<03-10-05>

Posted by Big-Bang - domingo, 5 de Outubro de 2003

Retrovisor (1989-1992) ->Day by day
4 anos de memórias

<89-10-05>

<dilúvio-1> ficções inventadas – antes do dilúvio.

EM ESTADO NOVO

5/10/1989 - As novas gerações tinham razão para se sentir defraudadas, desde que o Estado Novo selenita abolira uma das festas urbanas mais populares e que gozavam de maior audiência entre a classe média, através de telecanais em difusão permanente para o território.

Nessa orgia colectiva, que decorria em data certa do ano gregoriano, reproduzia-se a carnificina habitual nos tempos pré-históricos e de que era protagonista o mais mortífero dos instrumentos rastejantes, o automóvel , anterior ao poder canino vigente.

Centenas de figurantes condenados às galés eram aproveitados, ao vivo, para serem estropiados de toda a maneira e feitio, com as quatro rodas advindas de praças e becos e convergindo no massacre geral de inocentes que ainda se aventuravam a deambular nas escusas ruas da cidade.

Formou-se então uma verdadeira salada russa, com o sangue das vítimas, a lata das viaturas, policias sinaleiros metidos no embrulho, amantes de sinal contrário, mas bastante viris, táxis em velocidade de cruzeiro, amálgama de ossos e metal, carabinas enfeixadas na parede, comboios infantis em árduas exibições, números circenses de contorcionismo, alegorias míticas dos descobrimentos e da descolonização (qual delas real, qual delas anacrónica?), animais domésticos de açaimos reluzentes, sopas sintéticas com óptimo aspecto, puré de legumes, sopa de legumes, sopa de cogumelos, água a ferver, coelhos registados no Arquivo de Identificação , quando já era o tempo das vagas magras, matérias explosivas que nidificavam jovens com formas esculturais mas bojudas, toneladas de jornais ardendo no holocausto da informação diária, a quinta coluna dos árbitros em luta aberta contra o livre-arbítrio, leões domésticos profundamente chatiados em reservas ecológicas de protecção à caça selvagem, libelos a favor dos antibióticos, a ciência ao serviço da vida, o papel higiénico ao serviço da limpeza anal, lotarias europeias dando a última oportunidade às classes ainda não totalmente desfavorecidas mas que a isso se candidatavam, cartas de condução atribuídas em tempo de fenos amarelecidos, mas, acima de tudo, a fome. A fome galopante e traiçoeira, fulgurando mil raios na testa imensa, a fome de sinistras e radiantes algemas nos mais lindos pulsos do Mundo.

Tudo isso fora relegado para o esquecimento em favor das prioridades nacionais que eram agora estabelecidas pela contra-corrente do pragmatismo comtiano, tendência mais reaccionária.

De permeio, o Papa ainda celebrava a missa negra aos domingos, restos de uma época áurea, beijando os terrenos menos árduos e abençoando as violências mais atrozes como era próprio do seu Pontificado evangelizador.

Das violências institucionalizadas, só os abalos telúricos continuavam, regularmente, contaminando de exorcismos já mortos e rituais remanescentes, as hiantes fauces de um abismo em forma de leão enfurecido. Mas dormente.

De tudo isto se fazia a festa nacional que a juventude selenita reivindicava aos gritos nas bancadas de rua e de que tinha sérias razões para se sentir defraudada: a nova regulamentação não alterava nada da anterior, na medida em que sobrepunham nações ainda subdesenvolvidas às já devidamente industrializadas.

Seguiam-se as notas diplomáticas trocadas entre as seis superpotências atómicas, finalizando com isso as imagens diferidas de uma festa-orgia que já não se fazia desde os tempos da ditadura.

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<imperial- - >9226 caracteres - um inédito de 1975 - técnicas, artes e ciências tradicionais - alternativas ao imperialismo cultural – os dossiês do silêncio

MANIFESTO ECOREALISTA
CONTRA TODOS OS MULTINACIONAIS-INTERNACIONALISMOS
MANIFESTO EM DEFESA DA CULTURA POPULAR E DA TECNOLOGIA ARTESANAL

[90-10-05]

Sumário:

- Imperialismo cultural e «homem unidimensional»
- Brecha na engrenagem unidimensional
- Tecnologias leves e tecnologias de aldeia
- Não há revolução cultural sem retorno ao antigo
- Recolher o que resta da tradição popular (artes e ofícios)
- A invasão do plástico
- A barbárie tecnocrática acusa-nos de reaccionários
- Sociedade paralela à engrenagem vigente
- Trabalho artesanal significará trabalho penoso?
- Trabalho criador versus trabalho automatizado
- Os falsos «postos de trabalho» criados pela indústria
- A crise e a autosuficiência das tecnologias artesanais

[1975] - Quando o imperialismo cultural é cada vez mais veículo do imperialismo ideológico e este a ponta de lança do imperialismo económico

Quando, sob a capa do internacionalismo tecnológico, o que se pretende é apagar dos povos a sua consciência de independência nacional

Quando a tecnologia e a ciência, em vez da universalidade e do humanismo, o que impõem aos povos é um modelo «standart» de consumo pelo consumo, de desperdício pelo desperdício, de lixo pelo lixo

Quando a sociedade unidimensional e burocrática é o modelo que se pretende impor para substituir a personalidade de cada povo e a rica morfologia sócio-geográfica das culturas originais e tradicionais

Quando todo um aparelho repressivo de tirania e dominação cultural é comandado internamente por obedientes sucursais, por grupos elitistas, por minorias supostamente representativas da literatura, da arte, da ciência e da «intelligentzia» em geral

Quando a tecnologia artesanal se apresenta, regra geral, como lição ecológica a integrar num modelo de sabedoria económica de reaproveitamento e reciclagem (ecodesenvolvimento)

Quando as novas tecnologias leves preconizadas pelos movimentos de emancipação ecológica têm tudo a aprender com as artes e técnicas populares, durante séculos aperfeiçoadas e afeiçoadas à dimensão humana («small is beautiful»)

Quando às energias hiperpoluentes, às tecnologias pesadas, à industrialização maciça, acelerada e concentracionária se procura responder com alternativas energéticas, tecnológicas e industriais que sirvam a dimensão social do trabalho em vez de o alienar e colonizar ainda mais

o realismo ecologista ou ecorealismo:

proclama absoluta solidariedade com o criador da cultura - o povo

reafirma que não há evolução cultural sem uma reaprendizagem das raízes e fontes originais, da língua, da indústria, das tecnologias, das artes, das lendas e das ciências populares

sublinha não só a urgente necessidade de conhecer e reconhecer essa realidade imensa que nos precede e antecede, não só a urgente necessidade de recolher o que resta da tradição popular, mas a necessidade igualmente urgente de lutar contra todas as formas de recuperação que a ordem tecnofascista fez e pretende continuar a fazer do património popular tradicional

denuncia o comércio que tem sido feito, em mercados ditos do povo, com o trabalho dos artistas populares, que só são chamados a colaborar quando o turista, conspícuo e cúpido, espreita a peça artesanal com seus dólares e a leva, por bom preço, para renegociar no seu país

[entende ser urgente avisar o povo - através de todos os meios de comunicação social - desta expoliação, ao mesmo tempo que o incita a valorizar, a tomar consciência e a defender aquilo que é seu e que é a sua própria riqueza ancestral]

perante a invasão plástica, do produto «standart» e do objecto estereotipado, perante a menufactura industrial, a uniformização e a despersonalização do trabalho, o realismo ecologista rejeita as acusações de reaccionário, retrógrado, saudosista ou passadista com que se pretende demover uma acção prospectiva desenvolvida a favor do passado vivo, da tradição viva, da cultura viva original que é fundamento, alento, reconforto e garante da própria revolução cultural e da própria independência nacional.

[Lembra-se, a propósito, de que maneira a história e a tradição do Vietname contribuiu, na resistência contra o imperialismo sangrento, para manter viva a coesão popular, a consciência nacional, a chama, a luta, a fé na vitória e na independência]

[ao mesmo tempo que repudia a recuperação fascista das tradições populares - onde o património cultural nacional foi assimilado a um nacionalismo racista, a um nacional socialismo, reforço dos privilégios das classes tradicionalmente exploradoras, desde a aristocracia rural (paradoxalmente agarrada a preservar os valores da cultura popular...) à burguesia urbana]

Ao mesmo tempo que rejeita a acusação de reaccionário, retrógrado, retorno às cavernas e à Idade Média, o realismo ecologista denuncia a barbárie tecnocrática, o regresso efectivamente acelerado à mais sombria nova Idade Média, a violência e a crueldade da sociedade unidimensional do industrialismo e do superdesenvolvimento, ideologia com a qual se pretende arrancar as raízes profundas da realidade e da resistência popular a todos os imperialismos que disputam a hegemonia sobre os povos

O ecorealismo reafirma a possibilidade - através de uma brecha aberta na sociedade unidimensional, através da sociedade paralela e das alternativas ecológicas - de uma dialéctica entre cultura popular e cultura erudita

O ecorealismo reafirma a possibilidade de aplicar utensílios, técnicas, artes, objectos e fainas de criação popular em termos de emancipação económica do trabalhador, contestando o fatalismo que pretende identificar técnicas artesanais de trabalho com trabalho penoso e com exploração económica do trabalhador

Nem sempre e nem só - reafirma o ecorealismo - o trabalho penoso é o trabalho artesanal

Aliciado com outras facilidades, com vida «mais civilizada«, com emprego mais certo (?), com conforto (?) e consumos mais modernos, o trabalhador é aliciado para centros industriais, onde acaba por ser usado em trabalhos igualmente penosos, com a agravante de ser um trabalho automatizado, despersonalizado, solitário, alienante, mecânico e desenraizado de um contexto ou habitat social compensatório e até mais salubre

Quanto à hipocrisia dos «postos de trabalho» criados - diz-se - pela indústria pesada(postos de trabalho que a desordem capitalista nunca garantiu e jamais garantirá), a condição sine qua non do pleno emprego não é a industrialização mas uma planificação socioecológica da economia, que não se limite a multiplicar indústrias e a encaixar nelas a mão de obra que vai tirar à agricultura, mas a praticar uma estratégia de qualidade de vida, na manutenção e cuidado da qual se criem efectivamente novos e múltiplos empregos.

Atendendo à crise do capitalismo industrial, à recessão, ao desemprego e à inflação, não é o reforço de uma sociedade industrial em crise que irá garantir empregos e ocupar gente mas uma sociedade paralela que crie e multiplique novas necessidades na qualidade de vida e na luta contra a mecanização.

A sociedade vivável paralela a esta invivável, desafia os técnicos da administração e da economia, a aplicar o engenho técnico na descoberta de soluções para a síntese entre sabedoria ou cultura popular e as aquisições, porventura de alguma utilidade, trazidas pela tecnologia moderna.

Mas essa dialéctica pressupõe que se destrua o poder tecnocrático, que é a ditadura monopolista da técnica moderna sobre as alternativas passadas, presentes e futuras que a esse monopólio se abrem.

Não é uma sociedade ideal, asseptizada, feliz, estável e sem contradições o que o ecorealismo preconiza, ao preconizar uma «sociedade paralela«: mas que nenhuma política (económica, agrícola, escolar, de saúde, energética, alimentar, de consumos, etc.) se pratique, de futuro, sem atender a necessidades ecológicas de base, aos princípios ecológicos que tudo condicionam

Não esquecer as últimas e decisivas forças das quais depende a sobrevivência humana - as forças e leis da Natureza - e não menosprezar uma sabedoria que, ao longo dos séculos, mais vivo contacto manteve com essas forças e leis - a cultura original de cada povo - é o que o ecorealismo preconiza, quando empreende a defesa da cultura, aquela realidade que mais perto se encontra das raízes, das fontes a da força dessas forças.

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(*)Porque não deram as personalidades que se dizem, entre nós, maçónicas, qualquer tipo de atenção a uma concepção do trabalho que valoriza intrínseca e profundamente as «artes e ofícios» em detrimento das «tecnologias plásticas ordinárias» e de toda a mentalidade consequente?
Há, de facto, qualquer coisa profundamente errada nestes maçónicos do grande oriente e outros que tais.

(**) Ver ensaio longo de ac «em defesa das indústrias artesanais»

(***) Neste texto esboça-se a posição do ecorealismo face a redes e mafias multinacionais internacionalistas, para quem a pátria é a do dinheiro ou dos negócios

(****) Atenção aos mitos internacionalistas e à mutação dos conceitos políticos: como a consciência cultural de cada povo pode alterar os esquemas estabelecidos das ideologias de uniforme

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1-1 < 92-10-05-ah> afonso dos projectos - 2661 caracteres <escola-5><legado>

[5-10-1992]

BIBLIOTECA «FRENTE ECOLÓGICA»
GUIA PARA VIAJAR LÁ DENTRO

Não quero impor a ninguém a maneira um bocado «polémica» de entender a ecologia, ideia e maneira que o espólio da «Frente Ecológica», no fundo, traduz. Trata-se apenas de propor (e não de impor) uma hipótese de trabalho de forma a tornar mais rentável a sua utilização.

A concepção de ecologia que presidiu à formação deste espólio, com efeito, é um pouco diferente da concepção hoje dominante nos meios mediáticos. Por exemplo: poucos livros se encontrarão sobre Poluição, a não ser os que falam dos efeitos tóxicos da poluição no organismo humanao. Mas encontram-se muitos livros, por exemplo, sobre culturas diferentes (nomeadamente orientais) que podem constituir alternativas á sociedade industrial, mãe de todas as crises, incluindo a crise ecológica.

Vai encontrar-se, neste conjunto, um grande número de obras de autores que, habitualmente, não surgem citados em compêndios de ecologia científica. Estão lá alguns autores da ecologia científica, com efeito, mas outros que nada têm a ver com ciência, antes pelo contrário: poderão ser mesmo alguns dos seus principais críticos.

Porque ecologia, na acepção aqui pesquisada ao longo dos anos, e em função da qual se formou o espólio, tem muito mais a ver com um paradigma, um modelo cultural que se opõe ao paradigma vigente: o do cientifismo positivista. Os autores que predominam neste conjunto são, portanto, profetas e pioneiros desse paradigma, aqueles que concorreram, entre outros factores, para o nascimento da actual consciência ecologista. Que tem a ver com uma consciência cósmica, universal ou holística da vida.

Para quem esteja de fora, esta unidade «holística» do conjunto «Frente Ecológica» poderá não ser muito óbvia. Mas tornar óbvia, um dia, essa unidade, é afinal a aposta crucial desta démarche e desta iniciativa, que só agora vai tendo, na bibliografia, alguns confirmativos. Esta dúvida de agora reproduz, aliás, aquela que foi a grande dúvida e perplexidade, ao longo de 30 anos. Será a Ecologia Humana um logro? Será a unidade holística do universo humano uma utopia? Ou serão ambas etapas necessárias e suficientes da própria sobrevivência humana e planetária? Se chegámos à crise actual, ecológica e nem só, não terá sido porque levámos alguns séculos a separar e a dividir o que pertencia ao mesmo indissolúvel conjunto - o universo humano? Tratar-se-ia, portanto, com o paradigma holístico, de que a ecologia é um degrau, de situar no centro toda a questão. Questão de vida ou de morte, como nos pareceu sempre ser a ecologia. Muito mais, afinal, ou muito menos do que uma ciência no conjunto das ciências. Mais uma...