos deles conseguiu-se um regime de coexistência pacífica, permitindo que as pessoas contraíssem o cancro só na idade para isso conveniente: ou seja, os 55 anos, 10 anos antes da reforma (que o Estado assim poupava, dando índices de lucro altíssimos).

Tendo entrado entre os hábitos felizes dos cidadãos selenitas, os produtos cancerígenos banalizaram-se, normalizaram-se, democratizaram-se e são hoje apenas uma lista de extintas glórias, nas quais a civilização pré-selenita se revia como nos bonitos e verdes olhos da Joaninha.

Eis, por ordem alfabética, o que é hoje o pão nosso de cada dia , alguns dos cancerígenos em voga na cidade dos nossos ancestros, quando o seu número ainda não se tornara, como hoje é e graças ao progresso, infinito.

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«Apesar de todos os esforços e de todas as transformações políticas e sociais - cujos bons frutos não ignoro - continua a haver bastantes manchas de pobreza no nosso país, não apenas nos bairros degradados da cintura das grandes cidades, mas também em muitas zonas do interior.»

D. João Alves, Bispo de Coimbra, Outubro de 1989

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GLOSSÁRIO DAS ENERGIAS

(APONTAMENTOS SOLTOS)

 

 15/10/ 1996 - OM ou AM - Dizem os (livros) hinduístas que OM - a sílaba OM - é a «chave do universo».

A grelha das letras segundo Etienne Guillé dá-nos um eixo (que pode ser o eixo do universo) mas com as letras AM.

Enfim, boa matéria para testar. E para saber qual tem mais razão (valor vibratório). Os se têm os dois. Ou se não tem nenhum.

Aliás - recorde-se - outros livros e escolas, em vez de OM falam de AUM, o que de certo modo , retirando o U central, nos aproxima mais do eixo AM, estabelecido na grelha das letras de Etienne Guillé.

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VOLUNTARISMO - As práticas voluntaristas e manipulatórias (exigindo esforços inauditos do corpo) como o Yoga, o Chi Kung, o Hipnotismo, a Massagem, o Reiki, etc. podem ser, na opinião da Radiestesia Holística, substituídas pelo involuntarismo do pêndulo.

Ou seja, iniciada com o pêndulo a alquimia da célula todo o restante trabalho é com o mecanismo regulador do organismo, é com a inteligência própria do organismo, é com a chamada «homeostasia».

Deixar à inteligência do organismo o trabalho de intercomunicação intercelular é a melhor forma de conseguir vários objectivos:

a) Viver a vida muito mais descansada

b) Não fazer grandes esforços físicos para se autodiagnosticar e autotratar

c) Todos os processos de alquimia (e evolução) psicosomática se realizam com mais precisão e com resultados, portanto, muito mais eficazes.

O voluntarismo das práticas místicas e terapêuticas mais correntes junta-se a outros predicados que caracterizam essas técnicas manipulatórias . Há sempre uma dose, maior ou menor, de:

a) Parasitismo energético

b) Vampirismo energético

c) Egrégora energética entre elementos do grupo

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INVOLUNTARISMO - Outra vantagem do involuntarismo da inteligência orgânica (homeostasia) é a digestão das informações (energias) se fazer com mais facilidade, mesmo quando há uma grande mistura delas, como é frequente no dia a dia da promiscuidade energética em que somos forçados a existir e que as escolas manipulatórias de energia vieram aumentar.

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RITUAIS - Sem medo às palavras, podemos classificar de «fantochada» todo o espectáculo de rituais que muitos mestres e escolas hoje exigem dos seus adeptos. A radiestesia Holística é, de facto, o único método iniciático que:

a) Não admite confundir-se com místico

b) Não necessita de ritos nem de rituais

É um método para os que não gostam de espectáculo e de chatices.

Quem quiser fazer a sua viagem ao mundo das energias sentado no sofá onde vê televisão, tem na radiestesia holística o método iniciático que lhe convém.

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KABALLAH - Entre as 12 ciências sagradas segundo os hierofantes egípcios costuma aparecer a Kabballa.

Entende-se isso como um artifício didáctico:

a) Porque a Kaballah é posterior aos mistérios

b) Porque da Kaballah irradiam e na Kaballah convergem as outras ciências sagradas.

Poderá a Kaballah melhor ser a designação para todas elas : e nesse caso seria a 13ª das ciências sagradas segundo os egípcios.

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SUBIDA NA VERTICAL - Livros e revistas ditas esotéricas falam muito de «viagem astral» . É o que chamamos em Radiestesia Holística «subida na vertical» .

De qualquer modo a palavra «viagem» é muito adequada ao mundo das energias e ao pêndulo de Radiestesia Holística.

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6º SENTIDO - Entre outras bizarrias que ocorrem com a palavra «radiestesia» , ela aparece, por exemplo, em livros que tratam de fenómenos ditos «paranormais» ou «parapsíquicos». Para pior antes assim. Por um lado, é correcto porque reconhece à radiestesia a sua natureza de 6º sentido, além dos 5, e como porta de acesso aos outros 6 que falta desenvolver.

Por outro, é incorrecto porque esse 6º sentido e todos os outros, sendo os que a parapsicologia pretende, ao fim e ao cabo, abordar, mas que apenas escamoteia, não são anormais, não são paranormais, não são dons especiais de ninguém mas fazem parte integrante e inalienável do potencial viratório de cada ser humano.

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MODELO - A ciência moderna apoia-se em «modelos», quando desiste das «teorias». Etienne Guillé , o genial sistematizador da ciência energética, também tem alguns modelos em que apoia a sua abordagem holística.

Leis, teorias, modelos são muletas da ciência ordinária que podem, provisoriamente, servir ao estudo das ciências sagradas ou energéticas.

A outra muleta é a abordagem global dos sistemas a que Louis Von Bertallanfy, seu autor, chama «teoria geral dos sistemas».

Paradigma e arquétipo são outras 2 noções-chave desta zona de fronteira entre ciências profanas e ciências sagradas.

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LEIS - Leis? Vamos por partes, vamos por ordem:

leis da vida

leis do cosmos (macro/microcosmos)

leis do universo

leis da física

leis da química

etc

Seguir o que a ciência tem a dizer da lei é um ponto de partida interessante para, por contraste, começarmos a pesquisar as leis globais da energia, as leis da Energia - as que nos interessam como base de um curso de ciências do espírito ou ciências do sagrado.

*

ELEMENTARES - Tão úteis como as grandes teorias da ciência são as pequenas e elementares afirmações do senso comum, que a ciência a pouco e pouco vai repescando:

O universo não é estático, arrefece e rarifica-se

Algo se move

A matéria organiza-se progressivamente

As partículas dos tempos mais antigos associam-se para formaram estruturas cada vez mais elaboradas

Passa-se do simples ao complexo, do menos eficaz ao mais eficaz (Lucrécio)

A história do universo é a história da matéria em organização.

Outubro de 1996■