<03-10-09>

Posted by Big-Bang - quinta-feira, 9 de Outubro de 2003

Retrovisor (1959-1974) ->Day by day
15 anos de memórias

<59-10-09>

<bandidos-VA> - versos publicados de afonso cautela

A CAPITAL

[ Lisboa, 9-10-1959]

Um velho costume oriundo das Antilhas
e internado nos hábitos indígenas
subsiste entre os habitantes dos Cárpados:
meia dúzia decide em nome de milhares.

Já invocam a Razão que mais tarde surgiria entre os povos ditos civilizados.

A Razão é assim sem ninguém dar por isso
a deusa feminina deste povo macho.

Feminina e dona de fecundíssimas ninhadas
atinge os fins de embaratecer a produção
goza de sólido prestígio nas páginas dos livros
que protegem os costumes com capa de couro
e os estados criam para os patriotas.

Dotada de um poder magnético superior
visível em vários pontos da terra menos no pólo
onde é sempre noite e pinguins focas ursos
ou animais de pêlo comprido e remo lento
não têm olhos para o dia
a Razão destes povos atinge todavia
um largo raio de acção.

Quando tudo isto há-de ser pago não sei
tudo se paga no MUNDO ORGANIZADO dos homens.

Quando nos hão-de pagar o que nos roubam
sei ainda menos nem o sabe ninguém.

A sentinela apenas conhece do muro o seu bocado
regressando sempre ao ponto de partida.

Assim nós vigiamos
e nada sabemos dos desígnios de quem manda.

Só sabemos que há uma raça de homens
nascida para perdoar
e outros apenas culpados
e outros para culpar
uns por baixo outros por cima
uns que ganem e outros que falam
uma raça de homens só para tapetes
e outra raça para fogão de sala
uma para aguentar as pisadelas
e outra para pisar
uma para limpa-chaminés e outra para chaminés.

Cumpre-nos a nós a ti a mim
cairmos até ao cansaço
dançarmos até ao delírio para que o nosso país e sobre a terra
haja cidadãos cumprindo o dever de cidadãos
sem dever nada a ninguém
para isso é que foi criada a nossa dívida
para que subsistindo a fatalidade hereditária
a velha justiça continue entre os seres.

Ou para que uma razão além da razão com razão viesse não oriunda das Antilhas.

AFONSO CAUTELA, in "O Nariz", 1961

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<71-10-09-ls>

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GENERALIZAR A HERESIA (*)

[«Notícias do Futuro», «Notícias da Beira», Moçambique, 9-10-1971 ] - Pode parecer grave contradição que, leccionando Theodore Roszak numa Universidade, ao mesmo tempo critique a cultura oficial

Mas será uma contradição o que de tal se aparenta?

O problema para os da contra-cultura, como já tentei dizer, não é o de rejeitar a ciência, a técnica e a tecnologia mas o seu carácter totalitário, não é o de assumir uma contestação crítica sem critério, devastadora, niilista. Devastadora, sim, de tudo o que signifique ditadura (mental e outras), racismo, colonização, opressão e repressão, exploração do homem pelo homem, abjecção. Mas criteriosa, alvejando certo e não a torto e a direito, logo que se trate de abrir a ciência a tudo o que a ciência se deve abrir para não se negar e contradizer, grave, criminosamente.

Não é, tão pouco, a política que a contra-cultura rejeita, mas a política de quintal, fechada, totalitária, dogmática, imobilista, de via reduzida, oportunista. Idem para a filosofia, idem para a arte, idem para a literatura, idem para a Medicina, idem para tudo o que seja humanidade na sua (r)evolução para a super-humanidade.

Também Henri Lefèbvre ensina. E outros, alguns outros iríamos encontrando que, embora dentro das instituições da Arrogância, praticam a Tolerância e mantêm a sua independência de espírito, a sua liberdade de iniciativa, a sua imaginação em actividade, a sua crítica e auto-crítica em acção, a sua capacidade criadora, inovadora e revolucionária em movimento.

O mal não é o lugar onde se está mas deixarmo-nos dominar pelo lugar onde se está, negando previamente o dinamismo de que naturalmente somos dotados e negando, ao negar esse dinamismo, a possibilidade dialéctica de superação em que, através de todas as circunstâncias, das mais favoráveis às mais desfavoráveis, todo o homem, todo o indivíduo se encontra.

Não podemos fazer do nosso condicionalismo um alibi para as nossas tergiversações, incoerências, oportunismos, imobilismos. Para os nossos erros, sim, porque errar é do homem, porque errar é andar, progredir, viajar e por isso é sempre progresso, é sempre normal, é sempre lícito. Errar, sim, que é o contrário de parar e parar considerava Chardin o único «pecado»: fechar a porta ao infinito, travar a marcha da evolução, paralisar a espiral cósmica.

Se é próprio das instituições (escola, empresa, partido, igreja, academia, tertúlia, grupo, etc) o imobilismo, o deixarem-se amolecer e fecharem-se em si próprias, é próprio do homem que se pretende homem representar o movimento para a frente. Se é próprio das instituições a inércia, é próprio dos homens contrariar constante e dialecticamente essa inércia. Ainda que se corra (quase sempre!) o risco da heresia, do isolamento, da solidão.

Resultado, daqui, pois, não o negar niilista da ciência, da cultura, da política, da razão, da técnica a da tecnologia, mas um implícito convite à heresia (à difícil heresia), à heterodoxia (à difícil heterodoxia), à imaginação (à difícil imaginação), à hipótese futurizante dentro da ciência, da cultura, da política, da razão, da técnica e da tecnologia. Só cumpre o dever aquele que vai além desse dever. Porque cria. Porque impulsiona. Porque não deixa adormecer nem estagnar actividades, serviços, instituições.

A descoberta da heresia parece-me uma das mais importantes, senão a mais importante ocorrência cultural da década de 60, da nova cultura, descoberta popularizada pelo «slogan» «a imaginação no poder», a image-action. De facto, é o princípio da imaginação criadora generalizada a todos os campos da praxis humana. De facto, falar de contra-cultura é sinónimo de meta-política, de arte, de literatura de vanguarda, de medicina paralela. O sentido neo-utopista de superação na unidade, eis a grande heresia de todos os tempos mas que tem agora a particularidade de ter incarnado pela primeira vez na História, a partir de Maio de 1968. Uma velha novidade.

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(*) Este texto de Afonso Cautela, breve nota de leitura, foi publicado em «Notícias do Futuro», «Notícias da Beira», Moçambique, 9-10-1971

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<74-10-09-ie->

CAMPANHA  PARA UMA MORATÓRIA NUCLEAR

9/Outubro/1974 - A campanha para uma Moratória Nuclear arrancou em Portugal com uma comunicação apresentada por José Carlos Costa Marques ao I Encontro do Movimento Ecológico em Portugal, realizado em 9 de Novembro de 1974, no Centro Ecuménico de Reconciliação (Buarcos). Era o seguinte o texto da referida comunicação:

<documento-4> os dossiês do silêncio

 I ENCONTRO EM PORTUGAL DO MOVIMENTO ECOLÓGICO

(FIGUEIRA DA FOZ, 9/10 NOVEMBRO 1974)

Nos meios oficiais que se pronunciam acerca da actual crise ecológica, é habitual vermos ocultada, quando não totalmente mistificada, uma das formas de poluição mais insidiosas e perigosas para a integridade biológica da espécie humana a para a saúde das populações: referimo-nos à poluição radioactiva originada pela indústria nuclear e pelas chamadas aplicações "pacíficas" do átomo, cuja estreita relação com a dependência do átomo bélico se procura esconder para fins de propaganda.

No que respeita à utilização da energia nuclear para produção de corrente eléctrica, é frequente vermos na imprensa de grande circulação a afirmação de que esse tipo de energia é o mais adequado para evitar as formas de poluição que apresentam as fontes clássicas de energia. Pretende-se assim enganar o público, mantendo-o na ignorância dos perigos a que fica exposto pelo pretenso átomo "pacífico"

A luta que (nos países da Europa Ocidental desenvolvida e nos Estados Unidos) tem sido efectuada, por parte das associações conservacionistas e ambientalistas, e outros grupos de cidadãos interessados na preservação de um ambiente saudável, contra a instalação de centrais nucleares e a favor de uma interrupção no funcionamento das centrais já existentes, tem produzido uma série impressionante de documentos, sobretudo ligados com as ciências biológicas e particularmente com a radiobiologia, documentos esses que apontam inequivocamente para uma decisão imperiosa: a moratória nuclear, ou seja, a interrupção da execução do programa nuclear em benefício de uma controvérsia e de um debate em que seja dado a conhecer amplamente ao público o ponto de vista da radiobiologia; pressupõe-se, nessa circunstância, que à indústria nuclear só seria permitida a actuação quando e se os problemas de segurança actualmente sem solução possível viessem a encontrar solução que deparasse com o consenso do mundo científico e, especialmente, dos radiobiólogos e ambientalistas.

Destacamos, nessa impressionante documentação, e em atenção para com o leitor honesto mas ainda céptico quanto ao que vimos afirmando, os trabalhos devidos aos norte-americanos J. Gofman e A. Tamplin que durante muito tempo estiveram ao serviço da Comissão de Energia Atómica dos Estados Unidos da América (U.S.A. EC), autores, entre outras, da obra Energia -Envenenada: as Centrais nucleares em acusação (Poisoned Power: The Case Against Nuclear Power Plants, editada por Rodale Press inc., Emmaus Pensilvânia, USA, 1971). Desses autores, destacamos a seguinte afirmação, que data da época em que se encontravam ainda ao serviço da USAEC:

'”Estamos convencidos, baseando-nos nas nossas pesquisas, que as radiações que serão provocadas pelos programas de energia atómica em rápida expansão constituem um perigo de longe muito mais sério do que o que até aqui se pensou. Afirmamos também que os perigos de cancro e leucemia resultantes da radiação atómica são vinte vezes mais elevados do que pensavam os especialistas ainda há menos de dez anos. E somos também de opinião que o público está a ser enganado por uma inteligente e bem financiada propaganda de mistificação a respeito de uma "energia nuclear limpa, barata e segura". Tal coisa não existe".

Estudo atento merece igualmente a vastíssima documentação que há vários anos vem sendo publicada pela Associação de Protecção Contra os Raios Ionizantes (A.P.R.I , Association de Protection Contre les Rayonnements Ionisants, 12 rue des Noyers F. CRISENOY 77390 Verneuil 1'Étang, França), animada pelo lutador incansável e admirável que é Jean PIGNERO. Dessa documentação, destacamos: Memorandum de médecins dénonçant la nocivité et les dangers de l’industrie nucléaire (Memorando médico acerca da nocividade e perigos da indústria nuclear) e a obra, de impressionante arquitectura intelectual e científica, L'Atome et L'Histoire (O Átomo e a História), devida ao médico e radiobiólogo francês Dr. Pierre Pizon

Se a indústria nuclear se apresenta indefensável de um ponto de vista biológico, ela é igualmente contestável do ponto de vista energético e económico. Com efeito, os programas nucleares gastam muito mais energia do que aquela que produzem e não se vislumbra como essa tendência possa ser superada. Veja-se, não só o comunicado e petição relativos à. escassez de petróleo e ao átomo, subscrito por numerosos grupos ambientalistas franceses (edição A.P.R.I.), como ainda matéria publicada, em número da última primavera, pela revista U.S. News and World Report, publicação que não pode ser acusada de entusiasmo ambientalista.

Ora, também entre nós se pretende incutir no público o carácter inelutável e necessário da energia de origem nuclear. Frente à problemática acima esboçada a traços largos, é chegado o momento de nos perguntarmos se convém a Portugal, onde também existe um programa de indústria nuclear "pacífica", entrar pela via perigosa em que outras nações já se envolveram. Lembremos que a luta das associações ambientalistas nos Estados Unidos conseguiu já questionar o prosseguimento da execução do programa nuclear norte-americano. A Suécia foi o primeiro país a adoptar oficialmente uma atitude de prudência em matéria nuclear (um "tempo de reflexão" como lhe chamou o ministro sueco da energia); se a moratória proposta no Parlamento foi rejeitada, esse mesmo Parlamento aprovou uma espécie de Pré-moratória que, embora não pondo em causa as centrais já programadas, se recusava a uma ampliação imediata do programa nuclear inicial; (veja-se Le Sauvage nº. 4-5, PP. 49-51; Julho/Agosto 1973, 11 rue d'Aboukir, Paris 2 ême - France) em virtude dos alarma feitos pela radiobiologia. Portugal tem a vantagem de ainda não possuir nenhuma central em funcionamento. Caberá a todos os portugueses de boa vontade e intelectualmente honestos, dispostos a porem acima dos mitos da época os problemas reais, a iniciativa de tentar no nosso país seguir o caminho civilizado, instruído e sensato que, nesta matéria, nos aponta a Suécia.

Numa época histórica de tão profundas promessas democráticas como a que o nosso país atravessa, mal seria se um assunto de tanta magnitude fosse deixado à decisão unilateral de industriais e técnicos, sem audição da população e sem controvérsia nos meios de comunicação. Pensamos ser indispensável entre nós fazer preceder qualquer passo, irreversível, no caminho nuclear, de controvérsia através da televisão, cinema, rádio e imprensa. Numa época também em que Portugal se abre para o mundo, e constantemente nos visitam personalidades respeitadas de outros países, parece-nos indispensável convidar para esse debate os já citados Gofman e Tamplin, Jean Pignero, Pierre Pizon, e ainda outros cientistas e ambientalistas de inegável dedicação à causa da saúde pública, como são: Daniel PARKER, Pierre Samuel, Alexandre GROTHENDIECK, Émile PRÉMILLIEU, Mary WEIK, Barry CONMONNER, Sheldon NOVICK, Edward GOLDSMITH e tantos outros.

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(*) Este texto de José Carlos Marques foi publicado no semanário «Maré Alta» da Figueira da Foz e nos opúsculos policopiados da «Frente Ecológica» (Paço de Arcos) , sendo o nº 1 da série «Textos de Apoio»

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<74-10-09>

<arrabal-nf>

A CERIMÓNIA PÂNICA DE ARRABAL

MEDROSAS REFLEXÕES EM TORNO DO ABISMO HUMANO

[9/Outubro/1974]

Mais religiosa do que histórica, mais mitológica do que lógica, mais metafísica do que dialéctica, a visão «pânica» do mundo que Arrabal sustenta e de que o filme «Viva La Muerte»(*), baseado no seu romance «Baal Babilónia», é o mais completo compêndio, dificilmente se poderá inserir nos esquemas de análise correntes.

Relapso a sistemas prévios, a uma ideologia que não seja a da sua própria exuberância existencial, a história que Arrabal narra é a sua e não queira ver-se na época ou nas alusões a uma concreta geografia política, mais do que cenários onde a cerimónia «pânica» decorre.

A cerimónia da crueldade e da inocência. Da tortura e da expiação. Do canibalismo e da autofagia. Do excesso e da fome. Do sangue e dos excrementos. Do sublime e do abjecto.

AUTOFAGIA E CANIBALISMO, PORQUÊ?

A humanidade de Arrabal (fielmente traduzida pelos desenhos de Topor que ocupam o genérico, aliás tão notável quanto o filme) consome-se numa perpétua autofagia, num canibalismo crónico que vem desde o princípio dos séculos (no princípio era a tortura, dirá a bíblia pânica...) e aponta escatologicamente para o fim dos tempos.

Visão mítica, certamente circular, desesperada e sem alternativa, por isso pouco ou nada dialéctica (a espiral taoísta encontra-se arredada da cosmovisão de Arrabal) não vejo porque havemos de censurá-lo pela franqueza de confessar uma fraqueza que é dele e nossa, a coragem com que nos põe e propõe o que outros talvez sintam e pensem mas não ousam, por compromissos ideológicos pré-assumidos, dizer em voz alta.

Franco-atirador, Arrabal está à vontade para desatender os compromissos a que nunca se enfeudou...

Crer ou não crer no destino do homem, acreditar ou não na sua intrínseca crueldade (ou bondade), é um direito fundamental do homem e, sob nenhum pretexto, ideológico ou pragmático, didáctico ou cívico, se poderá negar esse direito.

Se, como no caso de Arrabal, há indiscutível talento estético (que chega a roçar, na pior das hipóteses, o precioso e o alambicado), afigura-se-me higiénico, de vez em quando, alguém sondar os abismos da espécie humana, seus desvãos e cavernas, parece-me útil estas «viagens ao fim da noite» onde o grande pavor (o grande pânico...), o grande horror se mostra como a outra e real dimensão do homem.

Realismo não é só o que relata, descreve, pinta as superfícies diurnas, as planícies solares e os contornos sem ambiguidade das relações lógicas, sociais, racionais.

Realismo é também o que prescruta túneis e cavernas, labirintos e «babilónias», enfim, aquela realidade nocturna, irracional, para-lógica e surreal dificilmente devassável por olhos conformistas.

Arrabal é um espeleólogo daquele inconsciente colectivo que Jung teorizou, um mergulhador nas profundidades oceânicas onde se encontra a parte imensa e imersa do «iceberg». Não sendo o único poeta, o único profeta a explorar essas águas, Arrabal é, com certeza, um dos que têm obtido maior êxito público com a aventura... E continua obtendo.

Uma ética pouco exigente classificará de «pessimista» a visão lúcida, exigente, incorrupta desses espeleólogos do possível/impossível. Como todos os rótulos, esse é mais uma esquematização inadmissível de uma realidade complexa. O homem não é um mecanismo tão inteiriço como as ideologias, para comodidade partidária, o fazem. Guarda contradições de dimensão imprevisível e quase monstruosa. Libertar os monstros desses subterrâneos -- como Arrabal faz em «Viva La Muerte» -- até que todos se devorem entre si, tem sido a função de uma arte que, deesignada fantástica, apenas se limita a relatar estratos do real que, por norma, escapam às ópticas diurnas e de superfície. Quando o homem dorme, abrem-se os portões para o mundo que os poetas conhecem.

Sensível, no filme de Arrabal, são os estratos culturais (religiosos) sobrepostos mas distintos que se podem divisar: se a referência ao estrato mais antigo, a cultura púnica, é evidente logo no título que o romance original ostenta (lembremos que a obra se chama «Baal Babilónia» e lembremos que o Deus Baal é, pelos autores clássicos, identificado com Cronos ou Saturno, deus que devora os seus próprios filhos) -- vem depois a herança católica e judaico-cristã mas, distinguindo-se desta, o contributo propriamente hispânico.

Os hábitos da tradição hispânica -- semana santa, verbena de la paloma, touros e touradas -- explicitam-se em contornos diferenciados dos hábitos que, mais antigos e enraizados mas antecedentes ancestrais, não deixam de constituir o seu melhor pano de fundo.

O que Arrabal nos diz, sem sombra de dúvida, é que a «guerra civil», por muitas causas próximas que tivessem a defini-la e a diferenciá-la, vem detrás, vem desse magma infernal onde nascem todas as religiões, a crueldade e a inocência, a pureza e a hediondez de todas as religiões. Afinal, do homem.

As imagens de sacrifício e as situações de tortura não deixam de se sobrepor neste filme que é talvez a súmula do homem como torturador congénito, como torcionário incurável de si próprio, como lobo do homem : os carneiros no matadouro (em cujo charco de sangue a mãe de Fando se banha voluptuosamente...), a ventosa que o barbeiro aplica na cabeça do cliente, a avó que queima o dedo do neto para o «educar», a freira que manda o aluno ficar de pé com dois pesados dicionários nos braços, eis que em todos os momentos a tortura se mostra a constante do homem (na visão de Arrabal) e, por isso, eminentemente teatral ou cénica, já que o cinema de Arrabal é fundamentalmente espectáculo-cerimónia-teatro. E já que o teatro é, na sua visão, a essência do homem.

Se, para Arrabal, o teatro não anda longe da cerimónia, da liturgia, do sacrifício e do ritual, é sempre a um deus sangrento e devorador dos seus próprios filhos (um Baal ibérico) que Arrabal se entrega, com toda a alegria que pode haver no sofrimento.

Fando é a infância de Arrabal, a sua inocência massacrada, a fase iniciática do grande banquete de sangue e morte da existência. Em outra sensibilidade que não a deste rapazinho de Ciudad Rodrigo talvez não tivessem ficado as marcas desses terríveis dias da guerra civil em que Franco assegurava estar disposto a matar metade do País, se tal fosse necessário para manter a ordem... Mas na sensibilidade de um poeta, de um homem em revolta, resultaram fatalmente em uma maneira de ver o mundo, de o odiar, de nele escarrar até às fezes. É da infância, anterior à consciência da traição, anterior ao nojo e à náusea, anterior à tuberculose e ao paroxismo da humilhação, que pertencem as imagens serenas, líricas, límpidas que o filme contém. Desta matança que é a cerimónia pânica, algo sai ileso: um pouco de amor filial, um pouco do jogo infantil e pouco mais. Baal, o deus sangrento, irá em breve devorar os filhos, não mais lhe deixando um segundo de tréguas. O que torna o filme obcecante é essa guerra (civil) perpétua, essa voragem autofágica, esse insaciável canibalismo.

Nada é solene, nada é sagrado ou sério para a cerimónia pânica, porque o absurdo fundamental da vida, da história, do homem torturador do homem, jamais o consentem. Nem a morte, nem a inocência, nem a beleza, nem a maternidade escapam ao hálito infernal: tudo sai corrompido e vil desta visão impiedosa que totaliza e torna indivisível, embora em guerra civil, a espécie humana.

Para a escola pânica, a guerra civil é de sempre e vem, como o canibalismo, como a autofagia, de idades míticas em que, prostrados, todos adoravam o Deus Baal. Se a morfologia histórica de uma guerra civil e seus pelotões de fuzilamento pode fazer esquecer momentaneamente essas raízes míticas, a cerimónia pânica recorda-o de novo, pelo silício, pela blasfémia, pelo anátema e pelo sacrilégio.

As crianças comem sanduíche de escaravelho, depois de minuciosamente o escortejarem com uma lâmina... Pequeno e rápido apontamento de uma lei geral, permanente: a tortura infligida pelos seres, constante e continuamente, é a «guerra civil» de que Arrabal narra a crónica e onde a outra -- a de Franco, a dos fascistas contra comunistas, a da resistência e da prisão de Burgos -- passa apenas a eco ou reflexo.

Quando os soldados de Franco vão pelas serranias de Castela proclamando o grito de guerra franquista -- «Viva la Muerte» -- e assegurando que, se necessário for, matarão metade da população de Espanha, o fenómeno histórico é claramente um eco do nómeno ôntico...

Quando, na apanha da uva, vemos os trabalhadores obrigados a usar açaimo para não comerem a fruta que apanham, é apenas a nota quotidiana, gritante de um princípio geral -- a humilhação que preside à exploração do homem pelo homem.

Os próprios preconceitos de um catolicismo bárbaro têm um sabor a torturas celtibéricas: a avó que queima o dedo do neto por este pôr a pilinha à direita, «feito maricas»; a tia de Fando pedindo-lhe que a fustigue com um látego, para que o avô, ao expiar os múltiplos pecados, sofra menos no outro mundo; a freira-professora submetendo os alunos a constantes torturas; mesmo Fando, quando puxa os cabelos da sua pequena companheira, é um inevitável sintoma do que nele já existe de satânico -- de pânico. E quando a histeria religiosa, aproveitando a sangrenta repressão política, estigmatiza de «revolucionário vermelho» aquele que não acredita no deus católico, temos aí apenas outra forma que a imensa morfologia do Mal encontra para se revelar entre os homens.

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(*) Filme distribuído pela Animatógrafo■