1-12 < 03-10-14>
Posted by Big-Bang -terça-feira, 14 de Outubro de 2003
Retrovisor (1972-1998) ->Day by day
38 anos de memórias
1-3 < 72-10-14-ie> ideia ecológica
<poluição-3-ie>
A ESCALADA DA POLUIÇÃO(*)
OU ASPECTOS ESQUECIDOS DA CAMPANHA INTERNACIONAL CONTRA A POLUIÇÃO
[(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no «Diário do Alentejo» (Beja), 14-10-1972]
Na crítica ao meio ambiente começa a crítica a toda uma civilização (industrial-urbana) e nem só à "sociedade burocrática de consumo dirigido" (Henri Lefèbvre).
Quando Henry Miller (um profeta do nosso tempo, um contemporâneo do futuro) falava do "pesadelo climatizado", exemplificava com os Estados Unidos, que conhecia de experiência própria, mas não excluía outros pesadelos possíveis.
Quando Michelangelo Antonioni, em Deserto Vermelho, enraíza num habitat degradado e degradante - onde tudo agride e molesta o ser humano - o caso existencial da sua protagonista, deixa visível o deserto que pretende referir e denunciar.
A presente campanha contra a Poluição, além de platónica (para uns) e de suspeita (para outros) tem ainda o defeito de não ser completa, de omitir malfeitorias praticadas contra a segurança da pessoa humana, de deixar deliberadamente na sombra agressões contra a dignidade e a liberdade individual, de não contar tudo sobre o campo abrangido pela abjecção e contradições que a definem.
Como se sabe, uma realidade torna-se abjecta quando consente ou fomenta as suas próprias contradições. E então as palavras de combate ou crítica aos aspectos mais repugnantes dessa realidade têm o nome de demagogia.
Há, assim, quem considere a presente campanha, demagógica. Assim será, com efeito, se dos aspectos não há dúvida importantes mas parciais da poluição industrial, dos detritos da abundância, da conservação da Natureza, não se passar à denúncia de todo o sistema que condiciona e oprime o homem, se não se apresentar o processo na sua totalidade, do habitat visível ao invisível.
Existe escândalo quando existe contradição ou incoerência: quando, por exemplo, no mesmo jornal, lemos a notícia de um simpósio realizado contra a Poluição, e uma outra sobre o êxito das experiências termonucleares levadas a cabo algures num Nevada qualquer ou em qualquer atol de Bikini.
Quando no mesmo dia e praticamente à mesma hora, nos anunciam jubilosamente uma explosão atómica subterrânea levada a efeito com êxito e o sismo que matou 3.000 pessoas na Anatólia (ou 30.000, no Peru), quando num mesmo dia e quase à mesma hora, a civilização segrega o mal e a caramunha, a ferida e o penso, o pró e o contra, a rosa e a espada, surge o que alguns designam por situação abjecta; quer dizer, as parcelas funcionando em autonomia, sem inter-conexão nem responsabilidade comuns, sem o sentido da totalidade planetária e da totalidade que será a de toda a Ética para que se considere universal.
Se na campanha em curso se proclama a necessidade de conservar a Natureza, deixa-se também quase esquecida a necessidade de proteger o homem do próprio homem. Ora no processo Poluição não pode omitir-se tudo o que um homem faz contra outro homem, para espezinhar os seus direitos, para o agredir e maltratar, explorar ou ofender.
Está bem que se fale no envenenamento da atmosfera respirável pelas poeiras radioactivas, pelos resíduos da carburação automóvel, pelas chaminés das fábricas, mas que se fale da tensão nervosa e da surménage, da promiscuidade das habitações, dos serviços públicos que não funcionam ou funcionam mal, dos transportes que não transportam, dos telefones que não ligam, dos engarrafamentos de trânsito, etc.
Está bem que se aponte e lamente o extermínio de faunas e floras, que se requeiram parques de reserva, que se legisle no sentido de proteger as águas dos rios e dos lagos, mas não se deve esquecer, logo a seguir, os mitos que (através da Imprensa, da Rádio, da Televisão, do Cinema) se servem de manhã à noite, a "tirania psicológica" da publicidade e da propaganda, a histeria colectiva criada em torno de idolatrias negativas, as máquinas feitas para adormecer, entorpecer, intoxicar as consciências.
Denunciar as poeiras radioactivas, as explosões termonucleares na atmosfera e subterrâneas, não deve impedir que se tente obviar à hiper-burocratização das sociedades, às hierarquias injustas e aniquilantes, aos sistemas concentracionários, etc., etc.
Lembrar o horror dos arranha-céus e das hiper-concentrações urbanas, os espaços exíguos onde se habita, a ausência de zonas verdes, os ambientes viciados e os morosos transportes para os dormitórios suburbanos, não implica esquecer os valores éticos que, embora ultrapassados, continuam a vigorar, os ismos e ideologias que tentam justificar injustiças de facto, os conflitos quotidianos, as quotidianas submissões.
Referir os petroleiros gigantes, a inutilização de belas praias por toalhas de óleo derramado, registar o escândalo do Torrey-Canion, de todos os Torrey-Canion passados e futuros, acentuar o perigo de asfixia por carência de oxigénio e excesso de anidrido carbónico, não pode obrigar a minimizar os perigos menos espectaculares dos pesticidas, insecticidas, corantes e detergentes que vão contaminando os alimentos de uso quotidiano.
Narrar que a exterminação dos lobos do Ártico, originando o aumento de renas que esgotaram as pastagens, acabou por exterminar as próprias renas que se queriam conservar com objectivos de negócio, não pode significar menos importância dada aos medicamentos químicos e seus perigos sobre o organismo humano, as injecções de sílica que se usam para tratamentos de beleza e produzem tumores pró-cancerosos, as talidomidas já existentes ou ainda a fabricar, o tabaco que se espalha e propagandeia, os sofrimentos renais resultantes da fenaticina, o berilo (tóxico) das lâmpadas fluorescentes, o DDT causador de cancro no fígado, os ciclamatos edulcorantes nas bebidas gaseificadas, o refinamento dos cereais, as radiações (perigosas) emitidas pelos receptores de televisão, os anti-histamínicos (meclizina, ciclizina, clorciclizina, etc.) susceptíveis de produzir anomalias nos fetos das mulheres grávidas.
Se se proíbem determinadas manifestações ostensivamente criminosas, lógico e razoável é que se não autorizem e fomentem outras, ou se promova o seu fabrico, ou se estimule o seu consumo (tabaco, álcool, estupefacientes, etc.)
Conservar a Natureza, sim, mas atentar também nas doenças que o homem contrai do habitat, nos surtos endémicos cujas causas se vão procurar fora do eco-sistema mas que lógica e evidentemente se encontram nele.
Lamentar a falta de agua potável?
Com certeza. Mas lamentar também e logo a seguir a irracionalidade dos regimes alimentares, a sua percentagem tóxica ou deformante, as suas características anti-higiénicas, as suas atrofias ou hipertrofias, as suas carências e exageros.
Denunciar o ruído dos ambientes industriais é, sem dúvida, de política humanista, mas denunciar, ao mesmo tempo, as alienações psíquicas, emotivas, afectivas do mesmo ambiente não o é menos.
A super-lotação demográfica constitui, ninguém já discute, um perigo, mas não menor perigo significa servir-se a publicidade da isca erótica para instintivar no sub-consciente da humanidade reflexos condicionados orientados apenas para imperativos de consumo histérico e indiscriminado.
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(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no «Diário do Alentejo» (Beja), 14-10-1972
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<77-10-14-ac>
[14/Outubro/1977] - Das aventuras editoriais em que se meteu, foi talvez na casa editora Ulmeiro, de Lisboa, com a qual combinou uma colecção de ecologia e à qual entregou uma dezena de originais para publicação. Adiamentos consecutivos impediram que o projecto se concretizasse, tendo apenas saído a público um opúsculo de Luís Racionero intitulado «Crescimento Zero».
O cómico da questão, porém, foi que dos outros originais entregues à editora Ulmeiro, dois deles levaram total sumiço: uma tradução intitulada «Yoga e biologia» e uma colectânea de textos traduzidos intitulada « A Pilhagem capitalista dos recursos planetários» desapareceram da tipografia, não sei se em manifestação de protesto dos trabalhadores progressistas contra a ecologia, disciplina eminentemente reaccionária já que põe em causa o «progresso».
Surrealista também e bastante ao abrigo da Constituição, foi o facto de a editora garantir que tudo irá ser resolvido, pois já meteu advogado no caso e o advogado vai processar a tipografia que destruiu (comeu) os originais que tantas horas de trabalho consumiram ao militante do antiprogresso Afonso Cautela. Como é que a tipografia, mesmo espevitada por um advogado, consegue reaver os originais que comeu (a não ser cagando-os), eis um enigma que ultrapassa a mente simples de um simples e selvagem militante da Natureza.
A chulice de editores para com o pobre autor indefeso, que se entrega neles e lhes confia originais, já não é só nota dominante destes dois anos de farsa cómica mas costume velho e rafeiro cá da casa portuguesa com certeza. Desde que se não seja do Partido (Socialista, Comunista, Social democrata) fica-se sempre em maus lençóis: se lá cai original, é sabido que «desaparece»; se adrega de sair a público, á sabido que o sabotam, por livrarias e outros buracos, onde imperam os trabalhadores progressistas que têm no jornalista Afonso Cautela a besta negra a destruir sem dó nem piedade; se adrega de ser editado, segue-se o bloqueio da ilustre imprensa unipartidária que também de ecologismo percebe aos barrotes e, claro, lança no gueto o militante que nem partido (definido) tem.
Tudo isto, que é fado, seria razoável e lógico, se ao menos as putas das editoras não chulassem o autor da maneira mais ignóbil: dos editores que lhe lançaram livros, só Estúdios Cor e Arcádia editora cumpriram os pagamentos previstos no contrato. As outras (Diabril, Socicultur e etc), muito ao abrigo da Constituição não pagaram. De que serve ganir, no meio de cães que tão alto ladram e tão baixo mordem?
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1-1 - <81-10-14-dp-cr> = diário pessoal do afonso – cronologia ac – dossiês do silêncio – abriladas
CONJUNTURA EM QUE FORAM ESCRITOS
OS DOIS TEXTOS A SEGUIR PUBLICADOS (*)
14/10/1981 –
A CHATICE DE EXISTIR VISTA À LUZ INICIÁTICA - A pedido do Fernando Sacramento, foi escrito este texto destinado ao dossiê sobre "Medicina, Saúde e Poder" para a revista "Raiz e Utopia", no 3/4, Out-Inverno de 1977.
A revista publicaria um "fragmento" do texto que aqui aparece, pela primeira e última vez, na íntegra.
EU SOU TORQUEMADA - Até agora inédito, este texto foi escrito no segundo semestre de 1979, quando era Primeiro Ministro Maria de Lurdes Pintasilgo. Não há memória de campanha mais infame e abjecta como a que então jornais e jornalistas desencadearam contra Lurdes Pintasilgo. Ainda hoje estou a tentar compreender o fenómeno: mas é preciso dizer que, na altura, estarrecido e boquiaberto de espanto, esta suposta carta de um suposto Torquemada a um suposto presidente de um suposto sindicato dos jornalistas foi a única forma (romanesca e de ficção) que consegui inventar para afastar de mim os demónios à solta neste País.
Penso que Maria de Lurdes Pintasilgo foi apenas e apesar de tudo um pretexto: mais do que uma classe política - a Direita .. (com larga conivência da esquerda), mais do que uma classe profissional - os jornalistas (com larga conivência de muitos outros jornalistas) - foi, nesses 100 dias, um povo inteiro que pôs a nu o seu subconsciente de ódios, recalcamentos e torquemadas seculares.
Dando voz ao meu subconsciente individual, tentei falar de um subconsciente colectivo que, em certas épocas históricas, procura uma auto-cura imolando vítimas.
Além de Maria de Lurdes Pintasilgo, lembro-me que também o Dr. Pacheco de Andrade , director do "Diário Popular" , tinha sido posto no pelourinho por outros jornalistas, prontos a linchá-lo. As fogueiras da inquisição acendiam-se por toda a parte.
Como jornalista profissional, era para mim uma necessidade fisiológica
demarcar-me de toda essa lepra emocional, de todo esse sado-masoquismo nativo,
de toda essa autofagia lusa que, durante o governo dos 100 dias, conseguia
elevar o jornalismo à mais sublime abjecção.
AFONSO CAUTELA
14 de Outubro de 1981
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(*) Não me lembro se os textos foram mesmo publicados num caderno da colecção «100 Dias» ou em outro caderno de «Ecologia e Informação»
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<86-10-14>
1-3 - <medicina-8-cm> = diário de um consumidor de medicinas = crítica da medicina - os dossiês do silêncio - contra a medicina ordinária
14.10.1986 - Quem chega à sala do hotel onde está a decorrer um Congresso de Cirurgia, que no caso até pode ser Cirurgia Plástica Reconstrutiva e Estética, que entra e vê, através das projecções vídeo, uma das minuciosas operações aí apresentadas a especialistas, sente-se necessariamente inferiorizado, ao verificar que não consegue "aguentar", nem uns segundos, a referida projecção.
Falta-lhe evidentemente calo, já que não são aqueles os ossos e vísceras do seu oficio. Leigo em Cirurgia, como alta especialidade científica e tecnológica que é, apercebe-se do abismo que de repente surge entre a sua hiper-sensibilidade alérgica ao sangue e ao bisturi, e a indiferença com que os especialistas seguem a demonstração cirúrgica a decorrer no vídeo, que para eles é rotina.
Mas não é esta a única distância que se estabelece entre o mundo dos cirurgiões - e das altas especialidades em geral - e o mundo dos eventuais cirurgizados ou pacientes em geral das especialidades médicas e nem só.
São, de facto , mundos distantes aqueles mas não paralelos: há um dia, fatídico para um deles, em que vão encontrar-se.
Há e deve haver, de facto, características diferenciantes: o cirurgião, por exemplo, importa-se apenas com a parte final do processo patogénico e não admite perguntas "metafísicas" onde intervenha a conjunção "porque".
Indagar da causa que conduz àquele efeito, não é com ele, que se limita, e bem, a extrair, cortar, transplantar.
A outras classes - que não ao cirurgião - caberá indagar porque adoeceu aquele órgão, porque sucedeu aquela tragédia (em caso de acidente de trabalho ou catástrofe ferroviária, por exemplo) que leva a vítima ao banco dos cirurgiões.
O cirurgião executa, não indaga. Corta , não diagnostica. Coloca próteses, não congemina sobre a maneira de as evitar mantendo, o mais possível, os órgãos naturais da pessoa.
Na melhor das hipóteses, toda essa indagação das causas pertence a um outro ramo da Medicina, aliás bastante desprestigiado e sobre o qual não se fazem congressos nem colóquios em hotéis de 5 estrelas, chamado Medicina Preventiva, que ainda por cima se convencionou reduzir à chamada vacinoterapia (capaz de provocar, só por si, uma nova era da Patologia designada Iatrogénese).
Uma vez instalada ou instituída a necessidade de cortar, extrair, transplantar, substituir, etc, nada pode fazer recuar este movimento que se acelera e multiplica a si próprio.
Heresia será que alguém queira travar esse movimento e a tendência, em regime capitalista ou em regime anti-capitalista , será para adquirir sempre mais clientes que rentabilizem as caríssimas instalações de prótese.
São, de facto, dois mundos separados por um abismo: o da alta especialização técnica e o mundo do utente. Abismo que este geralmente só transpõe quando levado de maca .
A sala de um hotel de cinco estrelas não é, com certeza, lugar para ninguém se arrepiar do "pecado mortal" que representa levar a pulverização ou atomização do homem a tais extremos tecnocráticos.
É com certeza heresia, ou apenas má educação, proclamar no meio de tanto êxito e exibicionismo técnico, que Gabriel Marcel atribuía, na sua obra "Les Hommes Contre L'Humain "(1951), a este espírito tecnocrático de abstracção e divisão do humano, o fenómeno dos campos de concentração, suprema obra de engenharia humana.
Quem se lembra dos nazis e dos seis milhões de judeus metidos em câmaras de gás, só porque o sentido da unidade foi perdido?
"A cada um sua especialidade e a responsabilidade para nenhum" .
Mundos separados por um abismo, sem dúvida, porque o mundo da divisão, da especialização, da desumanização é o que permite, através do específico (medicamento, por exemplo) e da prótese, duas diabólicas invenções da sociedade industrial, é o que permite a infinita proliferação do infinito comércio de produtos.
A roda gira, a velocidade crescente, e nada a pode parar.
Porque parar significaria o desmoronar de toda a sociedade industrial que se alimenta dessa "cancerosa" proliferação mas da qual mamamos todos porque a isso nos obrigam.
Isto não acontece só no campo da Medicina, claro, mas em muitos outros campos aos quais, de qualquer modo, a Medicina forneceu o insubstituível paradigma. Honra lhe seja feita.
A sintomatologia é, em sentido lato (e não apenas o lucro), o grande motor da sociedade industrial. Motivo pelo qual a análise marxista da sociedade industrial, deixa metade da realidade no limbo do esquecimento,
A prótese mais simples dá bem a medida dos custos, para qualquer País, mesmo rico, das chamadas «despesas com a saúde» que são, afinal, as despesas com a doença por não ter havido gastos (mínimos) com uma verdadeira política ou mentalidade de prevenção e profiláctica.
Quando, a preços de 1986, um par de seios em gel de silicone custa mais de cinquenta mil escudos e uma prótese para corrigir a posição dos dentes num adolescente atinge preço idêntico, pode calcular-se a que ponto sobem as despesas hospitalares das mais complicadas operações cirúrgicas ou de próteses complexas como a hemodiálise e de que maneira a população paga o que é normalmente apresentado como honra exclusiva e glória particular dos prodígios da ciência e da técnica.
Note-se, no entanto, que, em congressos, simpósios e entrevistas à Comunicação Social, os especialistas que dominam essas técnicas estão sempre exigindo do Governo mais dinheiro, mais instalações, mais condições de trabalho, mais, sempre mais.
São , de facto, mundos separados, o da alta especialização técnica e o dos utentes vulgares de Lineu.
Surdos ao que se passa fora da sua super-especialidade, e fazendo mesmo dessa especialidade a muralha de aço que os separa do mundo vulgar das pessoas ordinárias (aquelas que pagam os custos da especialidade e das especializações), os cirurgiões não querem saber, por exemplo, que a "malnutrição custa ao País, anualmente, 238 milhões de contos, devido às consequências negativas que tem no estado de saúde da população."
Isto - note-se - é afirmado também por "especialistas" de outra área especializada e não por leigos como eu.
E vá lá, vá lá, muito mais altas seriam as despesas do País com a mal-nutrição , com as consequências da malnutrição, no nível de saúde das populações, se a mais frequente dessas consequências não fosse pura e simplesmente a morte, que evita, como se calcula, despesas vitais.
"Mais de uma centena de pessoas morre todos os anos em Portugal por deficiências de alimentação" diz o Instituto Nacional de Estatística.
E além dos que morrem - pergunto - os que ficam mortos-vivos quantos são?
"Várias formas de desnutrição proteico-calórica e de carência vitamínica" são reconhecidas pelas estatísticas oficiais de saúde, publicadas pelo Instituto Nacional de Estatística, onde operam cientistas de outra especialidade altamente técnica.
Um pouco de boa vontade e vamos descobrir que uma boa percentagem das erroneamente chamadas "despesas de saúde" (que são realmente despesas com a doença) se deve afinal a uma alimentação errónea.
Bastava investir no movimento holístico o que se gasta um só ano nessas "doenças" e a remodelação operada por esse movimento holístico-alimentar, hoje abafado, operaria no modelo alimentar português uma verdadeira e pacífica revolução.
Só que isso nunca se fará porque o Estado (nós todos) pagamos as despesas da doença que vão alimentar os empórios da doença e a engrenagem estabelecida não pode alterar-se substancialmente de um dia para o outro.
Com uma diferença: há os colaboracionistas, com o rótulo protector e o alibi de especialistas, nesse estado de coisas e há os que, no grupo dos heréticos, nada podem fazer, porque autoridade, poder e arrogância são prerrogativas exclusivas do poder e da classe estabelecida dos tecnoespecialistas.
Dois mundos separados por um abismo e que só se encontram na mesa de operações.
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<86-10-14-vp>
A PARTIR DE 1972: PROTEÍNAS DO PETRÓLEO
E OUTRAS GLÓRIAS BIOCRÁTICAS
14/10/1986 - Os mundos ficam ainda mais separados quando começa a ficar clara a total dependência das ciências actualmente mais na moda, a biotecnologia, a inteligência artificial, a cirurgia plástica, a cirurgia dos transplantes, ou pelo menos as que se destacam em pedir mais dinheiro ao governo para as respectivas investigações.
Aliás, o processo de auto-promoção dessas «instituições» começa a ficar estereotipado e a repetir-se de uns casos para os outros.
No fundo, sempre as grandes empresas promovendo a actividade desses diligentes cientistas, que já não ocultam a sua dependência do poder económico, antes pelo contrário, fazem dela medalhão de honra, motivo de glória e pretexto para pedir ao Governo mais dinheiro.
A biotecnologia, pelo menos, não se coíbe de anunciar, como grande progresso da ciência, o que a companhia de petróleos BP reclama como glória sua.
A BP e a ANIC são sócias da maior fábrica do mundo para a produção de proteínas a partir do petróleo.
«A utilização do processo - anunciou a empresa - descoberto pelos cientistas da BP em França e aperfeiçoado na Escócia vem coroar o êxito de 12 anos de pesquisa intensiva e de testes realizados em toda a Europa, onde as proteínas foram comercializadas com sucesso a partir de 1972.»
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<89-10-14-cm>
<dcm89-6> -mein kampf 14/10/1989
AGREMIAÇÃO NATURAL DE FARMÁCIAS QUER REPOR A ORDEM
IMPRENSA ESTÁ ATENTA AO GRAVE PERIGO DOS PRODUTOS NATURAIS
14/Outubro/1989 - Andava a ANF ( Agremiação Natural de Farmácias) a passear no Campo Grande, quando avistou ao longe, montado num corcel de fogo, um grupo de díscolos perigosíssimos, pertencentes ao bando dos «Produtos Naturais 28 de Abril», daqueles que - como diz a prestimosa agremiação - não contentes em danificar a saúde do consumidor indefeso, ainda podem ter efeitos «colaterais» terríveis. O efeito de curar, por exemplo. Coisa que, como toda a gente sabe, os medicamentos não têm nem nunca tiveram.
É verdade. Assim que verificou tão perigoso engarrafamento de «produtos naturais» à venda no mercado abastecedor, surto que ameaça constituir uma epidemia pior do que a sida, Sociedade Anónima e Cª, a ANF apressou-se logo, consciente e zelosa, a telefonar para o jornal «O Semanário» (não apanhou «O Independente» à mão), de forma a que este alertasse as massas consumidoras do perigo latente nos tais produtos naturais, alguns dos quais - afirma o secretário da direcção da ANF, João Silveira - são autênticos medicamentos e estão a invadir lojas, mercados, supermercados, hipermercados, boutiques, mercearias, retrosarias, casa de passe, ministérios, etc. (Ver, sem falta, jornal «O Semanário» de 14/10/1989) .
Houve mesmo quem avistasse produtos naturais da brigada 28 de Abril, nomeadamente oligoelementos, à venda numa farmácia do Rossio, tendo imediatamente ido fazer queixa à PIDE.
«O Semanário» (14/Outubro/ 1989) fez-se eco destas preocupações, enquanto a sua nova e magnífica revista ilustrada e a cores, apresentava a lista negra das poluições em Portugal, um rol extenso de tóxicos e venenos, que só prova afinal como perigosos são os produtos naturais e como, em matéria de saúde, quanto mais químico, petroquímico, tóxico e venenoso melhor.
Espera-se que «O Semanário» venha também fazer em breve o elogio da vida sã e natural, à semelhança do que estão a realizar todos os da concorrência que semanalmente nos educam e semanalmente nos dizem o que é bom e o que é mau.
O natural e o biológico, segundo « O Independente» (6/10/1989), é óptimo. Em outras ocasiões, tem sido péssimo.
Segundo o «Expresso» é belíssimo (14/10/1989).
E segundo «O Jornal», nem se fala: quanto mais natural, biológico e ecológico melhor (à excepção, exactamente, da sua secção de saúde, onde a médica Isabel do Carmo está sempre abespinhada com as coisas naturais que, segundo ela, costumam comer criancinhas ao pequeno almoço. )
Lógica de mercado lhe chamava o editorialista José Mendonça da Cruz, no primeiro número da nova revista que o jornal « O Semanário» começou a publicar em 14 de Outubro de 1989.
Isto, enquanto outro jornalista, Ricardo Garcia, no semanário «Expresso»-Revista, falava em «jogo de mercado» ou mesmo de «moda» a propósito do que designava, em título, a «tendência natural» e que se referia à invasão dos mercados e supermercados pelos chamados « produtos naturais» (14/Outubro/ 1989).
Tal como a ANF, Ricardo Garcia é dos que consideram «moda» o produto natural, o horto biológico, as alimentações isentas de hormonas, antibióticos, corantes e outros venenos adjacentes.
E até que passe a moda, os jornais vão-se referindo, com ar entre enfadado e displicente, a esse pessoal folclórico que bebe sumo de cenouras, come bifes de seitan, queijo de tofu, empadão de algas, souflé de amora, etc.
O Luís Coelho , obviamente carnívoro excepto no nome (coelho gosta é de cenouras) confessando-se embora céptico quando partiu ao ataque do Dr. Adriano de Oliveira (o primeiro médico português da escola neo-hipocrática, verdadeira raridade no mundo do nosso meio naturoterapêutico) acabou por se render à simpatia deste homem onde os anos não pesam mais do que trinta. De tal maneira ficou o Coelho encantado com o Dr. Adriano, e prometeu ali mesmo ir fazer dieta de cenouras para engordar. (Ver a significativa entrevista que veio publicada, para edificação dos consumidores, no semanário de «O Independente», de 13 de Outubro de 1989).
Enquanto a moda impõe, portanto, estes costumes exóticos, tão exóticos que chegam a dedicar-se à prática de comer arroz com dois pauzinhos (sic), que remédio terá a atenta imprensa senão dar-lhes a devida cobertura? Sempre com a aconselhada prudência e o distanciamento necessário geralmente recomendados como prevenção médica contra as doenças infecto-contagiosas. Porque o que os media não dizem é que isto da macrobiótica e adjacentes se pega, tal como a homossexualidade ou a droga. A comunicação social, que não está entretanto classificada entre as doenças infectocontagiosas (mas devia estar), tem que andar à la page e às vezes essa obrigação profissional obriga-a a frequentar antros que não são, de modo algum, os mais recomendáveis. A prostituição (masculina e feminina) no Cais do Sodré, por exemplo, e os restaurantes macrovegetarianos que há em Lisboa, são desses tais casos em que o jornalista deve utilizar máscara anti-gás ou, pelo menos, prevenir-se com alguns saudáveis preservativos.
Nunca fiando nas conversinhas do arroz integral, que bem caro nos pode ficar à nossa querida saúde. Também no que monta o ambiente em geral, rios, mares, oceanos e lagos, a comunicação social não pode alhear-se dos grandes problemas contemporâneos. A comunicação social não faz outra coisa do que preocupar-se sobre os grandes e prementes e frementes problemas do nosso tempo e mundo.
Fala então de rios poluídos como quem conta amendoins na jaula dos macacos. Foi o caso do artigo, muito bem documentado, fornecido à audiência pelo jornalista José Eduardo Barreiros, na já referida revista de «O Semanário» (14/10/1989). Intitulava-se «Portugal - Um desastre ecológico».
Credo, que exagero! Até parece que estamos na Europa e à beira-mar de um estado de nervos. Será assim Portugal um desastre «ecológico» como dizia o texto de José Eduardo Barreiros? Ou será antes um desastre «industrial»? Este solapanço da palavra «ecológico», que começa a servir para tudo inclusive para lavar os corredores do ministério, deve ser devidamente notificado. Tanto mais que o jornal «O Semanário», que leio regularmente desde o número 1, poderá ter-se preocupado ao todo com este «desastre» aí umas três vezes se tanto ou nem isso: mas também é possível que o desastre só tivesse acontecido na semana decorrente entre 7 e 14.
Mas não interessa. Estarreja e Pavia não se fizeram num dia. Importa, sim, é analisar o marketing da questão, pois, como já disse, a lógica de mercado é que manda nestas coisas. Ora, logo ao lado da tal reportagem sobre o desastre ecológico que é este país, a publicidade de alto gabarito e policromia parece negar tudo isso. Atestando a sociedade que temos e merecemos, a nova revista de «O Semanário» (14/10/1989) se, por um lado, dedica quatro páginas apavoradas ao lixo, logo dedica, dialecticamente falando, quatro páginas ao luxo - que a ANF achará, indubitavelmente, muito menos perigoso para a saúde do que os tais produtos naturais praí aí à venda ao desbarato.
Nomeadamente o caviar, que se vende numa modesta lojinha de Cascais a 495 contos/1quilo, a ANF aprova com certeza, sem exigir que as casas que o vendem tenham à frente (ou atrás, conforme os gostos) um director técnico competente e especializado nas qualidades nutritivas e organolépticas do referido caviar.
Aliás, pela lógica da ANF, que se assemelha muito à tal lógica da batata ou «lógica do mercado», onde quer que se venda um qualquer produto comestível, ingerível, engolível, logo atrás (ou à frente, conforme os gostos) deverá estar, vigilante e de bata branca, um licenciado em bioquímica e metabolismo basal, ou mesmo um senhor doutor formado em medicina para aconselhar as pessoas a tomar o que melhor lhes trata da saúde.
Estejam, portanto, atentos, veneradores e obrigados, aos novos comunicados da ANF que, não se contendo em ver a sua homóloga AVIARMA com esses lindíssimos spots televisivos, decretando que o respeitinho é muito bonito, quis também mostrar como zelava pela classe e boa ordem pública.
«Os produtos naturais matam» - proclama a ANF. Mas é que matam mesmo. Ainda há dias, na Rua 1º de Dezembro, vi um homem barbaramente agredido com lecitina de soja que lhe foi arremessada à cara em garrafa de litro e meio, que pesa comós diabos. O pobre do homem foi parar ao hospital e possivelmente lá morreu de lecitina de soja.
Uma única coisa esta imprensa em agfacolor teima em ignorar e é afinal o mais simples de tudo: que o luxo e o lixo são duas faces da mesma moeda, como diria o tio La Palice.
É que o luxo exaltado em quatro páginas não autoriza moralmente a chorar páginas e lágrimas de crocodilo sobre o lixo que ataca o país até ao pescoço.
Só porque lhe chamam poluição, que é o termo mais moderno e tecnocrata, não deixa de ser lixo, lixo & mais lixo. O lixo que o luxo segrega como o caracol segrega a baba.
Se o luxo está, segundo «O Semanário», na lógica do mercado, então também está na lógica do mercado os rios portugueses todos podres, ficando a partir de agora desautorizadas todas as espantações e admirações por causa do desastre.
Poupem-nos à comédia, já que não nos pouparam à tragédia.
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<90-10-14>
<sacks-1>
O CASO CLÍNICO DE OLIVER SACKS
VIAGENS NO CÉREBERO AOS CONFINS DO INACREDITÁVEL (**)
14/10/1990 - Disfarça bem, sob a aparência de um banal livro de histórias, esta que será uma das obras mais importantes e de maiores consequências (está «prenhe» delas...) que se tem publicado entre nós (*), desde essa outra obra-chave sobre a Abjecção contemporânea que é «Limites para a Medicina», nome português que a Sá da Costa deu ao «Nemésis Médical» de Ivan Illich.
Verdadeiro «brain storming» sobre o cérebro humano, sobre a mais profunda e secreta angústia contemporânea - a crise das crises, causa e efeito da apocalipse petrolífero - este relato de um neurologista clínico ultrapassa de tal maneira as fronteiras da «science-fiction» que pode ser lido de vários ângulos, inclusive do avesso, que tem sempre matéria de sobra. E dá sempre pano para mangas. Neste breve espaço, tentarei, no mínimo de palavras, algumas dessas pistas, deixando muitas outras. Espero, no entanto, evidenciar até que ponto o livro do dr. Sacks é explosivo de incidências e consequências no maior debate «mental» do nosso tempo, debate que - será patológico? - se encontra completamente ausente dos «media» portugueses.
E é pena: porque a abjecção contemporânea é uma das motivações estéticas mais
aliciantes, como prova este retumbante livro do dr. Oliver Sacks. Curiosamente,
mais eloquente pelo que não diz mas subentende (a iatrogénese) do que por aquilo
que explicita. Graças a esse poder de esconder o pior, todos vão querer ser seus
pacientes. Só o ar patriarcal das sua barbas constitui lenitivo, sendo meio
caminho andado para a terapia que - hélas! - a nova neurologia confessa cada vez
mais difícil de encontrar. E aqui começa a grande história destas pequenas
histórias de horror e suspense, face às quais
Frankenstein parece uma menina de
chapelinho vermelho.
O HORROR A CORES
Na perspectiva dos «media» a cores, a nova neurologia é verdadeiramente espectacular: é de antologia, por exemplo, o artigo de Sacks publicado pelo melhor diário português, mais uma das suas histórias clínicas mas que, desta vez, junta o útil ao agradável. «O caso do pintor que não via as cores» é naturalmente ilustrado e muito sugestivo, tal como outro artigo que aponta para outra ciência de ponta - a Neurofísica -, que já aí está, ainda a neuropsicologia não aqueceu o lugar, e que tem também o cérebro como centro das atenções dos especialistas. O assunto está na moda e o articulista pergunta: «O cérebro será mesmo um sistema físico?».
Questão metafísica esta, vem provar afinal que hoje tudo se decide à volta do cérebro e de quem melhor o manipular. A pletora de «descobertas» sobre o cérebro, o córtex, os lobos, até mesmo o labirinto e outras circunvoluções, arrisca-se a ser incluída pelo dr. Sacks na grande categoria dos «superavits» que normal e logicamente, como a outra face da moeda, se opõem aos «défices» neurais( ou «deficits», como a editora insiste em tipografar, já de acordo com o acordo ortográfico de 1990).
Como o dr. Sacks mostra neste seu livro deslumbrante, nem só de faltas, carências e deficiências vivem as neuropatias periféricas. Há também, inversamente, os casos de excesso de informação neural, caracterizados por uma típica fúria que leva os doentes a desenhar tudo o que lhes passa pela cabeça... Resultam daqui obras interessantíssimas, de que o livro reproduz alguns exemplares.
TERAPÊUTICA, NICLES
Com a sua postura estético-anedótica face à doença - as neuropatias periféricas começam a constituir um autêntico flagelo contemporâneo - Oliver Sacks descontrai-se e descontrai-nos. Como diria um político ilustre, desdramatiza as neuropatias graves. É uma nova filosofia de vida perante a morte que ele inaugura. Uma saudável atitude frente à doença incurável. Os seus livros atingem a opinião pública, manipulam-na, preparam-na, e no seu consultório de Nova Iorque é previsível que ele só marque consulta daí a três, quatro, cinco meses. Sequelas da popularidade, que ele merece, pois, ao transmitir todo o colorido que tem, por exemplo, o caso de um doente - Jonnathan I - atingido por amnésia das cores, «acromatopsia», consegue deixar mais felizes os que ainda conseguem ver a cores a querida televisão, cientes do tesouro que afinal possuem e de que não se tinham apercebido antes do caso Jonnathan.
Sacks é assim o grande benemérito do nosso tempo: face à mais sombria das ameaças - o cérebro humano atingido no seu lobo esquerdo, mas principalmente no seu lobo direito, aquele que dá direito a percepcionar a imagem e a realidade das coisas - é claro que os casos clínicos que relata têm sempre algo de surrealista, que até para Breton era a visão do mundo não estereotipada nem maioritária.
Com toda esta popularidade e glória profissional à sua volta, corre apenas um risco - transformar-se ele próprio num caso clínico incurável, caso haja para aí algum sociólogo desembolado, tão arguto como ele, desejoso de compreender cientificamente o fenómeno: não só porque é que o número de neuropatias sensoriais sobe em flecha desde que a anestesia geral foi inventada e praticada, mas também como é que Sacks consegue escrever um livro sobre o efeito sem jamais referir a causa das causas que originam o incremento de tal fenómeno. Cairão as neuropatias do céu como as pestes medievais? Ou dever-se-ão apenas à sociedade traumática que temos e ao progresso da sinistralidade rodoviária?
Para ele o «défice da propriocepção» (Sherrington, 1890), por exemplo, deve-se às manias dietéticas que assolam o mercado contemporâneo de víveres. Com grande despacho de língua, arruma assim o assunto em «postscritum» (como a editora insiste em tipografar) à história da paciente Cristina e do seu «défice proprioceptivo:
«Soube pelo dr H.H. Schaumberg - escreve ele - que estão a aparecer em todo o mundo muitos pacientes com neuropatias sensoriais agudas. A maioria são maníacos da saúde ou têm uma dieta hipervitamínica, consumindo doses excessivas de vitamina B6 (pirodoxina).»
Cá está: Sacks descobriu a grande culpada disto tudo, a pirodoxina:
«Existem agora - informa ele - algumas centenas de homens e mulheres que não sentem o seu próprio corpo, embora a maioria, ao contrário de Cristina, tenha francas hipóteses de recuperação, logo que deixem de se envenenar com pirodoxina.»
O entusismo do Dr. Sacks ao descobrir o grande «bode expiatório», leva-o, inclusive, a esquecer que o caso de Cristina, por ele relatado, se manifesta exactamente no hospital, na véspera da operação, como o autor escreve à página 67 da edição portuguesa: «Deu entrada no hospital três dias antes da data prevista para a operação e foi posta a antibióticos.»
Tem a certeza, dr. Saks, que não havia pirodoxina misturada nos antibióticos? «Ainda mal saíra da operação - constata ele - tinha piorado. Era-lhe impossível manter-se de pé, não conseguia segurar nada nas mãos que «flutuavam».»
Há aqui uma escolha que o leitor atento tem que fazer: se o autor nos convida a ler nas entrelinhas as sua histórias «fantásticas» e é por isso que ele publica o livro, não faz muito sentido que deixemos de ler, também nas entrelinhas, passagens como aquela que transcrevi. Decifremos então, já que ele tanto gosta de enigmas.
Aliás, perante o regalo estético-literário destas histórias, a gente esquece, por exemplo, que a neuropsicologia, em princípio, deveria ser (também) uma terapia. Só que, embriagado pelas descobertas de investigador, o Dr. Sacks esquece praticamente a terapêutica que, ele o diz, é cada vez mais impossível para casos destes... A neuropsicologia aparece assim atacada de «amnésia aguda», o que - espero - não deverá ter carácter neurológico tão grave que leve a interná-la de urgência.
Mas se não há terapia, os pacientes interrogam-se para que existe afinal tal ciência e porque hão-de continuar a servir-lhe de cobaias?
Se Wittgenstein, por exemplo, cobaia eventualmente favorita do dr. Sacks, lesse o que este doutor novaiorquino escreve dele, ia ter um dos seus ataques de melancolia maníaco-depressiva e talvez não acabasse tão bem como acabou, suicidando-se.
Mas a gente esquece o fracasso terapêutico da neuropsicologia, face a tão delirantes histórias como as que este livro conta. Só há o risco de algum doente mais impaciente pedir ao dr. Sacks direitos de autor.
LOBOTOMIA PRÉ-FRONTAL
A nomenclatura usada pela nova e velha neurologia é outro dos encantos deste livro. São palavras lindíssimas e evocatórias: afasia, ataraxia, encefalite, acromatopsia, agnosis, dislexia, etc. Foi encontrado o estilista desta nova estética no autor deste livro. Onde falta, entre outras, a belíssima palavra que é «lobotomia».
Na lista dos eventos a esquecer (com uma providencial amnésia semelhante à do «marinheiro sem rumo», nome poético que ele dá ao seu paciente Jimmie G.) estaria, por exemplo, o prémio Nobel português, Egas Moniz, cuja «lobotomia pré-frontal» o autor injustamente não cita. Aliás, ele descarta a cirurgia cerebral da sua estratégia clínica, o que pode constituir outro dos mistérios que nos seduzem nestas histórias policiais e de espionagem aos confins do inacreditável...
Citando Buñuel, Witt, Nietszche, Freud, Thomas Mann, ele mostra não só a sua cultura humanista e literária, como cria um ambiente de familiaridade bastante profiláctico, longe da paranóia que é habitual em especialistas agarrados à gíria técnica. Enfrentando com grande dose de «fair-play» o fracasso terapêutico da nova neurologia (encurralada entre cirurgia e sequelas da cirurgia) ele aponta o caminho da «alma»- eureka! - como cura, quando o cérebro falha, bombardeado que continua a ser por uma engrenagem - o terror tecnoindustrial - que tem no cérebro humano o alvo predilecto das sua agressões sistemáticas.
O homem que confundia a mulher com um chapéu - símbolo supremo desta sociedade neocanibal - ainda tem afinal um refúgio: a alma, se por acaso não vier para aí algum neurologista desembolado dizer que nunca a viu na ponta do bisturi. Vá lá, o dr. Sacks não é mau de todo, merece absolvição e o seu caso tem cura possível: face à derrocada contemporânea do cérebro, ele (ainda) acredita na alma humana, como último reduto de cura, resistência e clandestinidade.
Viva o velho!
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(*) «O Homem que Confundiu a Mulher com um Chapéu», de Oliver Sacks, tradução de Maria Vasconcelos Moreira, Colecção «Antropos», Editora Relógio de Água, Lisboa
(**) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no jornal diário «A Capital», na rubrica «Livros na Mão», em 16/10/1990
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<98-10-14>
<di-74-di> = diário de um idiota
OS GUARDAS DO GULAG - CORROER O HEROI –
14-10-1998
A posição ideológica... Puf! Porque se preocupam os amigos? Ser isto ou ser aquilo, da esquerda ou da direita, que lhes importa?
Reputação profissional: colaboras aqui mas não colaboras ali.
O perigo de não estar «bem visto», o perigo dos contágios, das vizinhanças - o oficioso, o oficial, o fascista, o pró-fascista. Sabe-se lá! Quando menos se espera.
Mas pode ser-se moral em vaso fechado?
Tenho que dar contas? A mim próprio, tenho que dar contas?
Tudo depende do preço e eu não me vendo caro. Tenho-me em muita consideração...
Ser queimado e não ser queimado: eis a questão. Entrar no grupo ou não entrar na grupo: eis o busílis.
Mas muitas mercearias neo-realistas, por exemplo: pois, pois.
E surrealistas? Onde?
Com que então perseguidos eles, os neo-realistas? Com que então os perseguidos?
Mas então queimado uma vez não é queimado sempre? Quantos graus marca o barómetro? Agora é altura . Investe. Podes sair-te bem.
E a necessidade? E os 100 paus do artigo? E a fome? E o casaco de há cinco anos? E no café o ar feliz dos amigos militantes? E a saúde deles? E as ferroadas?
Publicar para comer? E a moralidade ? Quem salva a moralidade? Talvez o Pacheco. Um herói, o Pacheco. Condição sine qua non do herói: tuberculizar a tempo.
Ah!
*
1974 (?) - OS GUARDAS DO GULAG - A verdade é esta, meu caro: ou se nem os que uma conspiração a nível nacional (inter-regional, melhor dizendo) está atirando para o «ghetto» dos recusados, ou os recusados fazem alguma coisa para se defender dessa conspiração e levantar cabeça, ou irremediavelmente, vamos ficar todos póstumos, com a desvantagem de tudo quanto escrevemos se ter destinado ao compatriota contemporâneo, deste tempo e desta terra.
O mérito não se mede agora, só o futuro dirá quem fica e quem não fica: mas sem publicar, ficando inédito, não há hipótese nenhuma de ficar: nem hoje, nem amanhã, nem nunca.
Que te parece?
Estou a ficar sensível à segregação; às recusas sistemáticas dos editores, porque só aos 35 anos consultei editores e me apercebi de que era tempo de pensar em mim.
Preocupado, ao longo dos anos, em queimar tempo e vida em jornais onde procurei dar guarida e nome e prestígio (sabemos muito bem quanto, em economia de mercado, vale um nome!) aos que considerava «companheiros de estrada» ou de «geração», ia-me esquecendo da sobrevivência própria. E acordei tarde. As portas estão mesmo fechadas. As fortalezas blindadas e os que fazem e desfazem reputações bem unidos na conspirata.
Nunca fui homem para me assarapantar com a solidão, mas desta estou mesmo a sucumbir. ■